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O preco de um desmonte

OESP, Espaco Aberto, p.A2
Autor: NOVAES, Washington
09 de Abr de 2004

O preço de um desmonte
WASHINGTON NOVAES
Em meados de 1975, o autor destas linhas foi ao Recife documentar para a televisão uma forte inundação que obrigara moradores de bairros nobres a fugir a nado pelas janelas de suas casas. Num bairro muito pobre, uma mulher de mais de 70 anos contava o drama de passar a noite sobre o galho de uma árvore onde fora depositada pelo vizinho. Um pobre homem chorava enquanto tentava desenterrar da lama os corpos de quatro filhos mortos.
Vários moradores da área central contavam que, com parte da cidade já inundada, sinais de trânsito desativados, uma rádio noticiara (sem fundamento) que se rompera uma grande barragem de água a montante da cidade.
Se fosse verdade, o caudal teria conseqüências catastróficas. E por isso as pessoas abandonaram o trabalho e as casas, saíram desordenadamente pelas ruas, a pé ou em carros, atarantadas, sem saber exatamente para onde fugir.
Para complicar, interrompeu-se o fornecimento de energia e muita gente ficou presa em elevadores. Nessa hora, uma alma caridosa lembrou-se de abrir os portões de um asilo de "loucos" para dar chance de fuga aos internos. E estes imediatamente assumiram o comando do trânsito, disciplinaram os fluxos. Nos edifícios, participaram do salvamento das pessoas presas em elevadores. Eram os mais lúcidos em meio ao pandemônio.
Pitoresco à parte, o episódio já revelava nosso despreparo para lidar com os chamados "desastres naturais". Trinta anos passados, ele só se agravou, como demonstram as recentes inundações no Nordeste, no Centro-Oeste e no Sudeste, assim como as secas extemporâneas. E o ciclone (furacão ?) que atingiu Santa Catarina e Rio Grande do Sul e mostrou de forma dramática a insuficiência de recursos dos institutos de previsão do tempo e do clima para detectar com antecedência o porte real do problema. Sem falar em que, na verdade, não temos ainda um sistema de defesa civil equipado, que possa ser acionado e proteja a tempo as populações.
É preciso insistir no que já tem sido comentado neste espaço várias vezes: é urgente construir um sistema amplo de informações nessa área, relacionado também com os recursos hídricos (e as causas que os afetam), principalmente nas áreas metropolitanas. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas tem advertido que regiões tropicais ou subtropicais como as nossas sofrerão secas e inundações mais intensas e terão dificuldade progressiva no abastecimento de água dos grandes centros urbanos.
Tudo isso já está à vista. Possivelmente com a agravante de fenômenos como ciclones (ou furacões ?). E com as inacreditáveis dificuldades de previsão.
Em dezembro do ano passado, o boletim do clima para o primeiro trimestre deste ano previa "normalidade" na intensidade de chuvas em praticamente todo o País; a probabilidade maior, dizia, era de chuvas "entre a média e abaixo da média históricas". Nos primeiros meses do ano, entretanto, houve regiões do Nordeste com chuvas dez vezes acima da média histórica. No Centro-Oeste, choveu mais que o dobro da média em parte das áreas. Com as conseqüências que se sabem: desabamentos, desabrigados, rodovias destruídas, barragens rompidas, parcelas importantes de safras perdidas, aumento de preços de alimentos para os consumidores (pela escassez).
"Temos de ficar alertas", adverte a coordenadora do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos, Maria Assunção da Silva. Mas como, se o equipamento mais capaz de detectar a intensidade real do recente ciclone/furacão - um radar da Aeronáutica - estava desativado, por falta de recursos para manutenção, e foi preciso recorrer a sistemas de informação por satélite nos Estados Unidos?
O diretor do Instituto de Meteorologia, Antônio Divino Moura, admitiu:
"Poderíamos ter previsto com mais precisão a intensidade dos ventos se contássemos com bóias meteorológicas na região do Atlântico em que o fenômeno se formou." E por que não as temos? Porque "o investimento na qualidade das observações está em estágio decrescente". Isso se traduz também em que algumas estações meteorológicas têm apenas um técnico, pois há 20 anos não é feito concurso para a área.
Na verdade, é um processo de desmonte que começou no governo Collor, com o sucateamento das estações, a inviabilização de outras pelo processo de urbanização, que afeta a temperatura e o regime de chuvas, prejudica as séries históricas.
E os problemas das prováveis mudanças climáticas não estão apenas nessa área das catástrofes mais visíveis. O aumento da temperatura - advertiu, na reunião de dezembro da Convenção sobre Mudanças Climáticas, um diretor da Organização Mundial de Saúde, Diarmed Campbell - cria condições para a propagação da malária na Amazônia e da dengue nos centros urbanos; pode aumentar também a incidência de doenças veiculadas pela água (que já está acontecendo no Brasil). Deve-se lembrar, a propósito, que a temperatura média na cidade de São Paulo já está 1,3 grau centígrado acima do observado há quatro décadas.
Como não há nenhum indício de que o problema do clima tenda a melhorar - ao contrário -, é preciso correr contra o tempo. O chanceler argentino, Raul Estrada, por exemplo, já está propondo que, na reunião das partes da convenção (dezembro, Buenos Aires), se deixe de lado a tentativa de reduzir emissões via Protocolo de Kyoto (que dificilmente será homologado) e se comece a discutir, sem perder tempo, a criação de fundos e mecanismos financeiros para que os países "em desenvolvimento" possam enfrentar as conseqüências das mudanças climáticas. É certo que a Europa, por sua conta e risco, está fixando metas para redução das missões em cada país e ampliando a participação das energias renováveis em sua matriz. Mas é pouco.
E o Brasil, como advertiu na conferência sobre O Estado do Planeta (Nova York, 30 de março) o cientista chefe do Banco Mundial, Robert Watson, não escapará ao aumento de temperatura entre 2 e 5 graus centígrados ao longo deste século. A situação, disse ele, vai-se agravar no Nordeste. E a grande incógnita é saber como afetará o regime de chuvas na Amazônia.
O sistema de informações sobre clima, tempo e água tem de ser prioridade absoluta nos orçamentos brasileiros.
Washington Novaes é jornalista

OESP, 09/04/2004, p. A2

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