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O potencial da energia da biomassa da cana-de-açúcar no Brasil

CB, Opinião, p. 19
Autor: BERTELLI, Luiz Gonzaga
12 de Set de 2008

O potencial da energia da biomassa da cana-de-açúcar no Brasil

Luiz Gonzaga Bertelli
Presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e da Academia Paulista de História e diretor da Fiesp

Embora os portugueses tenham iniciado o cultivo da cana-de-açúcar há mais de cinco séculos, foi apenas recentemente que esse plantio se converteu na grande solução brasileira do emprego da biomassa na substituição do petróleo pelo álcool. Até agora, é o único projeto mundial comprovadamente exitoso de substituição de energia fóssil (petróleo) por um combustível limpo, ecológico e renovável.

Há quem diga que, hoje, o país do carnaval, do samba, das mulatas, do futebol, do café e da caipirinha já tem um outro símbolo por bandeira: a cana-de-açúcar. Em 2007, o Brasil produziu 16 bilhões de litros de álcool, o equivalente a 84 milhões de barris de petróleo, dos quais exportou apenas 15%, o correspondente a 2,4 bilhões de litros. O Brasil é o maior produtor da cana-de-açúcar em todo o mundo, com 500 milhões de toneladas.

O álcool combustível (anidro ou hidratado) já representa 50% do total de combustíveis consumidos pelos automóveis. No futuro, o derivado da cana poderá ser usado em aviões de pequeno porte, motos, ônibus e na petroquímica, em substituição à nafta. O seu consumo cresce, exponencialmente, à medida que o preço do petróleo fica mais caro.

Graças ao desenvolvimento tecnológico havido na indústria sucroalcooleira, o álcool brasileiro é produzido a US$ 30/litro, mais barato, portanto, que a gasolina automotiva, extraída do petróleo. A Petrobras pratica no mercado interno preços de gasolina inferiores aos do mercado internacional, para não permitir que o combustível fóssil perca, ainda mais, a sua competitividade para o álcool. O Brasil é o maior exportador mundial de café, frango, suco de laranja, álcool, açúcar e carne bovina. Toda a gasolina brasileira recebe 25% de álcool anidro, o que possibilitou a eliminação do chumbo tetraetila e a melhoria da qualidade do derivado do petróleo.

A indústria automobilística do Brasil desenvolveu o veículo flex, que pode queimar, indiscriminadamente, a gasolina, o álcool e o gás natural (GNV). Nos dias presentes, nove em cada 10 carros comprados são flex. Cada veículo que circula com esse sistema reduz entre 12% e 14% o índice de emissões de CO² (dióxido de carbono) na atmosfera. Ademais, o uso do álcool não contribui para o acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera.

A cadeia de produção do álcool proporciona a geração de cerca de 1 milhão de empregos no campo, a partir do plantio da cana-de-açúcar e, dessa forma, ajuda a promover a inclusão social do trabalhador. Além do álcool, o Brasil produz o biodiesel, derivado de fontes renováveis, que substitui total ou parcialmente o óleo diesel nos motores, como os caminhões, ônibus e tratores.

As principais matérias utilizadas na produção do biodiesel são a mamona, a soja, o girassol, o amendoim, o pinhão manso e o sebo ou gordura animal. Como a produção do biodiesel é, ainda, pequena, o preço do combustível é alto e necessita de incentivos governamentais, escala de produção e aperfeiçoamento tecnológico do processo. Em breve, será possível a produção no país de álcool da celulose do bagaço da cana-de-açúcar em escala industrial.

As novas fronteiras da cana brasileira estão muito distantes da região Amazônica. É impossível plantar nessa região, pois a cana necessita de um período seco para concentrar o açúcar. A gramínea ocupa, acentuadamente, regiões de pecuária extensiva e pastagens degradadas, na região centro sul brasileira ou cerrado. Não procede a afirmativa de que haja escassez de alimentos no Brasil em decorrência da produção de combustíveis extraídos da cana. O Brasil provou a possibilidade de produzir alimentos e energia de forma eficiente e racional.

Existe um potencial agricultável de mais de 90 milhões de hectares de terra, aptos para as culturas energéticas, sem que isso concorra com a oferta de alimentos. O álcool produzido da cana é duas vezes mais produtivo que o do milho feito nos EUA.

Diversos países passaram a utilizar gasolina misturada com álcool de cana-de-açúcar, com o propósito de substituir fontes energéticas fósseis por combustíveis renováveis. Ao contrário do que escrevera Gilberto Freyre, o Brasil não é um imenso canavial, eis que a biomassa da cana-de-açúcar ocupa apenas 1% das terras agricultáveis no Brasil. A disparada do preço do petróleo e as discussões sobre o aquecimento global têm colocado a energia da biomassa nas agendas dos países e empresas do mundo inteiro.

CB, 12/09/2008, Opinião, p. 19

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