O Globo, Ciência, p. 32
28 de Jan de 2011
Oceano Ártico mais quente em 2 mil anos
Temperatura das águas chegou a 6oC, quase o dobro
da registrada no início do século passado
Renato Grandelle
O aquecimento global encontra o caminho cada vez mais desimpedido rumo ao Oceano Ártico.
Nos últimos 2 mil anos, as águas daquela região nunca foram tão quentes, segundo estudo publicado hoje pela revista "Science". Pesquisadores da Academia de Ciências de Mainz, na Alemanha, constataram que a temperatura no mar, este inverno, chegou a 6 o Celsius - quase o dobro da registrada até o início do século passado (3,4 C).
A consequência mais visível do calor é o degelo. A cobertura de gelo do Ártico perdida entre 1979 e 2009 corresponde a uma área maior do que o Sul e o Sudeste brasileiro, segundo levantamento do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos EUA. Mantida a emissão atual de gases-estufa, a capa de gelo do Ártico pode desaparecer totalmente durante os verões até meados do século.
A equipe de Mainz concentrou sua avaliação no Estreito de Fram, entre a Groenlândia e o arquipélago norueguês de Svalbard, uma região que liga o Ártico ao Atlântico Norte.
Como as análises meteorológica e oceanográfica naquele estreito tornaram-se comuns há apenas 150 anos, os pesquisadores perfuraram camadas de sedimentos oceânicos de até 2 mil anos para determinar quais eram as temperaturas na região àquela época.
- Sabemos que o Ártico é a região mais sensível do planeta ao aumento das temperaturas, mas havia questionamentos sobre o quão incomum seria este aquecimento - lembra Thomas Marchitto, coautor do estudo e cientista do Instituto de Pesquisa Ártica e Alpina. - Não havia informações se o aquecimento ali estava ou não dentro da variabilidade natural pela qual passou o estreito em milhares de anos. Agora descobrimos que o calor da água está muito acima de seu limite natural.
Corrente do Golfo derrete cobertura
O aquecimento do Ártico origina-se longe dali, na Corrente do Golfo. Ela alimenta a Corrente do Atlântico Norte,que, por uma de suas ramificações, chega aos locais em que, antes, o mar escondia-se sobre camadas de gelo.
- A água do mar, quando fria, é importante para a formação da capa de gelo - ressalta Marchitto. - Esta cobertura, quando existe, ajuda a diminuir a temperatura do planeta, já que ela reflete a luz do Sol de volta para o espaço. A capa de gelo sobre o mar contribui para diminuir também a temperatura do ar. Forma-se, assim, um cobertor térmico sobre o oceano.
As águas quentes que chegam do Golfo, porém, sacrificam a cobertura de gelo e provocam mudanças no cenário do Ártico. A temperatura sobe e encolhe a capa de gelo. Sem esta proteção do mar, mais calor do sul é absorvido pelo oceano e mais gelo derrete.
Embora este fenômeno seja visto principalmente no verão, seus estragos diluem-se para as outras estações. Como a água está mais quente, seu processo de esfriamento - que normalmente ocorre no outono - é atrasado. Assim, quando chega o inverno e a primavera, a cobertura glacial está mais fina e, portanto, vulnerável aos derretimentos do verão seguinte.
E por quanto tempo a capa de gelo do Ártico pode sobreviver a este ciclo vicioso? O principal autor do estudo, Robert Spielhagen, é taxativo:
- Depende de nossos esforços para reduzir as emissões de gases-estufa. Se nada for feito, o Ártico perderá todo o seu gelo daqui a 30 a 50 anos - avalia.
- O derretimento de grandes geleiras já está em andamento, principalmente na Groenlândia. Este território, se for todo derretido, provocaria um aumento no nível dos oceanos de 7 metros.
Isso não ocorrerá nos próximos 500 anos, mas hoje já existe uma elevação do mar suficiente para ameaçar diversas áreas litorâneas e deltas de rios, da Amazônia a Bangladesh.
O Globo, 28/01/2011, Ciência, p. 32
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