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O problema da água levado a sério

OESP, Vida, p. A30
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
30 de nov de 2006

O problema da água levado a sério

Marcos Sá Correa

Reunido em Nova York dias atrás, o conselho da Fundação Mitsubishi decidiu doar mais de US$ 500 mil a programas sociais. Deu US$ 150 mil para uma ONG que cuida do Bronx; US$ 5 mil para melhoramentos no Brooklin. Mais US$ 5 mil para o jardim botânico da cidade. E se deu à pachorra de pingar US$ 2.500 no cofre de uma rede de comunicação de estudantes de Nova York.

Tirados os caraminguás, o resto desse meio milhão vem para o Brasil. São US$ 400 mil para gastar em 90 mil hectares da capital de São Paulo, nos próximos cinco anos, pagando os 'serviços ambientais' de quem ainda guarda retalhos de mata atlântica, ajudando por tabela a alimentar a Represa de Guarapiranga e, com ela, a torneira de uns 4 milhões de paulistanos.

Mantê-los não chega a ser um favor, porque esses fragmentos florestais se encaixam entre a reserva de Morro Grande e o Parque Estadual da Serra do Mar. Formam uma barreira verde ao avanço dos subúrbios, que transbordam a capital a perder de vista. Ficam entre áreas de proteção ambiental, como a APA Capivari-Monos e a Bororé-Colônia. Estão em propriedades particulares que, em geral, têm limites demarcados pelas leis que regulam o uso da terra em beiras de rio, encostas íngremes, altos de morro ou mananciais. Mas, como essas coisas no Brasil nem sempre querem dizer muita coisa, o dinheiro da Mitsubishi ajudará a Fundação O Boticário, de Curitiba, a premiar em SP as pessoas que fazem o que tinham mesmo de fazer, por sua conta e risco.

O projeto se chama Oásis. O e-mail da Mitsubishi à Boticário, anunciando sua adoção, falava em mostrar o Oásis no Japão 'como modelo de boa filantropia'. Promete bancar por dez anos a conservação de 2.500 hectares, estrategicamente espalhados pelas nascentes que abastecem São Paulo. Custará R$ 12 milhões. Não foi orçado para enriquecer ninguém, pois não é verba de campanha eleitoral. O dono de um tufo de mata com 10 hectares, assinando o compromisso de mantê-lo de pé, ganhará R$ 4 mil reais por ano. Se tiver 500 hectares, o contrato lhe renderá R$ 52 mil, como 'pagamento por serviços ambientais'.

De quebra, os contratados receberão da Boticário o plano de manejo da reserva particular, ajuda para geri-la e a atenção que faz muita falta a quem se sente sozinho com suas árvores na periferia de São Paulo, espremido entre invasões cada vez mais constantes e autoridades cada vez mais inconstantes. Sobretudo quando se trata de acioná-las para reprimir derrubadas feitas por pobres em terreno alheio.

É uma fórmula que deu certo em outros lugares, como Costa Rica. Mas está se aclimatando com atraso no Brasil, onde esse tipo de novidade demora a vingar. Paga-se para manter a mata porque ela, concretamente, em benefícios que podem ser medidos, melhora a vida de gente que até hoje achou que não tinha nada a ver com isso. No caso, trata-se de remunerar a 'filtragem natural da água' que os paulistanos consomem. Dito assim, parece simples. Mas o projeto se baseia em cálculos complexos do que vale, para os outros, um pedaço de floresta. Leva em conta a qualidade da vegetação e da água que passa por ela, o curso das torrentes e até a existência de uma rede de esgoto no caminho.

Está em gestação há dois anos. Exigiu o cadastramento dos proprietários e acordos prévios com a Secretaria Estadual do Verde e do Meio Ambiente e com a Sabesp. Teve de se entrosar com universidades e comitês gestores de bacias. Deu muito mais trabalho e muito menos notícia do que ir a Brasília discutir com o presidente Lula um governo de coalizão, não se sabe bem para quê. Depois de aprovado pela Mitsubishi em Nova York, irá à Fiesp na semana que vem, para se apresentar ao empresariado paulista. Santo de casa não faz milagre. Mas, expandido para o resto do País, o Oásis provavelmente ajudaria mais o semi-árido nordestino do que a transposição do São Francisco, sem seus inconvenientes. Só que isso não é conversa para político e empreiteiro.

Marcos Sá Correa, Jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 30/11/2006, Vida, p. A30

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