O Globo, Ciência, p. 33
05 de Set de 2007
O trilionário mercado verde
Ministro alemão diz que ação contra o aquecimento global beneficia economia mundial
Carlos Albuquerque
Além dos inevitáveis custos, a luta contra os efeitos do aquecimento global pode também trazer benefícios para a economia mundial. Quem diz isso é Matthias Machnig, vice-ministro do Meio Ambiente da Alemanha, maior potência industrial da Europa e um país que há décadas tem sido uma referência quando se trata de questões ambientais.
- O chamado mercado verde, que inclui desde créditos de carbono ao desenvolvimento de novas tecnologias, movimenta, atualmente, cerca de US$ 1 trilhão. E esse valor deve dobrar até 2012 - diz Machnig, em entrevista exclusiva ao GLOBO. - O debate sobre o aquecimento global, portanto, é também uma discussão sobre oportunidades, sobre a criação de novos mercados e empregos.
Chefe da delegação alemã durante a Reunião Ministerial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, que se encerrou ontem no Rio, ele diz que parte desses benefícios devem ser direcionados para os países em desenvolvimento. Mas faz um alerta.
- Se não agirmos agora contra o aquecimento global, teremos débitos econômicos enormes, que podem causar a perda de até 20% do PIB mundial - avisa. - Mas se trabalharmos bem e investirmos em novas tecnologias, ligadas a fontes de energia renováveis, como estamos fazendo na Alemanha, criaremos novas oportunidades. E um dos debates que tivemos aqui foi justamente sobre como transferir essas novas tecnologias para os países em desenvolvimento, de forma que eles possam ter novos instrumentos para reduzir suas emissões e obter benefícios econômicos com isso.
Uma fonte de energia, porém, está descartada pelo governo alemão: a nuclear. Enquanto o Brasil se mostra disposto a novos investimentos no setor, a Alemanha pretende desativar todas as suas usinas até 2020.
- Por motivos óbvios, não posso comentar sobre os planos brasileiros. Mas do ponto de vista alemão, posso assegurar que a energia nuclear não combina com nossos planos de desenvolvimento sustentável. Ela traz diversos problemas, sendo que a disposição do lixo é o mais importante deles - explica Machnig. - E se olharmos no mundo, veremos com clareza que a energia nuclear não faz parte da resposta que todos nós estamos procurando. Por isso, a Alemanha prefere investir em formas de energia renováveis, eficientes e seguras, como a solar, a eólica e a biomassa, entre outras.
O ministro alemão garante que seu país quer dar todo o apoio para que o Brasil continue diminuindo a taxa de desmatamento da Floresta Amazônica.
- A Floresta Amazônica é um excelente indicador de como estamos lidando com o meio ambiente, já que há uma forte ligação entre as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade. O que podemos fazer é investir e apoiar projetos que ajudem o governo brasileiro a proteger a floresta. Achamos também que a comunidade internacional deve oferecer algum tipo de benefício econômico para os países em desenvolvimento que preservam as suas reservas naturais.
Diretor da ONU quer EUA em acordo pós-Kioto
Presente à reunião, o diretor do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA), Achim Steiner, disse que as bases para o sucessor do Acordo de Kioto, que expira em 2012, já estão preparadas.
- Pela primeira vez, graças aos recentes relatórios do IPCC, temos um consenso sobre o papel das atividades humanas como causadoras do aquecimento global - conta ele, que nasceu no Brasil, onde viveu até os 10 anos, e depois se naturalizou alemão. Temos também algumas referências importantes, como a proposta alemã para que os países do G-8 reduzam suas emissões em até 50% até 2050. Tudo isso vai guiar os debates sobre o sucessor do Acordo de Kioto, que deve ser apresentado na próxima Conferência da ONU sobre mudanças climáticas, em 2009, em Copenhague, na Dinamarca.
- Segundo Steiner, é fundamental resolver o debate entre nações ricas e os países em desenvolvimento sobre as reduções de emissões de CO2.
- É uma questão da maior importância já que o mundo mudou muito desde que o Acordo de Kioto foi pensado, em 1997; e mesmo depois que ele entrou em vigor, em 2005. Muitos dos países em desenvolvimento tiveram um enorme crescimento em suas economias e se tornaram poluidores também. O caso da China é o mais significativo, já que o país ultrapassou os EUA e se tornou o maior poluidor do mundo. Temos que buscar um consenso, um novo equilíbrio em que todas essas nações, incluindo aquelas em desenvolvimento e também EUA e Austrália, firmem um compromisso para reduzir as suas emissões.
Energia: Mundo busca alternativas menos poluentes Um trabalhador empilha tanques usados em aquecedores movidos a energia solar numa fábrica na China. O país, um dos maiores responsáveis pelo lançamento de gases do efeito estufa na atmosfera, se comprometeu a buscar formas alternativas e menos poluentes de energia. Na imagem menor, técnicos fixam painéis solares numa estação polar em exibição na Bélgica, que, em breve, será instalada na Antártica. Segundo os seus construtores, essa será a primeira instalação do continente a não gerar emissões.
O Globo, 05/09/2007, Ciência, p. 33
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