CB, Opinião, p. 20
25 de Jan de 2008
O S.O.S. da floresta
A bombástica notícia da derrubada, de agosto a dezembro do ano passado, de 3.235km² de florestas deixou a nu o desleixo do governo federal com a Amazônia. Em vez do acompanhamento diário da situação, apenas quando a conta se apresentou gigantesca, reunião de emergência foi convocada pelo Palácio do Planalto e medidas anunciadas de última hora. Já não havia tempo para reverter uma história exitosa contada até então: três anos consecutivos de recuo no desmatamento, com redução de 59% nos índices de devastação - de 27 mil km² entre 2003 e 2004 para 11,2 mil km² nos anos 2006 e 2007.
Pior: a dura realidade revelada quarta-feira pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) pode estar subdimensionada, vez que os satélites só detectam cerca de 40% das derrubadas. O secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente (MMA), João Paulo Capobianco, admite que a área atingida possa ter até o dobro do tamanho registrado.
Sem dúvida, a hora é de urgências. Não para paliativos, mas para rever políticas. Apressada pela sacudida do Inpe, está prometida para hoje a divulgação de lista com cerca de 30 municípios onde o quadro é mais grave. Embora chegue com atraso e seja limitado, o cerco é bem-vindo. Se tiver conseqüência, focar os governos municipais e as propriedades responsáveis pelo desflorestamento, impedir a comercialização da produção obtida de forma criminosa e embargar o acesso ao crédito que financia a derrubada, muitas vezes originário de instituições públicas, será um avanço.
Tímido, contudo. É preciso fazer da defesa da Amazônia uma política de governo, muito além da responsabilidade do MMA. Grupos de trabalho interministeriais, como o de responsabilização ambiental criado em dezembro, funcionam se houver cobrança direta e contínua do presidente da República.
Por mais bem-intencionada, por mais prestígio internacional que tenha (acaba de ser apontada pelo jornal britânico The Guardian como uma das 50 pessoas que podem salvar o planeta), a ministra Marina Silva, sozinha, nada conseguirá contra a força do poder econômico. Atenta, ela aumentou de 23 para 40 as operações de fiscalização desde agosto, quando o Inpe acendeu o sinal de alerta, mas não conseguiu evitar que, em cinco meses, viessem abaixo árvores suficientes para cobrir área equivalente a 320 mil campos de futebol. A pressão é monumental como a própria floresta.
De 1996 para 2006, o rebanho de gado na Amazônia Legal cresceu três vezes mais que a média nacional, dobrando de tamanho: passou de 37 milhões para 73 milhões de cabeças. Projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional propõe a redução da reserva florestal na região de 80% para 50%.
Segundo a ministra, 165 mil km² já foram convertidos em áreas de cultivo que, com a intensificação do uso, têm capacidade para triplicar a produção sem que seja preciso derrubar mais uma árvore sequer. Apesar disso, o MMA aponta que o desmatamento dos últimos meses tem características de corte raso, típicas de formação de pastagens. Ou seja, sem políticas agrícola e de pecuária que respeitem o meio ambiente, a devastação não terá fim.
CB, 25/01/2008, Opinião, p. 20
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