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Obra da Petrobras pode afetar seriamente a baia de Paraty

OESP, Vida, p.A18
07 de Jul de 2005

Obra da Petrobrás pode afetar seriamente a baía de Paraty
Região deve receber o despejo de 80% do material resultante de dragagem de um canal de Angra dos Reis
Herton Escobar
O projeto para dragagem de um canal de 1.200 metros no litoral de Angra dos Reis (RJ) está colocando um estaleiro contratado da Petrobrás em confronto com a vizinhança de Paraty, no outro lado da Baía de Ilha Grande. Representantes dos setores de pesca e turismo da cidade histórica não aceitam os locais escolhidos pela empresa para despejo do material de dragagem - um deles localizado bem no centro da baía. Muitos acreditam que o projeto poderá comprometer a qualidade da água na região, prejudicando o meio ambiente e, conseqüentemente, as principais atividades econômicas do município.
O projeto pertence à BrasFELS, empresa contratada pela Petrobrás para a construção das plataformas de petróleo P-51 e P-52, destinadas à Bacia de Campos. A dragagem do canal - de 200 metros de largura e 11 metros de profundidade - é necessária para que as estruturas possam ser transportadas para dentro e fora da Baía de Jacuecanga, onde fica o estaleiro. A profundidade atual é de 7 metros - raso demais para as plataformas. Ao todo, serão retirados 520 mil metros cúbicos de sedimento do leito do mar.
Até aí, tudo bem. O problema é onde colocar todo esse material. A proposta da empresa, conforme o estudo de impacto ambiental (EIA-Rima) apresentado, é despejar 80% no interior da Baía de Ilha Grande (ponto A) e 20% em um local mais distante, 18 km fora da baía (ponto B). "Fizemos uma série de simulações e esses provaram ser os pontos mais adequados para os lançamentos", disse ao Estado o assessor da presidência da BrasFELS, Filipe Rizzo.
Ele reconhece que haverá um turvamento da água, mas garante que o problema será temporário e restrito aos locais de despejo. Segundo ele, 80% do material vai direto para o fundo, e o que fica suspenso na água leva 72 horas para afundar. "Em três dias a água volta ao normal, sob qualquer condição de mar", disse.
Representantes da comunidade em Paraty não estão convencidos. "Quem vive no mar não pode acreditar numa coisa dessas", rebate José Ribeiro dos Santos, vice-presidente da Associação dos Maricultores do Município de Paraty. Segundo ele, o mais provável é que a mancha de sedimentos se espalhe por toda a baía, prejudicando o equilíbrio ecológico da vida marinha. "Não há como garantir que essa mancha ficará presa no local. O mar tem fenômenos que o homem não domina."
O que mais preocupa é o ponto A, localizado a 5 quilômetros do Parcel dos Meros, uma importante área de pesca e tradicional ponto de mergulho. "Muitas atividades sobrevivem da qualidade ambiental desse local", afirma Ribeiro. O ponto B, diz, também é importante para a pesca do camarão e de várias espécies de peixe. "Ninguém nem procurou saber o que tem lá embaixo." A pesca, segundo ele, é a segunda principal atividade econômica do município, logo atrás do turismo.
A operação de despejo está prevista para durar 120 dias, a partir de agosto. Durante quatro meses, portanto, as atividades de mergulho na região ficarão prejudicadas. As águas de Paraty são consideradas um berçário de mergulhadores, por causa de suas águas calmas e de boa visibilidade. Oito operadoras estão baseadas no município, e muitas escolas de mergulho do País vão até lá para fazer o "batismo" de seus alunos.
"Vão estragar a água", diz a proprietária da operadora Anequim, Cláudia Facin Bagateli. Ela aponta que, durante o inverno, quando a visitação das praias diminui, é o mergulho que mantém o turismo funcionando na cidade - o que afeta também os negócios de lojas, pousadas e restaurantes.
A BrasFELS ainda não obteve a licença ambiental do Estado para iniciar as obras. Diante da polêmica, duas audiências públicas foram marcadas para segunda-feira, em Paraty, e terça, em Angra. O subsecretário de Meio Ambiente do Rio, Alcebíades Sabino, que deverá mediar as audiências, espera que a empresa apresente outras opções de local para despejo da dragagem. "Da maneira como o projeto está apresentado ele não deve ser aprovado", disse ele ao Estado.
O estaleiro, entretanto, já adiantou que não há outra opção e que, se a licença não for obtida a tempo, a construção das plataformas será transferida para Niterói. O canal precisa estar pronto até fevereiro, quando será entregue o casco da primeira plataforma.

OESP, 07/07/2005, p. A18

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