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Oceanos pedem socorro

O Globo, Razão Social, p. 4-5
03 de Ago de 2010

Oceanos pedem socorro

Amelia Gonzalez

O barulho das serras elétricas cortando árvores, quer seja na cena urbana ou na floresta, serve como um alarme que, atualmente, já provoca reações nas pessoas. O desmatamento virou vilão, pelo menos para os mais conscientes. E equipamentos foram criados para detectar quanto nos resta ainda de área verde para respirar. Se nada está resolvido, pelo menos existe uma preocupação e o caminho está sendo percorrido. Mas, e as águas marinhas? Dois recentes episódios de vazamento de óleo (no Golfo do México e na China) acenderam para a maioria das pessoas uma preocupação que, para muitos especialistas, já é antiga: o estresse dos mares e oceanos, também causado pela ação dos homens.

Há muitos motivos que danificam o ecossistema marinho. O vazamento do navio da empresa britânica British Petroleum, mundialmente conhecido, é o dano mais comentado hoje. No entanto, segundo lembra o químico especializado em contaminação química dos oceanos e diretor da Noaa (National Oceanic and Atmospheric Administration), Jeffrey Short, pouco se sabe ainda do mal que os 350 a 700 milhões de litros de óleo jogados no Golfo do México causarão aos oceanos:

- Embora estudos estejam sendo feitos em laboratórios, de fato não sabemos ainda muito sobre o impacto nos ecossistemas marinhos desses vazamentos de óleo. Por exemplo: certos hidrocarbonos podem causar toxicidade nos organismos marinhos (e humanos também) - disse Short.

Ricardo Chaloub, professor e pesquisador do Instituto de Química da UFRJ garante que, no mínimo, "o óleo não deixa vazar a luz":

- A fotossíntese precisa de luz, e no mar há microalgas fazendo fotossíntese. Elas servem de alimento para o zooplanctum que é comido pelas larvas do peixe que comemos. Se não entrar luz não há fotossíntese e a cadeia alimentar está sendo corroída - disse ele.

Se desconhecem parcialmente o tamanho da encrenca, os estudiosos têm certeza do que deve ser feito para tentar salvar o que ainda resta de ecossistema marinho. São atitudes que passam por uma mudança profunda de hábitos da sociedade que inclui, especialmente, a diminuição de emissões de CO2 na atmosfera.

- O que pode ser feito é muito simples, embora muito difícil. É essencial que cada nação faça o possível para reduzir as emissões de dióxido de carbono, imediatamente, em cerca de 80%. Isto, basicamente, significa converter a economia global, de uma base de combustível fóssil para uma base de energias alternativas. Como os Estados Unidos e a China são os dois maiores emissores (embora o Brasil esteja caminhando rapidamente para isso), suas reduções fariam a maior diferença, especialmente os Estados Unidos, já que desperdiçamos tanto no nosso uso de combustíveis fósseis - disse Jeffrey.

A opinião do químico é quase um consenso entre outros especialistas, mas, é claro, todos acham que será impossível esta mudança de hábitos a tempo.

Para o professor Chaloub, que também é participante do Projeto Coral Vivo, será muito difícil reverter o quadro que se vê hoje:

- Temos um padrão de consumo energético muito grande e tudo vem daí. Se nós conseguíssemos formas mais limpas de energia, poderíamos tentar mudar este quadro. Mas isto não se faz do dia para a noite - disse ele.

Mas, por que tanta pressa? Segundo os estudiosos do tema, se continuarmos emitindo gás carbônico como fazemos hoje (os oceanos absorvem 30% de toda a quantidade), os mares vão ficar cada vez mais ácidos, com reflexo direto na vida marinha, como explica Chaloub:

- Acelera-se muito a osteoporose marinha, com reflexo na produtividade. Isso leva à dissolução das placas e pode contribuir para um aumento de temperatura da água supercficial. Tem também o aumento da acidez, provocada pelo aquecimento das águas. Os cientistas do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) calcularam que o pH dos oceanos vai chegar a um limite trágico em 2100. Mas o cenário que estamos vendo hoje é mais trágico do que o projetado pelos cientistas.

Outros dois fatores que também levam os oceanos ao estresse, no entanto, são até mais fáceis de entender e exigem muito pouco de nós: lixo em demasia nos oceanos e pesca predatória. O oceanógrafo David Zee lembra que, com o acidente do Air France, em maio do ano passado, mergulhadores ficaram impressionados com a quantidade de lixo encontrado nas águas profundas:

- Acharam resíduos vindos da Europa e da África que se acumularam no norte do Oceano Atlântico Sul, na parte equatorial. A contaminação das águas por resíduos sólidos já está sendo monitorada, sobretudo de plásticos, que têm uma durabilidade maior e, devido às correntezas oceânicas, fazem com que se acumulem em determinados pontos do Oceano Pacífico - disse ele.

Os oceanos também estão se fragilizando, segundo estudos feitos por Zee, por causa da ânsia do homem de coletar alimentos do mar:

- Isso começa a mudar o equilíbrio porque começa a tirar determinadas espécies que mantém este equilíbrio. É como se fosse uma pirâmide, um organismo depende do outro. Se você acabar com um, começa a desabar tudo. A pesca do atum azul e da sardinha, por exemplo, fora do tempo, afeta muito esta cadeia - lembra o oceanógrafo.

Expressão que recentemente tem ganhado espaço nas páginas de jornais, a acidificação dos oceanos também é preocupante. O fenômeno é causado, basicamente, pela resultante de um aumento da concentração de CO2 ambiental nas águas marinhas.

- O CO2 que dissolve no oceano reage com a água e libera um hidrogênio ácido e bicarbonato, que vai aumentar a acidez do oceano. Isso resulta numa osteoporose marinha, ou seja, vai dissolvendo o esqueleto carbonato, virando tudo bicarbonato - disse Chaloub.

Como se vê, as projeções não são boas. Com o aumento do CO2 a temperatura do mar vai aumentar e caminha-se, assim, também, para uma desertificação dos recifes de coral. Se o problema do fundo do mar não é capaz de afetar os humanos, um dado estatístico pode fazer pensar: hoje há cerca de meio bilhão de pessoas no mundo que desenvolvem atividades econômicas relacionadas com recifes de coral.

Para Clovis Barreira e Castro, membro do comitê gestor e coordenador do Projeto Coral Vivo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a importância dos recifes de coral para a vida marinha é muito grande. Permite, por exemplo, uma quantidade maior de espécies no fundo do mar:

- Está acontecendo um branqueamento destes recifes, desde o Rio Grande do Norte até a Ilha Grande, no banco dos Abrolhos, aqui no Rio de Janeiro. Na verdade, os corais branquearam, não morreram. Isso acontece porque as algas que vivem dentro do coral começam a produzir derivados de oxigênio quando a temperatura do mar aumenta. Estes derivados são tóxicos. É como se fossem água oxigenada. Os corais começam, então, a expelir essas algas para fora e perdem a cor - disse o professor.

É possível, porém, que os corais se adaptem se os recifes não sofrerem outros estresses, como por exemplo um vazamento de óleo ou uma contaminação de lixo. As algas que permanecem às vezes conseguem funcionar em temperaturas mais altas. Mas isso, se conseguirmos diminuir os maus-tratos locais:

- A recomendação internacional é que se evite poluição química, orgânica, que se diminua a taxa de sedimento e que se recuperem as matas ciliares. Em regiões turísticas, é preciso evitar que as pessoas depredem os recifes. Só fazendo isso é que vamos ter esperança de que os recifes não morram - disse Clovis, acrescentando que o derramamento de óleo nos oceanos pode impermeabilizar a superfície e impedir a troca gasosa além de ter a questão física da mancha grudar em tudo, inclusive em animais - Vai afetar todo o equilíbrio dos ecossistemas.

David Zee acrescenta à lista das mazelas marinhas a quantidade de resíduos orgânicos (esgoto) que também afeta a cadeia atrófica:

- Se num ponto o homem tira do mar a matéria orgânica, do outro lança o que não presta em grandes quantidades. Esses exageros é que causam estresse da água do mar. Mas a verdade é que o homem nunca prestou atenção na questão da gestão da natureza, ele só cuida da gestão do que lhe interessa, é uma relação ética vinculada ao antropocentrismo - disse Zee.

É preciso uma nova ordem ética ecológica. Mas, como já vimos que isso só vai acontecer a muito longo prazo, o jeito é ter esperança de que a desordem já instalada acenda o alarme. O vazamento causado pela BP, por exemplo, gerou aqui no Brasil uma cobrança maior com relação à maneira como a Petrobras está administrando os riscos de ir tão fundo para colher petróleo na camada do pré-sal. Através de nota, a empresa garante que "executa robusta política de boas práticas e de elevado rigor técnico nos aspectos relacionados a equipamentos e à capacitação de pessoal. A empresa atua obedecendo a rigorosos procedimentos operacionais, principalmente aqueles que se referem à segurança operacional". Ficamos na torcida.

O Globo, 03/08/2010, Razão Social, p. 4-5

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