O Globo, Sociedade, p. 24
07 de Nov de 2017
ONU: ano será mais quente sem um El Niño
Furacões em série, incêndios florestais e temperaturas acima de 50oC marcam o ano
BONN, Alemanha - O primeiro dia da 23ª Conferência da ONU sobre o Clima foi marcado pela divulgação de um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) apontando que 2017 provavelmente será o ano mais quente já registrado, sem a interferência do El Niño. O ano foi marcado por muitos extremos climáticos, como os furacões que assolaram os EUA e o calor e a seca sobre a Europa. Entre janeiro e setembro, a temperatura média do planeta foi de 1,1 grau Celsius acima do período pré-industrial, menor apenas que 2016, que foi influenciado por um poderoso El Niño.
- Os últimos três anos estiveram entre os três primeiros lugares em termos de registros de temperatura. Isso faz parte de uma tendência de aquecimento de longo prazo - comentou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas. - Testemunhamos um clima fora do comum, incluindo temperaturas superiores a 50 graus Celsius na Ásia, furacões em rápida sucessão no Caribe e no Atlântico até a Irlanda, devastadoras inundações de monções que afetam muitos milhões de pessoas e uma seca implacável na África Oriental.
Segundo o relatório, 2016 continuará sendo o mais quente já registrado, com 2017 e 2015 disputando o segundo lugar. O quinquênio 2013-2017 provavelmente será o mais quente desde o início dos registros. A temperatura média global entre janeiro e setembro de 2017 foi de 0,47o ± 0,08o C mais quente que a média de 1981-2010 (estimada em 14,31 graus Celsius). Isso representa um aumento de temperatura de aproximadamente 1,1 grau Celsius desde o período pré-industrial. Partes do sul da Europa, incluindo a Itália, África do Norte, partes do leste e sul da África e a parte asiática da Federação Russa tiveram recordes de temperatura e a China estava igualmente mais quente. O noroeste dos EUA e o oeste do Canadá estiveram mais frios do que a média de 1981-2010.
As temperaturas em 2016 e, até certo ponto, 2015, foram impulsionadas por um El Niño excepcionalmente forte. Mas 2017 é o ano mais quente registrado sem a influência do fenômeno. A média de cinco anos entre 2013 e 2017 é provisoriamente 0,40 grau Celsius mais quente do que a média registrada entre 1981 e 2010 e aproximadamente 1,03 grau Celsius acima do período pré-industrial.
E as alterações nas temperaturas provocam outras mudanças nos padrões climáticos. Entre janeiro e setembro a precipitação no Brasil esteve perto da média, assim como no norte da América do Sul e na América Central, o que aliviou as secas associadas ao El Niño em 2015 e 2016. No Sahel, as chuvas estiveram acima da média, provocando inundações em algumas regiões. Na Índia, as monções ficaram 5% abaixo da média, mas foram concentradas no nordeste e em países vizinhos, causando destruição. As pradarias canadenses, a região do Mediterrâneo, a Somália, a Mongólia, o Gabão e o sudoeste da África do Sul receberam menor precipitação do que a média. A Itália teve seu período mais seco já registrado.
- Essas descobertas destacam os riscos crescentes para as pessoas, as economias e o próprio tecido da vida na Terra se não conseguimos seguir os objetivos e as ambições do Acordo de Paris - disse Patricia Espinosa, secretária executiva da ONU sobre Mudanças Climáticas. - Existe um impulso sem precedentes e muito bem vindo entre os governos, mas também cidades, estados, territórios, regiões, negócios e sociedade civil. Bonn 2017 precisa ser a plataforma de lançamento para o próximo nível de ambição mais elevado por todas as nações e todos os setores da sociedade à medida que procuramos minimizar os riscos para o futuro e maximizar as oportunidades de um caminho de desenvolvimento novo, avançado e sustentável.
COBERTURA DE GELO EM BAIXA
A cobertura de gelo no Ártico esteve bem abaixo da média ao longo do ano, com recordes de baixa nos primeiros quatro meses do ano. A extensão máxima anual no início de março esteve entre as cinco menores desde o início dos registros satelitais, em 1979. As cinco menores extensões máximas aconteceram a partir de 2006. Já a extensão mínima, em meados de setembro, esteve entre 25% e 31% abaixo da média de 1981 a 2010.
O mesmo cenário aconteceu na Antártica, que teve a cobertura de gelo bem abaixo da média. Na Groenlândia aconteceu o contrário, com um aumento de mais de 40 bilhões de toneladas de gelo por causa de uma nevasca acima da média e uma curta estação de derretimento. Mas o valor é irrisório frente as mais de 3.600 bilhões de toneladas de gelo perdidas desde 2002.
As temperaturas globais da superfície do mar caminham para figurar entre as três maiores já registradas, contribuindo para o branqueamento dos corais. A UNESCO informou em junho que todos, exceto três dos 29 recifes de corais listados como Patrimônio Mundial, tinham experimentado temperaturas consistentes com o branqueamento em algum ponto no período 2014-2017.
De acordo com a Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, o oceano absorve até 30% das emissões anuais de CO2 antropogênico na atmosfera, ajudando a aliviar os impactos das mudanças climáticas no planeta. No entanto, isso ocorre a um custo ecológico crescente, já que o CO2 absorvido muda os níveis de acidez dos oceanos. Desde que recordes na estação de Aloha (norte do Havaí) começaram, no final da década de 1980, o pH da água do mar diminuiu progressivamente, de valores acima de 8,10 no início da década de 1980 para entre 8,04 e 8,09 nos últimos cinco anos.
EMISSÕES DE GASES-ESTUFA EM ALTA
Apesar da retórica assumida por governos de todo o mundo para a redução das emissões de gases-estufa, a taxa de aumento de CO2 entre 2015 e 2016 foi a maior já registrada, de 3,3 partes por milhão, fazendo com que a concentração alcançasse 403,3 partes por milhão. Os dados médios globais para 2017 só serão divulgados no fim de 2018, mas informações em tempo real de algumas estações indicam que os níveis de CO2, metano e óxido nitroso continuam aumentando.
A temporada atípica de furacões também foi destacada pela OMM. Três furacões de categoria 5 se formaram no Atlântico Norte - Harvey, Irma e Maria. O Harvey atingiu o Texas como um sistema de categoria 4, provocando chuvas extremas e inundações. Em sete dias, a precipitação alcançou 1.539 milímetros em Nederland, o maior já registrado para um único evento nos EUA continental. Foi a primeira vez que o país que pretende deixar o Acordo de Paris foi atingido por dois furacões de categoria 4 - Harvey e Irma - no mesmo ano.
Já o Ofélia alcançou apenas a categoria 3, mas foi formado a mais de 1000 quilômetros a nordeste que qualquer outro furacão, provocando estragos na Irlanda, e seus ventos associados contribuíram para o alastramento dos incêndios em Portugal e na Espanha.
INUNDAÇÕES PROVOCAM MILHARES DE MORTES
Em agosto, fortes chuvas provocaram um deslizamento de terra em Freetown, Serra Leoa, matando mais de 500 pessoas. Em duas semanas, choveu 1.459 milímetros na cidade, quatro vezes mais que a média. As monções provocaram a morte de mais de 1.200 pessoas no norte da Índia, Bangladesh e Nepal, com mais de 40 milhões de pessoas sendo deslocadas ou afetadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, apenas em Bangladesh 13 mil casos de doenças transmitidas pela água ou infecções respiratórios foram relatados em apenas três semanas.
No Peru, fortes chuvas mataram 75 pessoas em março e deixaram 75 mil desabrigados. Em Mocoa, no sul da Colômbia, um deslizamento de terra em abril provocou 273 mortes.
Excepcionalmente forte chuva provocou um deslizamento de terra em Freetown, na Serra Leoa em agosto, matando mais de 500 pessoas. Freetown recebeu 1459,2 mm de chuva em duas semanas, cerca de quatro vezes mais do que a média. As fortes chuvas contribuíram para um deslizamento de terra em Mocoa, sul da Colômbia, em abril, com pelo menos 273 mortes relatadas.
Partes da África Oriental continuaram a ser gravemente afetadas pela seca. Após precipitação bem abaixo da média em 2016, a temporada 2017 de "longas chuvas", entre março e maio, também foram abaixo da média em muitas partes da Somália, na metade norte do Quênia e no sudeste da Etiópia. Segundo a FAO, mais da metade da região de cultivo foi afetada pela seca na Somália, com a redução dos rebanhos entre 40% e 60% desde dezembro do ano passado. Nos três países, mais de 11 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar severa.
Muitas partes do Mediterrâneo experimentaram condições de seca incomuns. A mais severa foi na Itália, atingindo a produção agrícola e causando uma queda de 62% na produção de azeite em comparação com 2016. A precipitação média sobre o país entre janeiro e agosto foi 36% abaixo da média. As temperaturas também bateram recorde, ficando 1,31 grau Celsius acima da média 1981-2010. Outras áreas secas incluíram muitas partes de Espanha e Portugal.
Uma forte onda de calor afetou partes da América do Sul em janeiro. No Chile, vários locais tiveram a maior temperatura registrada, incluindo Santiago (37,4 grau Celsius). Na Argentina, a temperatura atingiu 43,5 grau Celsius no dia 27 de janeiro em Puerto Madryn, a maior já registrada tão ao sul em qualquer lugar do mundo.
TEMPERATURAS ACIMA DOS 50o C
Grande parte da Austrália Oriental experimentou um calor extremo em janeiro e fevereiro, atingindo o máximo de 11 a 12 de fevereiro, quando as temperaturas alcançaram 47 graus Celsius. Um calor excepcional afetou partes do sudoeste da Ásia no final de maio. Em 28 de maio, as temperaturas atingiram 54,0 graus Celsius em Turbat, no extremo oeste do Paquistão, perto da fronteira iraniana, e também excederam 50 graus Celsius C no Irã e Omã. Uma temperatura de 53,7 graus Celsius foi registrada em Ahwaz, no Irã, em 29 de junho, e Bahrein experimentou seu agosto mais quente já registrado.
A cidade chinesa de Xangai e o Observatório de Hong Kong registraram novos recordes de 40,9 graus Celsius e 36,6 graus Celsius durante o verão. No Mediterrâneo, Córdoba, no sul da Espanha, experimentou 46,9 graus Celsius em 12 de julho, e Granada, 45,7 graus Celsius em 13 de julho. Uma onda de calor extensa no início de agosto levou a recordes de temperatura no norte e centro da Itália, na Croácia e no sul da França.
A Califórnia teve seu verão mais quente já registrado e o calor extremo afetou outros estados ocidentais. Isso culminou em uma grande onda de calor no final de agosto e início de setembro, que incluiu uma temperatura recorde alta em São Francisco, com 41,1 graus Celsius.
A combinação de calor extremo com a seca contribuiu para incêndios florestais destrutivos. O Chile registrou os seus piores incêndios, com 614 mil hectares de florestas destruídos e 11 mortes. O Mediterrâneo também sofreu com as queimadas. pior incidente ocorreu no centro de Portugal em junho, com 64 mortes. Em outubro, a Califórnia registrou o incêndio mais mortal desde 1918, com ao menos 43 mortes.
- Muitos desses eventos - e estudos científicos detalhados determinarão exatamente quantos - carregam o sinal revelador das mudanças climáticas causadas pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa gerado pelas atividades humanas - alertou Tallas.
O Globo, 07/11/2017, Sociedade, p. 24
https://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/relatorio-aponta-qu…
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