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ONG nao repassa recursos doados

JB, Pais, p.A4
17 de Abr de 2004

ONG não repassa recursos doados
Dinheiro proveniente da venda de mogno do Ibama será aplicado no mercado financeiro até o segundo semestre deste ano
Luiz Queiroz
Desde o dia 18 de fevereiro, a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) dispõe numa conta do Banco da Amazônia (Basa) da quantia de R$ 4,7 milhões. Este valor é o montante apurado pela ONG com a exportação do mogno que lhe foi doado pelo Ibama em julho do ano passado, por sinal maior do que o previsto inicialmente em contrato. De acordo com o representante da Fase no Pará, Matheus Otterloo, os recursos geraram, até agora, um rendimento de R$ 50 mil na caderneta de poupança.
A ONG criou o Fundo Dema, em homenagem a Ademir Alfeu Federicci, líder dos movimentos sociais da região, assassinado em 2001. O fundo é administrado por um conselho gestor, presidido pela Fase e composto por representantes de organizações não-governamentais da região do mogno apreendido: Fundação Viver, Produzir, Preservar, do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu; Prelazia do Xingu, entre outros. Nenhum órgão federal faz parte desse conselho gestor, nem mesmo o Ibama, que doou a madeira.
De acordo com as exigências do termo de doação com encargos assinado pela ONG e o Ibama, o capital inicial deve permanecer inalterado, ou seja, somente serão repassados para programas sociais os rendimentos das aplicações feitas pelo Basa em cima do montante de R$ 4,7 milhões.
Como até agora somente R$ 50 mil foram apurados com os investimentos, a ONG ainda não repassou recursos para nenhum programa social nos quais se comprometeu a investir.
- A fim de garantir um acúmulo razoável de rendimentos que justifique os gastos da administração e a dinâmica de encaminhamento, seleção e aplicação dos recursos nos projetos, o Fundo Dema elaborou, com o Basa, um plano de investimentos em que se esperará até o segundo semestre deste ano para abrir o processo de aplicação dos recursos - explicou a direção da Fase.
Bastante irritado, Matheus Otterloo, responsável pelas atividades da Fase no Pará e pelo controle do uso do dinheiro do fundo, alegou ontem, por telefone, que todas as informações sobre a contabilidade do Fundo Dema encontram-se na página oficial da Fase na internet. Porém, numa pesquisa feita ontem pelo JB essas informações não estavam disponíveis. Não há dados sobre para onde foi o dinheiro, quanto já foi investido e como estão sendo aplicados os recursos em programas assistenciais das comunidades atingidas com o desmatamento ilegal.
Casado com uma paraense, o holandês Matheus Otterloo está há 35 anos na Amazônia. Ele foi o responsável pelas negociações da Fase com a Madeireira Cikel Brasil Verde para o beneficiamento e a exportação de 6 mil toras de mogno e 200m³ de mogno serrado apreendidos pelo Ibama em 2002 na região de Altamira (PA) e doados para a ONG em 2003. Otterloo também defende o acordo com a Madeireira Cikel, apesar dela ter tido problemas com a legislação ambiental.
O Ibama, ao que parece, não comunga desta opinião. Uma força-tarefa está sendo montada dentro do órgão para vasculhar as atividades da madeireira. Não precisa ir tão longe. Se o governo quer saber quem realmente é a Cikel, a quem conferiu o Selo Verde - certificado dado para empresas ecologicamente corretas -, basta consultar o Cadastro de Inadimplentes do Governo Federal (Cadin). A madeireira freqüenta a lista de devedores do INSS desde 13 de março de 2002.

JB, 17/04/2004, p. A4

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