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O sexto sentido dos bichos

CB, Mundo, p.13
10 de Jan de 2005

O sexto sentido dos bichos
Pesquisas mostram que animais sentem as vibrações da terra e do oceano e, assim, podem buscar abrigo de terremotos. Fuga de golfinhos e cobras alertou tribos primitivas da Índia que conseguiram escapar do tsunami

Don Oldenburg
Do Washington Post

Em Khao Lak, na Tailândia, os elefantes nos quais turistas faziam passeios começaram a gritar horas antes do maremoto de 26 de dezembro - mais ou menos na hora em que o terremoto de nove graus na escala Richter abalou o leito oceânico e provocou a formação das ondas gigantes. Uma hora antes que o tsunami atingisse o resort, os elefantes ficaram agitados e começaram a chorar. Imediatamente antes da catástrofe, eles fugiram para terras mais altas - alguns chegaram a arrebentar as correntes que os prendiam.
Os flamingos que nessa época se alimentam em Point Calimere, santuário ecológico na costa ocidental da Índia, foram para áreas seguras na floresta bem antes de as ondas baterem na praia, segundo guardas florestais. E no Parque Nacional Yala, no Sri Lanka, um dos pontos mais duramente atingidos, autoridades ambientais informaram sobre centenas de elefantes, leopardos, tigres, veados, búfalos, macacos e animais de menor porte, inclusive répteis, que escaparam ilesos.
Na semana passada, cientistas da Sociedade Antropológica da Índia disseram que a observação do comportamento anormal dos pássaros, golfinhos e cobras pode ter salvado do extermínio os remanescentes de antigas tribos das ilhas Andaman e Nicobar, no litoral indiano. Jarwas, onges, shompens, sentenaleses e andamaneses, tribos primitivas que datam de 20 mil a 60 mil anos atrás, sabiam que iria acontecer um desastre e conseguiram fugir para as florestas do interior da ilha, em busca de refúgio.
Hipersensibilidade
Relatos sobre esse ''sexto sentido'' dos animais para detectar furacões, terremotos, tsunamis e erupções vulcânicas são colecionados há séculos. Ratos que fogem de edifícios, aves que voam em debandada, cachorros que uivam sem cessar - é um acervo impressionante de registros, mas todos testemunhais.
A ciência é reticente a respeito de uma tese que, por razões óbvias, é impossível comprovar em laboratório. Mas sobram explanações e teorias. Ken Grant, coordenador de projetos da organização não governamental (ONG) Sociedade Humana Internacional em Bali, na Indonésia, argumenta que, nesse tsunami, muitos animais sobreviveram simplesmente porque costumam viver em terras mais altas, na floresta.
No entanto, alguns cientistas continuam à procura de explicações sobre por que algumas espécies se comportam de maneira estranha antes de catástrofes naturais. Eles buscam correlações entre as capacidades sensoriais desses animais e os estímulos físicos de escala reduzida, imperceptíveis para a sensibilidade dos homens e de instrumentos.
A fisiologia dos sentidos animais - hipersensíveis a sons, temperaturas, ao tato, a vibrações, eletricidade estática, substâncias químicas e campos magnéticos - dá a eles uma vantagem sobre os humanos nos dias ou horas que antecedem as calamidades naturais. ''Parece que várias espécies captam microtremores e alterações mínimas que somos incapazes de perceber'', diz George Pararas-Carayannis, oceanógrafo que preside a Tsunami Society.
As pesquisas mostram que muitos peixes são sensíveis a vibrações de baixa freqüência, e por isso detectam tremores muito antes dos homens. Outros animais são extremamente sensíveis a vibrações do solo. Lynette Hart, pesquisadora do comportamento animal da Universidade da Califórnia, em Davis, acredita que esta tenha sido a faculdade que salvou os elefantes do tsunami na Ásia. Com a inteligência de que reconhecidamente dispõem - o cérebro dos elefantes é o maior entre os dos animais terrestres -, ''eles (os elefantes) são capazes de interpretar de qual direção está vindo o estímulo, qual a magnitude e, com base nisso, decidir que atitude tomarão para se proteger''.
Fuga em massa
Alguns animais podem ter ouvido o tsunami a caminho a partir do momento em que o terremoto estremeceu o fundo do mar. Segundo o psicobiólogo James Walker, diretor do Instituto de Pesquisas Sensoriais da Universidade do Estado da Flórida, algumas espécies de pássaros, os cães, elefantes, tigres e outros animais são capazes de detectar ruídos com freqüência na faixa de um a três hertz, bem abaixo do espectro audível para os humanos, na faixa entre 100 e 200 hertz. ''Eles escutam sons que nós não somos capazes de identificar''.
Cientista que estuda os hábitos sociais dos seres humanos, o etólogo Desmond Morris, autor de O macaco pelado, acrescenta que cães e gatos são sensíveis a mudanças repentinas nos campos eletromagnéticos, como as que precedem os terremotos. ''É por isso que cachorros começam a tremer e ficam assustados quando uma tempestade de raios se aproxima'', explica Morris. ''O olfato canino é de dez a cem mil vezes mais potente que o do humano'', compara Walker, que está iniciando estudos para treinar cachorros na detecção de câncer de rins e próstata pelo odor da urina.
Pesquisadores chineses foram os pioneiros nos estudos sobre como os órgãos sensoriais dos animais reagem a mudanças bruscas. Seu ponto de partida foi o terremoto de 1975 na populosa cidade de Haicheng, no nordeste da China. Graças aos ''sinais'' que captaram no comportamento pouco usual de algumas espécies, milhares de pessoas puderam se salvar. ''Muitas cobras despertaram da hibernação antes do tempo, e quem reparou nisso recebeu o ''alarme'' com uma semana de antecedência ao terremoto'', diz Pararas-Carayannis.

Eles (os elefantes) são capazes de interpretar de qual direção está vindo o estímulo, qual a magnitude e, com base nisso, decidir que atitude tomarão para se proteger
Lynette Hart, pesquisadora da Universidade da Califórnia

CB, 10/01/2005, Mundo, p. 13

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