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ONGs e o que é realmente importante

Valor Econômico, Opinião, p. A9
Autor: FONTRODONA, Joan
10 de Fev de 2016

ONGs e o que é realmente importante
Enquanto a força motriz por trás do setor público é o poder, e a força motriz por trás do setor privado é a lógica do mercado, generosidade é o que impulsiona o terceiro setor. É o setor "pessoal " num terreno, sob outros aspectos, em grande parte despersonalizado

Por Joan Fontrodona

É amplamente reconhecido que em nossas sociedades a ação conjunta entre o setor público, a iniciativa privada e as ONGs têm solucionado muitos problemas complexos. Ninguém duvida que houve excelentes resultados quando os setores público e privado optaram por cooperar entre si, no passado, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento.
Mas, embora as fronteiras desses três setores fossem, antes, tão bem delineadas, em anos recentes elas ficaram consideravelmente indistintas. Temos visto o surgimento de importantes movimentos sociais que ocupam espaços antes reservados ao setor público (por exemplo, na maneira como a sociedade civil entrou na esfera política para conseguir o que desejava). E como modelos de negócios com fins lucrativos das denominadas empresas híbridas, além da lucratividade, passaram a ter interesse em ajudar causas de outro modo deixadas para o terceiro setor.
Em consequência disso, as ONGs precisam repensar seriamente a maneira como fazem as coisas. Elas estão descobrindo que é necessário adaptar-se e evoluir, pois estão sofrendo pressões que antes não se colocavam, pressões que os setores público e privado sempre sofreram no passado. Modelos de financiamento, por exemplo. Antes da crise econômica, as ONGs em larga medida dependiam de financiamento público. Mas, em vista do impacto internacional sobre as economias, cortes foram feitos (talvez excessivos), obrigando as ONGs a buscar outros meios de financiamento para seus projetos, por exemplo, indo às empresas. No entanto, as empresas também fizeram cortes necessários para sobreviver e o que cortaram não era exatamente supérfluo.
As ONGs também começaram a buscar financiamento de pessoas físicas como uma maneira de atingir os números necessários para realizar seus projetos. Isso explica o surgimento e crescimento do fenômeno de "crowdfunding" (financiamento coletivo), que tornou-se um ator importante na arena das ONGs nos últimos anos.
Seus modelos de negócios também sofreram um impacto, o que as obrigou a adaptarem-se à nova realidade. A restauração da força desse setor é efetivamente possível mediante ações corretas, e isso significa ser imperativa a redefinição dos modelos de negócio das ONGs. Os anos de abundância anteriores à crise tinham lhes permitido ganhar algum terreno para realmente crescer como um setor. Mas, com a crise, nasceu a concorrência.
Agora cada ONG precisa aprimorar-se naquilo que a torna diferente, no que a torna digna de sobreviver.
E, naturalmente, aprender a agruparem-se, formando alianças de colaboração e redes entre si para aumentar suas chances de dar o que querem fornecer também se tornou parte de seu processo evolutivo.
Outro desafio que as ONGs estão enfrentando é o que vem com o rótulo "ONG". Estamos todos familiarizados com casos de práticas questionáveis que prejudicaram a boa imagem e a confiança nessas organizações. Restabelecer a reputação do que uma ONG afirma estar fazendo requer mensurar impacto de seu trabalho, promovendo a transparência de sua gestão e prestando contas de tudo isso às várias partes interessadas, especialmente àqueles que disponibilizam recursos e beneficiam-se dessas atividades, ou seja, seu modelo de governança. Não fazer isso cria mais dificuldades no momento de levantar os recursos financeiros necessários, o que já é bastante difícil hoje em dia.
No entanto, apesar de todas essas medidas de adaptação e das novas pressões compartilhadas com os outros dois setores (público e privado), as ONGs ainda tem um grande fator de diferenciação. Esse fator está vinculado à origem de sua existência. Enquanto a força motriz por trás do setor público é o poder, e a força motriz por trás do setor privado é a lógica do mercado, generosidade é o que impulsiona o terceiro setor. É o setor "pessoal" num terreno, sob outros aspectos, em grande parte despersonalizado.
As ONGs refletem a realidade humana de dar sem aceitar nada em troca. Essa contribuição social reflete a forma mais elevada de justiça, também denominada "caridade". "Caridade", porém, não no sentido de esmola aos pobres, mas no de buscar o bem nos outros. O mercado despersonaliza. A renda per capita é o foco e não há distinção entre quem detém a renda e quem tem a capita. O poder também despersonaliza: é fácil impor a opinião da maioria às exigências legítimas da minoria. O papel do 3o setor é evitar a despersonalização da sociedade, levando em conta cada pessoa e suas necessidades.
Uma sociedade que promove o bem-estar, também denominado bem-comum, não só deve buscar a criação de riqueza e a distribuição justa dessa riqueza. Deve ir além disso. Precisa buscar o bem de todos e de cada um dos seus membros. A busca do bem comum, porém, exige disposição para sacrificar o interesse próprio em favor do bem dos outros, das necessidades materiais mais urgentes às mais altas aspirações humanas. Por essa razão, o terceiro setor é necessário, não só pelo que realiza, mas pelo que nos recorda: que no coração de qualquer iniciativa - seja social, pública ou privada, há seres humanos.
É verdade: as fronteiras entre as esferas pública, privada e o terceiro setor tornaram-se difusas. O que não quer dizer que isso seja aceitável ou benéfico. Apesar de as ONGs estarem cada vez mais sujeitas às mesmas pressões e demandas da sociedade, nossa dinâmica social sairia prejudicada se o terceiro setor vier a perder a qualidade da diferenciação de sua contribuição para o conjunto da sociedade: a importância das pessoas. (Tradução de Sergio Blum)

Joan Fontrodona é professora de ética empresarial na IESE Business School e diretora acadêmica do Center for Business in Society na IESE.

Valor Econômico, 06-10/02/2016, Opinião, p. A9

http://www.valor.com.br/opiniao/4428956/ongs-e-o-que-e-realmente-import…

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