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O revide dos céticos do aquecimento

OESP, Vida, p. A24
Autor: FLAVIN, Chris; LINDZEN, Richard
02 de Mar de 2008

O revide dos céticos do aquecimento
Acusados de ligação com a indústria do petróleo, eles se reúnem em Nova York para contar sua versão da história

Gabriela Carelli

Com uma plástica impecável e a história bem contada sobre os 30 anos de ativismo ambiental do ex-vice-presidente americano Al Gore, o filme Uma Verdade Inconveniente, vencedor do Oscar no ano passado, promoveu um feito: popularizou a questão do aquecimento global nos quatro cantos da Terra. Mas será o homem o responsável por uma emergência planetária iminente, resultado da emissão de CO2, como propagou Gore, a ponto de causar inundações bíblicas e a varrição de cidades inteiras por furacões furiosos? Um grupo de cientistas dissidentes, os céticos, acha que não - e eles resolveram sair a público para contar outra versão da história.

Até então restritos a aparições pontuais e polêmicas, os céticos não são mais tão poucos - formaram um grupo coeso e estão dispostos a comprar briga com ambientalistas radicais. Prova disso é o evento que começa hoje, em Nova York. Mais de seis dezenas de dissidentes, muitos dos quais notáveis, de instituições de renome, irão reunir-se em uma conferência internacional cuja tema principal é Aquecimento Global: Crise ou Fraude? Desde que o aumento das temperaturas tomou as manchetes, nunca tantos cientistas com idéias contrárias ao IPCC, o painel climático da ONU que ganhou junto com Al Gore o Prêmio Nobel da Paz no ano passado, reuniram-se para debater o tema.

A idéia, de acordo com os organizadores, é expor estudos que desmentem a "tese apocalíptica", mostrar a seriedade da corrente cética e achar soluções plausíveis para o problema do aquecimento. "Discutir a responsabilidade total ou parcial do homem, e os caminhos a seguir caso nossa presença na Terra estiver interferindo no clima, é muito relevante, pois implica em uma mudança radical de vida para todos os habitantes do globo. O unilateralismo só prejudica", diz James Taylor, coordenador do evento.

Vistos como os meninos maus do ambientalismo, os céticos são acusados de ligações com a indústria do petróleo, de quem ganhariam gordas mesadas para passar ao mundo a mensagem de que o aquecimento é uma falácia. Eles juram que não beneficiam ninguém. "Mesmo se diminuíssemos drasticamente a emissão de CO2, não atingiríamos as metas de Kyoto. É um fato", diz Patrick Michaels, da Universidade da Virgínia. "É importante diminuir a emissão de CO2 para melhorar os problemas ambientais imediatos das metrópoles, não para tentar salvar o mundo de um suposto colapso", diz o dinamarquês Bjorn Lomborg, no livro O Ambientalista Cético.

O futuro do planeta, como aceitamos hoje, vem sendo traçado pelo IPCC desde 1998. O painel reúne uma elite de 2.500 dos principais pesquisadores de mudanças climáticas da atualidade e tem a missão de atualizar as informações sobre o clima. De acordo com o painel, o aumento da temperatura em até 6,8oC até o fim deste século acarretará uma série de catástrofes naturais, como aumento do nível dos mares e disseminação de doenças tropicais.

Os céticos não negam a existência de um aquecimento em curso no planeta - quase todos os cientistas atualmente concordam que as temperaturas na Terra aumentaram 1oC no século passado - nem contestam o efeito estufa. Eles partem do princípio de que o clima está mais quente não por causa do homem, mas devido a um ciclo natural de aquecimento e resfriamento do globo. Esse ciclo obedeceria a forças mais poderosas do que a presença de mais CO2 na atmosfera, como a influência do Sol na Terra. Em um estudo recente, o geólogo Don Easterbrook, da Universidade de Western Washington, mostrou que nos últimos 15 mil anos houve dez períodos de aquecimento mais intensos do que o atual - e esses períodos se alinham com o aumento da intensidade da radiação solar.

A radiação solar, o magnetismo do núcleo da Terra e a órbita do planeta, argumentam os céticos, determinaram o clima por milhões de anos. "O aquecimento é resultado de muitos fatores. A emissão de gases é um deles, mas está longe de ser o mais relevante", diz Richard Lindzen, do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT). "O homem pode alterar o clima, mas é muita ignorância e presunção supor que sua ação tem mais impacto do que as atividades no núcleo terrestre, por exemplo. Isso moveu placas tectônicas, empurrou os Andes e o Tibete."

Para o grupo, as catástrofes anunciadas pelo IPCC não passam de alarmismo. "Caminhamos para uma era glacial, mas, pelo amor de Deus, não precisamos prender a respiração por isso", diz Michaels, da Virgínia. Para os céticos, as medições de computador que projetam tais hecatombes são falhas e excluem muitas variáveis climáticas. O filme de Al Gore, alardeiam os céticos, estimou o aumento dos mares em 2.000%.

Mas, afinal, em quem acreditar? O mundo vai acabar em dez anos se não evitarmos as emissões de CO2, como diz Al Gore? Ou é tudo uma jogada de marketing, como dizem os céticos? "O que propicia essa discussão sem fim sobre o aquecimento global e suas conseqüências é a própria natureza do clima", diz Lindzen, do MIT. "O sistema climático é complicadíssimo - e mecanismos fundamentais ainda são desconhecidos", escreveu o dinamarquês Lomborg.

Mudança climática virou divisor de águas na política

Tema até pouco tempo reservado aos nichos acadêmicos, a mudança climática atravessou as fronteiras da ciência. O aquecimento global é hoje um estilo de vida, uma fonte de negócios bilionários e um divisor nas águas mornas da política. O assunto polarizou os discursos da direita e da esquerda como há muito não se via. "Nada, desde a Guerra Fria, é tão perigoso para o planeta', discursou o senador americano democrata John Kerry, no ano passado. Há um mês, o instituto americano PewResearch divulgou uma pesquisa sobre o impacto do clima na política dos EUA. Apenas 54% dos republicanos acham que a Terra está ficando mais quente, ante 92% dos democratas e liberais. No primeiro grupo, só 22% acham que são necessárias ações imediatas, ante 81% do segundo.

Para os candidatos americanos, os dados são preciosos. Outra pesquisa do PewResearch, feita no ano passado, revelou que os eleitores têm muito medo do que está por vir. O instituto ouviu 45 mil pessoas em 35 países para descobrir qual é o maior temor e o principal problema da sociedade atual. O aquecimento foi considerado o problema mais grave e superou o terrorismo e a violência em alguns países.

Na Coréia do Sul, 77% da população está mais apreensiva com o clima do que com qualquer outra coisa. Para 70% dos chineses, as catástrofes ambientais são a maior ameaça dos tempos modernos. Concordam com eles 52% dos franceses, 49% dos brasileiros e quase metade das pessoas do planeta.

Polêmicas
O homem é responsável pelo aquecimento global

IPCC - Sim. Há 90% de certeza de que a emissão de CO2 causou o aumento da temperatura

Céticos - Não. O clima envolve variáveis mais poderosas do que a emissão de poluentes, como a radiação solar e o alinhamento dos planetas. A emissão de CO2 pode ter agravado a situação, mas não é a causa principal

A temperatura está subindo

IPCC - Sim. A temperatura subiu 1oC no último século - mais da metade nos últimos 30 anos

Céticos - Não. Outros períodos da história registraram aquecimento semelhante que, depois, foi normalizado. Registros históricos e evidências meteorológicas sugerem épocas mais quentes do que a atual entre os anos 900 e 1000 e entre 1200 e 1300

O nível dos mares vai aumentar e as cidades vão desaparecer

IPCC - Sim. Com o derretimento da camada de gelo da Groenlândia, o nível dos mares deve aumentar entre 28 cm e 43 cm até o final deste século, inundando cidades inteiras

Céticos - Não. A elevação dos mares tem se mantido dentro da média nos últimos três séculos. Os cálculos foram superestimados

Haverá surtos de doenças tropicais em todo o planeta

IPCC - Sim. As altas temperaturas causarão surtos de malária em várias regiões, inclusive nas quais havia sido erradicado o mosquito causador da doença

Céticos - Não. Malária e dengue não estão relacionadas a altas temperaturas, mas à pobreza e à falta de saneamento. Mosquitos não necessitam de calor tropical

'Temos dez anos para evitar as catástrofes'

Chris Flavin: presidente do Instituto Worldwatch

Presidente do Worldwatch Institute, o americano Chris Flavin é um dos maiores defensores da tese de que a humanidade precisa parar agora as emissões de CO2. A seguir, trecho da entrevista que concedeu ao Estado:

Existe realmente um consenso sobre o aquecimento global ou ainda há incertezas sobre o futuro do planeta, como afirmam os céticos?Não há incertezas. Os mais respeitados climatologistas do mundo concordam que caminhamos para um futuro catastrófico. Infelizmente, é o que vai acontecer caso nada seja feito para parar o processo.

Variações climáticas intensas ocorreram antes da chamada "intervenção humana". O aquecimento da Terra pode ser atribuído à instabilidade natural do clima?

Passamos por um período de aquecimento natural, mas o aumento das temperaturas hoje é muito mais rápido do que o esperado. Nenhum cientista sério pode argumentar que o derretimento de geleiras na velocidade atual e o aquecimento dos oceanos é natural.

Quem é o principal responsável pelo aquecimento do planeta?

Os Estados Unidos, seguidos dos chineses. O Brasil contribui com o aquecimento global com a destruição de florestas na Amazônia e em outras regiões.

Ainda há como frear o processo?

Estamos prestes a perder a guerra. É preciso reduzir já a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. Temos dez anos para agir.

Os céticos dizem que é preciso ser mais realista e pensar no agora. O que o senhor diz?

Temos de focar em todas as implicações No Brasil, a destruição das florestas pode acabar com a agricultura, um dos pilares da economia no País.

'Faria bem a todos um pouco de humildade'

Richard Lindzen: climatologista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts

O climatologista americano Richard Lindzen, do MIT, é chamado de o "cético dos céticos" e aclamado até mesmo pelos adversários.

O IPCC tem um time de 2.500 cientistas renomados. Como duvidar do que eles dizem?

Essa afirmação é pura propaganda. Há cerca de 300 cientistas envolvidos realmente no trabalho. O IPCC lista qualquer pessoa que é questionada sobre uma informação como "contribuinte", o que acrescenta outros 500 nomes. Por fim, há os revisores, que somam mais de mil pessoas. O engraçado é que muitas dessas pessoas são parte do grupo "cético" e não concorda com o que está escrito. Não existe esse tal de consenso.

Qual o argumento mais poderoso contra o alarmismo ambiental?

Períodos mais intensos de aquecimento do planeta ocorreram em outras épocas, mesmo sem o CO2. Os glaciares dos Alpes, por exemplo, avançaram no passado. Desde o século 19, eles recuam.

Há algum aspecto do alarmismo em torno do aquecimento que preocupa o senhor?

O alarmismo deixa as pessoas transtornadas. Isso leva à adoção de políticas erradas, com impactos negativos na economia, cria espaço para a corrupção e diminui os recursos para a resolução de problemas reais.

Estamos em um caminho sem volta para uma era glacial?

A ignorância sobre o clima é muita para dizer que é inevitável, mas a história de 800 mil anos sugere nova era glacial em 10 mil anos.

Há quem diga que vamos perder a guerra contra a natureza.

Não há evidência de que podemos destruir ou salvar a Terra. Isso é balela. Um pouco de humildade nos faria bem.

OESP, 02/03/2008, Vida, p. A24

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