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Oceanos já sobem três vezes mais depressa

O Globo, Ciência, p. 30
08 de Dez de 2009

Oceanos já sobem três vezes mais depressa
Novo estudo aponta que o aumento do nível dos mares deve chegar a 1,9 metro até o fim deste século

Steve Connor

Do Independent

O nível do mar está aumentando três vezes mais rapidamente que as previsões de 2007 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicaram, e a média global de elevação dos oceanos deve chegar a 1,9 metro até 2100, diz novo estudo publicado na revista americana "Proceedings of the National Academy of Sciences" (PNAS). Esta estimativa foi divulgada apenas uma semana depois de outra pesquisa dizendo que o IPCC havia sido muito conservador em prever um aumento máximo de 59 centímetros neste século, como consequência do aquecimento global.

Para evitar dúvidas sobre os dados, os estudos anteriores foram mais conservadores e só levaram em conta à expansão das águas devido ao aumento da temperatura, sem considerar o degelo na Groenlândia e na Antártica. Assim, a nova pesquisa estima um índice mais alto para a elevação do nível do mar do que os publicados pelo IPCC, em sua análise de 2007.

A subida do nível dos oceanos em 1,9m resultaria em inundações em grandes extensões de países costeiros e poderia destruir muitas nações insulares, bem como tornar grande parte de Bangladesh inabitável. Além disso, aumentaria as chances de tempestades inundando grandes cidades costeiras, como Nova York e Londres.
Corte de emissões poderia frear elevação
O mais recente estudo aponta que o nível médio global do mar subirá entre 75cm e 190cm até o final deste século, devido ao aquecimento dos oceanos e derretimento de geleiras em montanhas, na Groenlândia e na Antártica. A pesquisa de Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam para a Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, e Martin Vermeer, da Universidade Tecnológica de Helsinque, na Finlândia, diz que os níveis do mar estão se elevando mais velozmente, resultado do aumento de temperatura no planeta, principalmente nos pólos.

- Desde 1990, o nível do mar tem aumentando em 3,2 milímetros ao ano, duas vezes mais velozmente que a média no século XX. Mesmo que esta taxa se mantenha estável, isso já corresponderia a 34cm no século XXI - disse Rahmstorf.

- Mas os dados nos mostram claramente que quanto maior o aquecimento, mais rapidamente o nível do mar sobe. Se quisermos evitar um aumento galopante, devemos parar logo com o aquecimento.

Rahmstorf publicou um estudo anterior, em 2007 - finalizado tarde demais para a inclusão no quarto relatório do IPCC - sugerindo que o nível do mar poderia subir a 1,4m até 2100. E o aumento de 1,9 metro ocorrerá se as emissões de gases-estufa continuarem a crescer em seu ritmo atual, o pior cenário previsto pelos relatórios do IPCC. O corte das emissões no início deste século terá efeito correspondente na redução do aumento do nível máximo do mar, dizem os autores do estudo.

Semana passada, o Comitê Científico sobre Pesquisa Antártica endossou a análise de Rahmstorf, de 2007, em relação ao aumento do nível do mar, concordando que o IPCC precisará rever previsões.

Segundo Rahmstorf, a comissão provavelmente terá a mesma opinião em relação ao seu último estudo, apontando a elevação de 1,9m.

Por que não há conspiração do clima

A descoberta de e-mails e roubados por hackers dos arquivos da Universidade de East Anglia criou uma tempestade na imprensa e no meio político. O tema está sendo tratado como um escândalo, que abala a ciência por trás das mudanças climáticas. Mas isso não é verdade. Saiba por que, segundo uma análise da revista "New Scientist".

Podemos ter 100% de certeza de que o mundo está ficando mais quente: Não é possível fraudar estações chegando mais cedo, geleiras se retraindo, o permafrost derretendo no Alasca, o mar subindo cada vez mais rápido ou outros milhares de exemplos. Nenhuma dessas observações prova que o mundo está aquecendo. Mas reúna todos esses dados e você tem evidências concretas de uma tendência de aquecimento a longo prazo.

Os gases do efeito estufa são a principal causa do aquecimento: Pesquisadores analisaram diversos fatores que poderiam causar o aquecimento.
Estudos feitos desde os anos 70 mostram que o único fator capaz de produzir as mudanças atuais no clima é o aumento da concentração de gases do efeito estufa na atmosfera associado à ação humana.

Por que os cientistas estão "consertando" dados sobre as temperaturas? O conteúdo de alguns dos e-mails pode parecer chocante.
Mas a verdade é que material bruto quase sempre tem que ser "consertado".
Imagine que você e seu vizinho resolvam verificar a temperatura de onde vocês vivem, decidindo juntar seus dados para criar um valor "oficial". Só que quando vocês olham, os valores são surpreendentemente diferentes. Isso pode ter ocorrido por diversas razões.
Um termômetro pode estar com defeito. Ou foi colocado em uma área exposta ao sol. Ou então registrou a temperatura em um momento diferente do dia. E por aí vai. Para acertar as duas medidas, vocês vão precisar ajustar e corrigir tais fatores. Isso ocorre também com modelos climáticos, nos quais medidas tem que ser ajustadas ou descartadas. A questão é saber o limite desses ajustes.

Mas qualquer tentativa de bloquear a publicação de estudos científicos céticos não é indefensável? Alguns dos e-mails mostram os pesquisadores incomodados com a publicação de estudos questionando as mudanças climáticas e discutindo o que fazer com publicações que eles consideram simpáticas aos céticos. Mas tentar bloquear alguns trabalhos é diferente de suprimir informações. Revistas científicas só devem publicar estudos que preencham determinados critérios científicos. Os pesquisadores trabalham por anos em um estudo para depois submetêlo às principais publicações de sua área. Os editores dessas publicações, por sua vez, selecionam aqueles trabalhos que acham relevantes e os enviam para uma equipe de colaboradores e consultores - cientistas da mesma área. Cada um desses consultores dá seu aval sobre o trabalho, sugerindo que ele seja publicado, rejeitado ou revisto. Boa parte dos mais renomados pesquisadores do mundo acha que os estudos mencionados nos emails têm falhas científicas sérias e não deveriam ser publicados.

E a suposta tentativa de limitar a liberdade de informação? Num dos e-mails, o cientista Phil Jones discute formas de não atender às solicitações das leis de liberdade de informação do Reino Unido. Embora isso não pareça bom, deve ser lembrado que nem sempre as pesquisas podem se enquadrar nessas solicitações simplesmente porque alguns cientistas não têm o direito de tornar públicos dados de estudos. E também não há dúvida que grupos que negam as mudanças climáticas se utilizaram desse expediente para tentar perturbar pesquisadores, fazendo com que eles perdessem valioso tempo respondendo a essas solicitações. A Universidade de East Anglia já chegou a receber mais de 50 pedidos semelhantes em uma semana este ano.

O Globo, 08/12/2009, Ciência, p. 30

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