O Globo, Economia, p. 24
13 de Abr de 2004
ONGs discutem política social de Lula
Flávia Oliveira
Em mais um episódio que promete marcar este segundo abril da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois das invasões do MST, a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) realiza, hoje e amanhã, no Rio, seu primeiro seminário de avaliação do novo governo. O evento vai reunir cem das 270 entidades associadas à Abong, que vão debater o modelo econômico e as políticas sociais de Lula. Segundo o diretor-geral da Abong, Jorge Durão, a tônica será a frustração dos movimentos sociais com a política econômica. Mas ele garante que o evento quer propor ao governo caminhos para retomar o crescimento econômico e melhorar as condições de vida dos brasileiros. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao GLOBO:
Motivações: "A motivação desse evento vem da inevitável relação entre o trabalho das ONGs e a atuação governamental. As ONGs lidam com temas como políticas públicas, modelo de desenvolvimento, defesa de direitos, que têm tudo a ver com o governo. O compromisso dos nossos associados é com as propostas de mudanças, afinal a Abong é uma das principais organizadoras do Fórum Social Mundial, que afirma que um outro mundo é possível. Em função disso, tínhamos expectativas muito positivas em relação ao governo Lula".
Perplexidade: "Entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2002, Lula falou em construir um pacto social e nós começamos a debater esta idéia. Esperávamos um pacto social em torno da redução das desigualdades e da construção de um projeto de desenvolvimento sustentável. Após a posse, começou um período, para as ONGs, de muita perplexidade, à medida que era sinalizada a continuidade de vários aspectos da política anterior. É claro que todo mundo sabia que Lula tinha feito alianças e não poderia governar sem uma base política de sustentação muito mais ampla do que o PT. Mas era razoável acreditar que um presidente eleito com a votação que Lula teve teria uma certa força política própria para tomar certas decisões que estivessem de acordo com as expectativas dos eleitores".
Promessas: "Lula não se comprometeu apenas a respeitar os contratos, mas a criar dez milhões de empregos. Sinalizar com a continuidade de uma política que fez o Produto Interno Bruto (PIB) cair significa dizer que essa meta não será realizada nem em uma pequena proporção. Houve a elevação do superávit primário também. Na Argentina, o presidente Néstor Kirchner estabeleceu um teto de 3% para o superávit nas negociações com o FMI, e ele não tinha a mesma força política do Lula. Talvez um dos erros mais evidentes do PT e de Lula seja a subestimação de seu capital político".
Contradições: "A política econômica e suas conseqüências em relação às políticas sociais não são o único campo em que as contradições do governo geram frustração. Também surpreendeu as ONGs a aproximação de Lula com os representantes do agronegócio. É compreensível que o governo se apóie no setor que é capaz ampliar as exportações brasileiras, mas há uma dúvida sobre qual o projeto do governo Lula. O governo ainda não conseguiu equacionar de maneira clara a relação entre agricultura familiar e o agronegócio. Como as ONGs atuam em vários segmentos, elas estão sentindo as contradições deste governo".
Crescimento: "As decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre os juros, os pronunciamentos do presidente Lula e do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, a maneira como o governo vem lidando com as críticas dentro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social revelam uma certa inflexibilidade. Continuamos na mesma situação de fragilidade, e a conseqüência é que a administração continuada dessa confiança do mercado significa manter as mesmas relações entre os que ganham e os que perdem neste país. Vai continuar uma estabilidade monetária que não garante crescimento econômico, uma vulnerabilidade externa e uma concentração de renda imensa. É uma situação que não acena com nenhuma esperança".
O Globo, 13/04/2004, Economia, p. 24
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