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Oficina no Xingu valoriza iniciativas socioambientais de professores e agentes de manejo indígenas

Y Ikatu Xingu - www.yikatuxingu.org.br
Autor: Sara Nanni
22 de nov de 2008

I Oficina "Reconhecimento e Valorização das Iniciativas Socioambientais Locais" é parte de uma das principais linhas de ação da campanha Y Ikatu Xingu, que busca formar agentes que conduzam projetos socioambientais em suas comunidades.

Há três anos a campanha Y Ikatu Xingu trabalha no Mato Grosso a formação de agentes socioambientais. Com duas turmas formadas e outras três ainda com o processo de formação em andamento, a campanha agora busca atingir um público diferenciado. De 10 a 14 de novembro, aconteceu na sede da Associação Terra Indígena Xingu (ATIX), no Diauarum, dentro do Parque Indígena do Xingu (PIX), o primeiro módulo da Oficina "Reconhecimento e Valorização das Iniciativas Socioambientais Locais". Dessa oficina participaram 36 índios, das etnias Yudjá, Ikpeng, Panara, Kisêdjê e Kawaiwete, que trabalham como professores e agentes de manejo nas aldeias. Cada etnia escolheu a iniciativa socioambiental que deseja desenvolver nas aldeias e escolas. O próximo módulo acontecerá em maio de 2009.

Alguns temas e conceitos importantes do cotidiano dos participantes foram abordados pelos técnicos do Instituto Socioambiental (ISA), que conduziram a oficina, como território e territorialidade, fogo e roças. No primeiro e segundo dias de oficina, o tema território foi abordado por Rosana Gasparini, geógrafa e assessora técnica do projeto Formação de Professores Indígenas do PIX. A introdução do tema aconteceu com um desenho feito com giz no chão, que mostrava o Xingu e seus afluentes. Ali cada participante apontou onde estão localizadas suas aldeias. Em seguida, eles falaram o que pensam a respeito do significado da palavra território: uma casa para morar; um lugar para viver, manter a língua e a cultura viva, deixar a floresta em pé, produzir alimentos, pescar e caçar. "O conceito de territorialidade não está fechado e continuará sendo construído no próximo módulo", afirmou Gasparini.

Divididos em grupos, formados por integrantes da mesma etnia, eles apontaram em mapas seus locais de uso e ocupação do território. Através de legendas, canetas e lápis coloridos os índios foram identificando onde estão os recursos naturais das aldeias, as áreas de caça e de plantio, as estradas, os lugares sagrados, os diferentes ecossistemas e a mata derrubada. Cada etnia teve a oportunidade de apresentar aos demais povos o mapa que construíram. Todas as informações serão depois reunidas em um único mapa, que será elaborado pelo Laboratório de cartografia do ISA em São Paulo.

Fogo

O fogo também foi um tema bastante explorado durante o curso, já que faz parte da cultura dos povos indígenas ao mesmo tempo em que é preocupante do ponto de vista ambiental. Kátia Ono, ecóloga e assessora técnica do Projeto Desenvolvimento de Alternativas Econômicas Sustentáveis e Formação de Agentes Indígenas de Manejo de Recursos Naturais, falou sobre a história do uso do fogo pela humanidade, desde o seu descobrimento até a era industrial. Os índios puderam falar sobre a forma como vêem o uso do fogo para fazer roças, a fumaça gerada pelas queimadas e como o fogo tem sido controlado por eles sem que isso atrapalhe suas atividades de plantio. Os efeitos negativos do uso do fogo foram lembrados, em especial o aquecimento global e os problemas que pode causar à saúde e à fertilidade do solo. "O desmatamento virou um problema tão grave que algumas leis tiveram que ser criadas contra as queimadas feitas por populações tradicionais para fazer as roças", falou a ecóloga que também ouviu dos índios exemplos de algumas comunidades que estão utilizando técnicas para controlar o fogo.

Novamente os participantes do curso dividiram-se em grupos por etnias e montaram uma linha do tempo, na qual expuseram como o fogo foi descoberto por eles reportando aos mitos de origem de cada povo e, como tem influenciado a cultura de cada etnia. "Há muitos anos os nossos ancestrais assavam a carne de caça e peixe com a quentura do sol. Um pássaro ensinou que quando o fogo apagava existia uma vara boa e que se esfregasse uma na outra o fogo voltava a aparecer", escreveram os Kisêdjê.

Roça

Numa área para roça próxima ao Posto Indígena Diauarum, Osvaldo Luis de Sousa, técnico do ISA em agrofloresta, organizou os participantes do curso para que eles pudessem mostrar como plantam e fazem suas roças e todas as crenças envolvidas nesse costume. Os Panará e os Kaiabi demonstraram como o amendoim é plantado, e os Kisêdjê como fazem o plantio do urucum. Depois eles plantaram várias sementes misturadas, ou "muvuca", de pequi, jatobá, baru, maracujá, cagaita, murici e peroba. Nesse primeiro módulo procurou-se dar maior valor aos conhecimentos que os índios têm sobre roças e plantios, e pretende-se nos próximos módulos aprofundar alguns conceitos relacionados a Sistemas Agroflorestais (SAFs).

Iniciativas

Nos dois últimos dias da oficina, teve início o trabalho de planejamento das iniciativas, que partiu da identificação de ações já existentes nas aldeias e da vontade de cada participante realizar suas idéias. Cristina Velásquez, gestora do Consórcio Governança Florestal nas Cabeceiras do Xingu no ISA, explicou o significado das palavras "iniciativa" e "socioambiental" a partir do conhecimento que os índios já trazem sobre esses conceitos e de acordo com os seus costumes e práticas, buscando encontrar referências cotidianas em cada um dos povos presentes. "Este processo formativo tem o diferencial de trabalhar conjuntamente o desenvolvimento do indivíduo como agente transformador dentro da coletividade bem como desenvolver debates e discussões acerca dos temas tratados", avaliou Velásquez.

Os participantes da oficina dividiram-se por etnia e definiram com quais iniciativas irão trabalhar na escola ou na aldeia. Os Panará decidiram fazer uma oficina para o plantio de espécies de árvores encontradas no Xingu, na aldeia Nãsêpotiti, que poderá envolver lideranças, agentes de saúde e manejo, professores e assessores. Já os Yudjá pensaram numa roça experimental instalada numa escola para que os alunos possam aprender a ciência e a prática do manejo agroflorestal. Já os Ikpeng demonstraram interesse em trabalhar com o enriquecimento de Sistemas Agroflorestais e fortalecimento de formas tradicionais de trabalho.

Também participaram da oficina, na organização, no planejamento e nas palestras, Angelise Pimenta, técnica em pesquisa e desenvolvimento socioambiental, e Paula Mendonça de Menezes, assessora técnica do Projeto Formação de Professores Indígenas, do ISA.

Parceiros da comunicação da campanha Y Ikatu Xingu:

Instituto Socioambiental-ISA (Canarana-MT)
Sara Nanni
(66) 3478-3491 / sarananni@socioambiental.org / www.yikatuxingu.org.br

Instituto Centro de Vida-ICV (Cuiabá-MT)
Gisele Neuls
(65) 3615 8549 / gisele@icv.org.br / www.icv.org.br

Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento-FORMAD (Cuiabá-MT)
Andre Alves
(65) 3324-0893 / andre@formad.org.br / www.formad.org.br

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lucas do Rio Verde (MT)(STRLRV)
(65) 3549-1819 / strlrv@gmail.com / strlrv.blogspot.com

Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)
Maristela da Rosa
(66) 3478-3631 / maristela@ipam.org.br

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