O Globo, Economia Verde, p. 28
Autor: VIEIRA, Agostinho
24 de Jan de 2013
Obama e a História
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
Não me sensibilizo com essas conversas de primeiro presidente negro, primeira presidente mulher, primeiro ministro homossexual, primeiro governador operário. Elas servem apenas como curiosidade, nada mais. Como já disse outro negro famoso, eu tenho um sonho. E neste sonho, os governantes são divididos apenas em dois tipos: os competentes e os incompetentes.
Porque é isso que faz diferença.
E até agora, apesar da torcida, a administração Obama está mais para o segundo grupo do que para o primeiro. É fato que ele conseguiu estabilizar uma economia que estava despencando. Assim como aprovou a difícil reforma da saúde. Mas isso é muito pouco perto da expectativa que se criou em torno do seu governo. Aliás, esta pode ser uma vantagem deste segundo mandato, a baixa expectativa. Pelo menos do ponto de vista ambiental. No primeiro governo esperava-se que ele viesse montado num cavalo branco para salvar o planeta. Não veio.
Em 2009, na COP-15, em Copenhague, ele até chegou com o seu jato na última hora. Parecia que alguma coisa ia acontecer. Nada. A posição americana nas negociações climáticas continuou tão ou mais atrasada que nas gestões anteriores. Já as emissões de carbono, só do setor de energia, seguem acima de seis bilhões de toneladas. Na posse, falou-se em dívida, reforma migratória, Irã, Afeganistão e até direitos dos homossexuais, mas muito pouco de clima, frente à gravidade do assunto.
"Nossa prosperidade deverá ser baseada no fortalecimento econômico da classe média", disse o presidente numa parte do discurso. Falava para o seu eleitor, o americano médio. O mesmo que, um dia, Al Gore afirmou que equivalia a 20 chineses. Se usarmos o exemplo da água, a diferença pode ser ainda maior. Um americano consome 400 litros de água por dia, um africano consome só dez litros.
Esperar que um presidente dos EUA recém-eleito discuta essas diferenças talvez seja ingenuidade demais. Mas ele podia e pode ser mais efetivo em temas concretos. Como, por exemplo, usar a força do seu governo para acabar com a discussão inútil sobre o papel do homem no aquecimento global. Garantir que o país terá, sim, metas ambiciosas de redução das emissões de gases de efeito estufa. Mesmo que seja só depois de 2015. Deixar clara a opção pelas fontes renováveis de energia.
Há dias, o negociador americano nas rodadas do clima, Todd Stern, praticamente sugeriu o fim dos eventos internacionais para discutir o assunto. Para ele, as metas para redução das emissões devem ser decididas internamente, em cada país. Estes planos seriam apresentados às outras nações seis meses antes de serem implantados. Somente para que os outros pudessem comentar.
Cada um pode sugerir o que quiser: redução absoluta de emissões, um corte proporcional ao PIB, percentual maior de energia limpa, tanto faz. Sem cobranças e sem culpa. Parece brincadeira, mas não é.
A proposta vem do mesmo país que até hoje não assinou o Protocolo de Kyoto e onde ainda se discute se esse negócio de mudança climática é sério mesmo. O tema sequer foi tratado na campanha eleitoral.
Enquanto isso, do ponto de vista prático, Obama terá que resolver se aprova ou não o controverso oleoduto "Keystone XL", que vai do Canadá ao Texas. As tubulações passarão por terras ambientalmente sensíveis, mas alguns setores argumentam que elas são importantes para a independência energética do país. Precisa decidir também se continuará investindo pesado no gás de xisto, que representa um risco elevado de contaminação da água e do solo.
Uma boa medida do primeiro mandato foi a que estabeleceu limites de emissões para os automóveis.
Agora chegou a vez de criar padrões para as usinas de energia movidas a carvão. As novas e as velhas. Mas isso pode aumentar o preço da eletricidade, pesar no bolso do eleitor e gerar protestos. Ao mesmo tempo, depois do furacão Sandy, uma pesquisa mostrou que 90% dos americanos estavam preocupados com o clima e afirmavam que algo precisava ser feito.
Esse é um bom dilema a ser resolvido. Taxar usinas a carvão pode aumentar o preço da energia, mas reduz emissões. De um modo geral, os americanos são conhecidos por sua autossuficiência. Por se acharem o centro do mundo. Não são. Alguém precisa ter a responsabilidade de dizer isso pra eles. Esta pode ser uma ótima tarefa para o presidente Obama. A hora é essa. Ou ele entra para a História pelas coisas relevantes que fez ou será sempre e apenas o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.
O Globo, 24/01/2013, Economia Verde, p. 28
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