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O rali do desperdicio

OESP, Notas e Informacoes, p.A3
12 de Mai de 2005

O rali do desperdício
O s atoleiros, costelas-de-vaca, buracos e pontes de madeira podre da Cuiabá-Santarém são uma prova dramática da falência do planejamento no Brasil. Inaugurada há 29 anos, essa estrada foi projetada não para ser mais uma rodovia num país em que se transporta quase tudo sobre pneus. Foi concebida para ser um grande eixo de integração e para facilitar a inserção internacional do que viria a ser, em pouco tempo, uma das áreas agrícolas mais produtivas do mundo. Nas três décadas seguintes, muito dinheiro foi desperdiçado na execução de orçamentos bilionários e pouco funcionais, enquanto a estrada, inaugurada apenas com uma cobertura de cascalho, se tornava cada vez menos transitável.
Agricultores e criadores migraram para essas terras e fizeram o suficiente, em pouco tempo, para mostrar que podem concorrer com os melhores produtores de outros países. Mas a promessa de acesso aos grandes mercados externos pelos portos do Norte nunca foi cumprida. A BR-163 nunca foi pavimentada, a não ser em trechos pequenos e mantidos em condição muito precária. A esperança voltou com o plano de privatização há pouco anunciado.
Em junho de 2004 uma reportagem do Estado mostrou a situação calamitosa da Cuiabá-Santarém. Há menos de um mês, em 19 de abril, um decreto federal abriu a perspectiva de investidores privados, por meio de licitações, cuidarem da pavimentação de 1.570 quilômetros entre Nova Mutum, em Mato Grosso, e Santarém, no Pará. As concessões deverão incluir 940 quilômetros da BR-163 e um longo trecho da Transamazônica, a BR-230.
Uma nova reportagem do Estado, publicada no último domingo, deixou claro que, se algo mudou desde o ano passado, foi certamente para pior. O trabalho da repórter Renée Pereira é um relato de aventura. A equipe do jornal levou cinco dias para ir de Sinop, em Mato Grosso, até Santarém, enfrentando numa picape com tração nas quatro rodas condições comparáveis às de um rali. Mas não são pilotos esportivos que enfrentam no dia-a-dia esse pesadelo. São transportadores de cargas que podem render bilhões de dólares no mercado internacional.
Com a ligação Cuiabá-Santarém, o transporte de produtos do Centro-Oeste brasileiro até a Europa consumirá cinco dias menos do que se o embarque fosse feito pelos Portos de Santos ou do Rio de Janeiro. Com o novo caminho, o frete de 1 tonelada de soja enviada ao Porto de Roterdã, na Holanda, poderá ficar em R$ 242, segundo cálculo do Ministério dos Transportes. Será uma economia estimada entre 30% e 35% em relação ao custo de remessa pelos portos do Sudeste.
Com a saída pelo Norte, será possível uma redução de até 5 mil quilômetros no percurso até a Europa. Também os produtores do pólo eletrônico de Manaus ganharão. Sua economia poderá chegar a R$ 24 milhões anuais, incluindo-se na conta a diminuição dos custos de estocagem de insumos e as perdas ocasionadas pelo transporte em condições precárias.
Se a privatização estiver concluída até o começo do próximo ano, o asfaltamento poderá ser completado até 2008, segundo o ministério. O custo das obras está estimado em R$ 1 bilhão. A concessão da estrada à exploração privada permitirá ao governo contornar o problema da escassez de recursos públicos e - o mais difícil - da administração racional das verbas orçamentárias.
Para evitar que a pressão dos ambientalistas impeça a reconstrução da estrada, o governo criou o Plano BR-163 Sustentável, com previsão de ações como a melhoria de portos fluviais e aeroportos, estímulos à instalação de indústrias de alimentos (carne, soja e laticínios), industrialização do couro e madeira e apoio à agricultura familiar e extrativa. Será preciso afastar o perigo de exploração predatória, que já ocorreu com a abertura de outras estradas, como a BR-364, que liga Cuiabá a Cruzeiro do Sul. A BR-163 corta uma área de 1,2 milhão de km2, onde existem 71 municípios com 2 milhões de habitantes. Uma avaliação oficial sobre 25 municípios da área estimou que 48% das terras não estão cadastradas nos registros de imóveis rurais. Grilagem de terras e violência pela posse de imóveis são, portanto, riscos importantes que o governo terá de eliminar para garantir o desenvolvimento de uma das áreas mais promissoras do mundo.

OESP, 12/05/2005, p. A3

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