VOLTAR

O planeta esquenta

O Globo, Ciência, p. 42
25 de Nov de 2010

O planeta esquenta
Às vésperas da Conferência do Clima, estudos revelam elevação de temperatura

A quatro dias do início da 16ª Conferência do Clima das Nações Unidas, novos estudos climáticos revelam um planeta em perigo. Climatologistas divulgaram ontem que 2010 será o ano mais quente da História desde o início dos registros, em 1850. E mais: a concentração de gases-estufa na atmosfera aumentou desde o ano passado, alcançado uma marca recorde.
É a forma de a comunidade científica reagir à onda de pessimismo que antecede à convenção - cujo início será na próxima segunda-feira, em Cancún, no México - e mostrar ao mundo o quão urgente é o estabelecimento de um acordo global que estabilize as emissões. A própria ONU tratou de alarmar os participantes da reunião, ao lembrar que as metas já estabelecidas não são suficientes sequer para manter as mudanças climáticas num patamar administrável.
As temperaturas registradas este ano estão 0,8 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais e superam em 0,5 graus a média obtida entre 1961 e 1990. De acordo com os climatologistas, 2010 já está empatado com 1998 e 2005, os dois anos mais quentes desde o início das medições, em 1850. A diferença entre os três anos é de apenas alguns centésimos, segundo a Nasa, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa, dos EUA) e a Unidade de Pesquisa Climática (Inglaterra), e deve ser ultrapassada por 2010.
Metas não são suficientes
Outro estudo divulgado ontem, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), analisou as promessas já anunciadas para reduzir as emissões de gases-estufa. A conclusão: todos os projetos de todas as nações, somados, não são suficientes para deixar o mundo sequer próximo ao necessário para que o aumento da temperatura global não extrapole 2 graus Celsius. Se o planeta esquentar mais que isso, as mudanças climáticas serão irreversíveis.
Cerca de 80 países, incluindo os maiores emissores de CO2 - China e EUA - já divulgaram suas metas.
Os compromissos são variados: a União Europeia, por exemplo, pretende cortar suas emissões em 20% até 2020. Já a China comunicou que irá "esforçar-se" para reduzir a intensidade energética demandada por sua economia - a quantidade de CO2 necessária para produzir uma unidade do PIB - de 40 a 45% até o mesmo prazo. Os EUA querem reduzir 17% em relação a 2005.
As intenções foram reproduzidas no Acordo de Copenhague, um documento elaborado às pressas no fim da Conferência do Clima do ano passado. Mas ele não estabelece metas legalmente vinculantes: todos os compromissos ali reunidos são voluntários.
Atualmente, o mundo emite cerca de 48 gigatoneladas (bilhões de toneladas) de CO2 por ano. Se os países ignorarem o aquecimento global na condução de suas economias, este índice chegaria a 53 gigatoneladas de dióxido de carbono em apenas dez anos.
Se, por outro lado, cumprir integralmente o que diz o Acordo de Copenhague, o mundo emitirá 49 gigatoneladas do gás em 2020. É uma redução inegável, mas muito abaixo da necessária para que a temperatura aumente em, no máximo, 2 graus Celsius. Para isso, seria preciso liberar apenas 44 gigatoneladas de CO2 para a atmosfera.
- O Acordo de Copenhague simplesmente cita uma lista de metas voluntárias, sem qualquer incentivo ou reafirmação dos países de que, se um deles avançar, os outros também terão de fazê-lo - critica o diretor-executivo da Pnuma, Achim Steiner. - Precisamos pegar as intenções refletidas naquele documento e tirá-las do papel, para que possam se transformar num acordo legalmente vinculante.
Gases-estufa mais concentrados
Apesar de a recessão econômica ter reduzido as emissões mundiais de CO2 na atmosfera, as concentrações de gases-estufa atingiram, no ano passado, sua maior concentração desde os tempos pré-industriais.
O alerta é da Organização Mundial de Meteorologia, que constatou o crescimento das concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. Quanto mais presentes esses gases, maior a possibilidade de ocorrerem mudanças climáticas.

O Globo, 25/11/2010, Ciência, p. 42

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.