OESP, Vida, p. A20
19 de Out de 2006
ONG quer o fim do velho fogão a lenha
Grupo americano realizou evento em Brasília para pedir ao governo substituição de milhões de modelos primitivos
Ricardo Westin
Um encontro internacional realizado no início da semana em Brasília chamou a atenção para um problema presente no País, mas pouco conhecido: os primitivos fogões a lenha e os riscos que eles representam para a saúde e para o meio ambiente.
Neste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um relatório em que afirma que mais de 3 bilhões de pessoas dependem de combustíveis sólidos, como madeira e carvão, para cozinhar. Só no Brasil, de acordo com o Ministério de Minas e Energia, cerca de 8 milhões de famílias usam os velhos fogões a lenha, principalmente na zona rural.
A principal preocupação é com a saúde de quem está na cozinha. Muitas vezes, o fogão é tão improvisado que a fumaça se espalha pela casa, o que pode causar câncer de pulmão, asma, catarata e tuberculose. De acordo com a OMS, respirar os poluentes do fogão equivale a fumar dois maços de cigarro por dia. Estima-se que no Brasil, dos 8 milhões de fogões, 30% não eliminam a fumaça corretamente.
Ainda segundo a OMS, 1,5 milhão de pessoas morrem por ano no mundo por esse motivo. "Muitas vezes a mulher que está no campo morre e não se faz a relação com a fumaça da lenha", afirma Rogério Carneiro de Miranda, responsável pelos programas de energia doméstica da Winrock International, a organizadora do Encontro Internacional sobre Poluição Doméstica, realizado em Brasília na segunda e na terça. A ONG tem sede em Washington, nos EUA.
O problema também é comum nas grandes cidades, nos bairros mais pobres, onde as pessoas não têm dinheiro para o gás. "Lá encontramos os piores fogões, improvisados com tijolos", explica Luiz Augusto Horta Nogueira, professor do Instituto de Recursos Naturais da Universidade Federal de Itajubá (Unifei).
A necessidade de lenha leva também à derrubada de árvores, mas esse não é considerado um problema tão crítico.
O Ministério da Saúde não tem nenhum programa especificamente para os fogões a lenha. O Ministério do Meio Ambiente apóia iniciativas locais para a troca dos velhos modelos por novos ecologicamente corretos, que usam pouca madeira e não liberam fumaça dentro de casa.
O representante do Ministério do Meio Ambiente no evento em Brasília foi o secretário de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável, Gilney Viana. Segundo ele, o ministério está empenhado em incluir os "ecofogões" na lista de mercadorias isentas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), para baratear a produção. "Dependemos do Ministério da Fazenda." O "ecofogão" mais barato custa cerca de R$ 300.
Para muita gente, o valor é alto. Há dois meses, a pedreira Dulcinéia Souza da Silva, de 55 anos, levantou um fogão a lenha em casa, na periferia de São Paulo, para economizar no gás. "Uso o fogão a lenha para cozinhar feijão, fazer pudim. Quando é só para a água do café, uso o fogão comum", explica. O fogão é improvisado e só não faz mal à saúde porque fica no quintal. "Eu não queria as paredes da cozinha pretas de fuligem."
OESP, 19/10/2006, Vida, p. A20
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