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O saber ajuda a reconstruir população

A Crítica-Manaus-AM
19 de Abr de 2002

Sobre educação, Jecinaldo Sateré faz uma observação irônica: Se com a educação dos brancos a cultura indígena foi massacrada, é com a escola diferenciada que eles estão revendo esse processo e se reconstruindo enquanto povo. Por isso, afirma, que neste dia 19 os índios não têm o que comemorar. "Dia do índio é todo dia, não um só", diz ele, explicando que essa lição é ensinada para a maioria dos povos indígenas que vive na região e já implantou a educação diferenciada. "Deixamos de usar as cartilhas produzidas no Sul do País para estudarmos nas que trazem as nossas coisas", esclarece.

Jecinaldo defende, por exemplo, mudança nos textos dos livros de História do Brasil para o que chama de restabelecimento da verdade. "A história é contada da perspectiva do branco, mas queremos também mostrar do nosso lado, que contem que fomos proibidos de falar a nossa língua, cultuar nossos deuses e manter a nossa cultura", denunciou.

O aprendizado da língua é o motor do novo momento vivido pelos povos indígenas nesses 500 anos de Brasil. "Com isso, estamos conseguindo fortalecer a auto-estima dos nossos parentes, que sempre tiveram que receber a educação imposta pelos brancos", observou Jecinaldo.

Além disso, as organizações lideradas e coordenadas pelos próprios índios têm voz ativa, coisa que não acontecia antes. "Tanto a Funai (Fundação Nacional do Índio) quanto o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) davam as orientações e só cumpríamos", lembrou o gerente. Não havia autodeterminação. Mas hoje é diferente. Com a criação e o fortalecimento da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), os índios puderam ampliar a visão política e apresentar propostas para o desenvolvimento das aldeias sem destruir a cultura e a tradição. "É uma nova fase que temos que comemorar", afirmou.

A implantação do Conselho Estadual de Educação Indígena (CEEI) no Amazonas, cuja maioria dos membros é formada por índios, é outro ponto destacado. "O Governo do Estado tem sido nosso parceiro", garante ele. O gerente do conselho cobra, por exemplo, uma postura mais comprometida das universidades públicas do Amazonas, tanto da federal quanto da estadual. "O Amazonas tem a maior população indígena do País, mas a universidade não reflete isso", questiona.

Jecinaldo reclama contra a falta de definição de recursos para a implementação das leis que garantem os direitos para os povos indígenas. "Muitas leis contidas na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), na Constituição Federal e em resoluções ainda esperam a autorização de verbas para serem colocadas em prática", disse.

Para ele, este é o desafio das lideranças de hoje. Lutar para implementar as leis, conquistadas pelos índios nas décadas de 60, 80 e 90. "Nossos parentes sofreram muito andando nos gabinetes dos políticos pedindo a elaboração das leis. Agora temos que encontrar fórmulas para obter esses recursos sem precisar repetir o mesmo gesto dos parentes", afirmou.

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