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O tênue equilíbrio brasileiro

OESP, Aliás, p. J5
Autor: NEPSTAD, Daniel
11 de fev de 2007

O tênue equilíbrio brasileiro
O aquecimento global pode enriquecer o Brasil - mas, se a mata continuar ardendo, o País quebra

Entrevista: Danienl Nepstad, Ecólogo, estuda a floresta brasileira há 21 anos. É fundador do Instituto de Pesquisa da Amazônia (IPAM)

Pedro Doria

As chuvas que sustentam a agricultura brasileira nascem na Amazônia. E, quando a floresta arde ou cai, a precipitação em Mato Grosso, Goiás, São Paulo - em todo o Brasil -, diminui. Com menos chuva, a plantação sofre e as hidrelétricas produzem menos. Outro apagão pode vir, assim como uma crise na colheita.

A Amazônia não será desmatada até a última árvore: há um ponto de desequilíbrio. Quando a mata chegar a um tamanho tal que não seja mais capaz de reter a umidade que a sustenta, sumirá. Este momento ninguém sabe qual é. Achava-se que aconteceria lá pelo fim do século. Nas contas do professor Daniel Nepstad, vem muito antes.

Nepstad é americano com residência permanente no Brasil e em busca da nacionalidade. Doutor pela Universidade de Yale em Ecologia Florestal, estuda a Amazônia há mais de 21 anos. Para ele, o Brasil está numa sinuca.

O País é a superpotência mundial em produção agrícola. Produz o etanol mais eficiente com cana e a soja que alimenta rebanhos na Índia e China. O mundo precisa do Brasil para sobreviver ao aquecimento.

Mas a terra vasta, em que se plantando tudo dá, quem sustenta é a Amazônia, a mesma floresta cujo desmatamento colabora com o aquecimento que pode matá-la. Em resumo: o aquecimento pode enriquecer o Brasil. Ou pode quebrá-lo.

Vivemos uma fase de aquecimento global. Com que o Brasil deve se preocupar?

A Amazônia será afetada seriamente. Os incêndios vão aumentar, virão secas imprevisíveis como a de 2005, que perturbou a navegação fluvial, criou problemas de saúde e mexeu com a vida de todos. As massas de ar que levam chuva ao cinturão agrícola do Brasil, incluindo o Estado de São Paulo, se originam nas árvores da Amazônia. Conforme a floresta perde espaço substituída por outro tipo de vegetação que produz menos vapor d'água, todo o sistema de chuvas que mantém a agricultura brasileira fica ameaçado.

Outro problema é o sistema elétrico brasileiro que depende do regime de chuvas. Uma pequena redução da quantidade de chuvas ou um pequeno aumento da evaporação pode levar a zero a geração de energia em alguns lugares no período seco. Sentimos isto em 2003, durante o apagão. Aquilo foi provocado pelas poucas chuvas no sistema hidrelétrico do sul. Basta um aumento da temperatura de um ou dois graus e a quantidade de água perdida para a evaporação é suficiente para levar a zero a geração de energia.

No litoral o impacto será de erosão, conforme as tempestades aumentam sua força. Com o aumento do nível do mar haverá mais sal que mexerá com as terras das fazendas próximas ao oceano. Isto mexerá com a infra-estrutura e os prédios das grandes regiões metropolitanas ao longo da costa.

O Brasil já sofreu o primeiro furacão que a América do Sul jamais vira. Os climatologistas estão observando isto atentamente e o tema aparece no relatório do IPCC. Eventos climáticos extremados ficarão mais comuns. O aquecimento anômalo do Atlântico Tropical Norte, por exemplo, criou o furacão que nos custou New Orleans e também a zona de alta pressão sobre a Amazônia que provocou a seca de 2005.

Há também os problemas atuais com enchentes, que estão associados ao El Niño. Climatologistas que acham que fenômenos como o El Niño acontecerão com mais freqüência.

Tudo isto fica na conta do aquecimento global?

Há uma série de impactos ligados ao aumento anômalo da temperatura da superfície do oceano que muda os padrões de circulação de correntes em todo o mundo. O que conhecemos melhor é o El Niño. Um que conhecemos muito pouco é este do Atlântico Tropical Norte. Mas é só o começo. E, claro, daí muitas das doenças que estão restritas à Zona Equatorial brasileira hoje se espalharão em direção ao sul.

Malária?

Malária e 65 vírus que incluem dengue e outros. Muitos estão restritos a determinadas áreas porque é muito frio no sul, ou muito seco. Isto é particularmente preocupante nas latitudes de temperaturas médias, onde há bastante frio. Com a mudança do clima, são áreas que ficarão vulneráveis.

Temos quanto tempo até que algo drástico aconteça?

A maioria das previsões de mudanças climáticas lança este momento para o final do século. O ponto de desequilíbrio da Amazônia, por exemplo, de acordo com os modelos de Gilvan Sampaio e Carlos Nobre, do CPTEC, o momento em que metade da Bacia Amazônica será ocupada por vegetação semi-árida, é no final do século. Este modelo mexe com as temperaturas médias e regimes de chuvas e indica se o clima gerado favorece mais gramíneas ou árvores.

O que estas projeções não incluem é fogo. Nós estamos fazendo um levantamento integrado disto. Simulamos o uso da terra no futuro para um trabalho publicado na Nature há alguns meses. Agora temos um modelo para desmatamento, outro para incêndios e um terceiro para clima. O encontro destes modelos ainda não está completo, mas o que já ficou claro é que o ponto de desequilíbrio está muito mais próximo do que imaginávamos por conta das influências combinadas do desmatamento e do efeito inibidor dos incêndios sobre a chuva. Isto tudo já está acontecendo e numa década, ou pouco mais, veremos muitas mudanças na Amazônia.

Quando veremos eventos dramáticos, no fundo, é o chute que cada um estiver disposto a dar. Não dá para prever quando haverá outro furacão no Brasil, quando haverá outra seca como a de 2005 na Amazônia ou quando virá a próxima estiagem devastadora no sul. Em 2005, ninguém previu coisa alguma. A seca veio do nada e sequer podemos afirmar, com certeza, se ela está ligada ao aquecimento global, apenas que ela é consistente com todas as previsões de mudanças climáticas.

Então veremos mudanças ainda ao longo de nossas vidas?

Tenho quase 50 anos. No momento da morte, viverei num mundo muito diferente daquele em que nasci. Dá medo esse tempo em que vivemos. Muito medo.

E quanto ao impacto no agrobusiness? É grande, não?

Brasil é o superpoder agrícola do mundo. É o maior exportador de carne, de suco de laranja, de café, de açúcar, de etanol etc. Tem mais espaço para expandir sua agricultura do que qualquer outro país e tem a maior infra-estrutura para isto apesar das deficiências de transporte. É o maior empreendedor agrícola que há. E isto vai de encontro com o aquecimento global.

A pressão da agricultura sobre a Amazônia e sobre o cerrado está crescendo. Assim, aumentam as emissões de carbono para a atmosfera. No momento, o desmatamento está diminuindo e o governo fez um trabalho fantástico. Mas esta diminuição tem mais a ver com o pequeno crescimento da economia.

O preço da soja aumenta por conta do biodiesel. Nos EUA, a área total de produção de soja está diminuindo porque eles estão mirando no etanol de milho. Então, todas as conexões econômicas globais apontam para o Brasil como fonte do suprimento mundial de etanol de açúcar, de soja e de proteína vegetal. Nos países emergentes como China e Índia eles têm uma dieta de carne, porco, galinha alimentados com ração. A melhor fonte de proteína para ração é soja.

O Brasil está no olho do furacão, no meio de tudo. É vulnerável a mudanças climáticas e a vacilações no agrobusiness. Um único caso de aftosa, numa única fazenda, pode provocar a rejeição internacional de toda carne. Ao mesmo tempo, o Brasil pode subir o nível, impor limites de produção ecológica e responsável em todo mundo. É o caso da reserva legal. Pelo que sei, apenas o Paraguai tem um sistema de reserva legal e nada tão ambicioso quanto o brasileiro.

Ao invés de ser criticado pelos europeus, pelo Greenpeace, por ter mão-de-obra escrava, por desmatar a Amazônia, o Brasil poderia virar a mesa. Poderia apontar o dedo para os produtores americanos, para os europeus, e dizer 'quero que vocês produzam responsavelmente como nós; que tenham licenças de propriedades que delimitem o uso da terra'. O Brasil poderia estar melhor posicionado estrategicamente para ditar limites em todo mundo sobre a maneira que produzimos comida, enfatizando o uso de menos agrotóxico e menos combustível fóssil.

O Brasil é um dos maiores vilões do aquecimento global, não é?

É. O Brasil é o maior emissor de carbono por desmatamento. Pense numa floresta como um grande saco de carbono. Então, se você pega uma floresta e a queima e a joga no ar, conforme a floresta cresce de novo, reabsorve o carbono até um determinado limite. Este grande ajuntamento de carbono, que é a Amazônia, tem por volta de 100 bilhões de toneladas. Todos os anos, a humanidade solta 8 bilhões de toneladas no ar. O destino do carbono incrustado nas árvores da Amazônia, de muitas formas, determinará se seremos capazes de manter a concentração atmosférica de 450 partes por milhão, ou não. Outro jogador grande é a Indonésia, por suas florestas. As emissões de carbono por conta de desmatamento, em todo o mundo, estão na ordem de 1,5 e 2 bilhões de toneladas por ano. Isto dobra em anos de seca.

Foi pressão brasileira que o desmatamento ficou de fora do Protocolo de Kyoto. Agora o Brasil propôs oficialmente um fundo de compensação para países que diminuam suas emissões por desmatamento. É um fundo voluntário e o País escolheu não participar. Só para dar uma idéia da magnitude destes investimentos, a União Européia anunciou, oficialmente, que aumentará seus objetivos de diminuição de emissões de carbono se a questão do desmatamento for trazida à mesa.

Funcionará como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, com créditos de carbono?

Sim, mas este é um mercado separado. Então as críticas anteriores, de que não devemos tirar a pressão sobre os países desenvolvidos para que melhorem suas indústrias e reavaliem sua produção energética, foi encarada desta forma. São dois mercados de créditos diferentes, um industrial, o outro de desmatamento. Então cada país só poderá compensar uma porção de seus objetivos comprando créditos.

Há um conflito dentro do governo brasileiro, onde ministérios não se entendem em suas prioridades e, no fim, a discussão sobre a preservação é evitada. Há saída?

Acho que a chave é ver o quanto o Brasil mudou. Se você dissesse, há dois anos, que o País apoiaria algum mecanismo para compensar nações tropicais que reduzissem emissão de carbono por desmatamento, muitos ririam. E o Brasil fez isso.

O balanço de políticas de contenção é difícil, não é? Para combater o aquecimento é preciso reduzir crescimento e, com isto, quem se dá mal são os países mais pobres.

Estamos numa sinuca, não há outra maneira de falar. Biodiesel será parte da solução, mas para plantar vai ter que retirar vegetação rica em carbono. E tem estes problemas como os EUA, que estão embarcando na produção de etanol ineficiente. O coeficiente de gasto de combustível fóssil para produção de etanol de milho é de 1,2. O de cana-de-açúcar gera 10 vezes a energia gasta em produção. O Brasil está bem posicionado para ser um líder mundial em suprimento de etanol produzido com cana. E a chave é descobrir como cultivar esta quantidade de cana sem desmatar a Amazônia ou avançar sobre o cerrado. As alternativas não são nada atraentes e teremos de analisar com todo cuidado cada uma delas. Mas, mesmo com energia aeólica, biodiesel e mais conservação, ainda assim teremos problemas porque os gigantes econômicos emergentes, como Índia e China, vão precisar de mais energia.

E quanto ao impacto do aumento do nível do mar?

Uma das grandes discussões nas vésperas da publicação do relatório do IPCC foi a respeito da inclusão ou não dos dados recentes sobre a Groelândia. Eles indicam que o gelo está derretendo. Como o IPCC, é por natureza, um órgão muito conservador, e ainda se discute se isto é temporário ou definitivo, a questão foi deixada de lado. Mas se falávamos de cenários com aumento de 40cm do nível do mar, agora está claro que, nas próximas décadas, pode haver aumento de até um metro. O que acontecerá depende daquelas geleiras. E, sabe, mesmo aumentos de 40 ou 50cm trarão um impacto enorme para a costa brasileira.

Principalmente para o caso de Recife, não é?

Não só. Belém do Pará está logo acima da água. São 1,5 milhões de pessoas vivendo ali, no estuário do Amazonas. A urbanização brasileira quase toda está na costa.

DOMINGO, 4 DE FEVEREIRO

Negócios à parte

A União Européia decidiu, depois da divulgação do relatório do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), incluir em seus acordos comerciais critérios ambientais. A diplomacia brasileira não escondeu a insatisfação com o anúncio.

OESP, 11/02/2007, Aliás, p. J5

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