CB, Opinião, p. 19
Autor: GOLDEMBERG, José
03 de Fev de 2009
O pacote verde de Obama
José Goldemberg
Professor da Universidade de São Paulo (USP)
Eleger um poeta ou um cientista para a Presidência da República de um grande país não é comum, apesar de já ter acontecido no passado. Clemenceau, na França, era um grande matemático e um homem de letras, o que não o impediu de ser bom presidente. De Gaulle era grande escritor, cuja retórica refletia com precisão o que sentiam os franceses. E o mesmo se pode dizer de Churchill, que, praticamente sozinho, com seu poder de dissuasão, mobilizou a Inglaterra na luta contra o nazismo.
Temos agora Obama, magnífico e inspirado orador, que conquista a Presidência dos Estados Unidos com discursos que são poemas, como eram os de Martin Luther King, e apelam para o coração dos compatriotas, que o elegeram, apesar dos problemas raciais que ainda existem no país.
Será que um "poeta" como Obama será um presidente eficaz, sobretudo na área ambiental, que não era prioridade na gestão anterior? O governo Bush não só marginalizou e hostilizou o Protocolo de Kyoto. Tentou abrir o Ártico para a exploração de petróleo e cogitou até censurar documentos oficiais que refletiam a gravidade dos problemas decorrentes do aquecimento global. A julgar pelos primeiros atos dele, a resposta parece ser sim. Poucos dias após a posse, em 20 de janeiro, o novo presidente adotou um pacote verde que atende aos anseios dos ambientalistas.
O que Obama fez, desafiando a indústria automobilística, foi dar ordens ao Ministério de Transportes a fim de que adote regras mais rígidas para melhorar a economia de combustíveis; isto é, a autonomia de automóveis e caminhões. Essas regras foram fixadas por lei do Congresso, determinando que os novos veículos tivessem metas de consumo de combustível por quilômetro rodado. Uma das metas, por exemplo, era a de que, em 2002, cada automóvel fizesse cerca de 11,5 quilômetros por litro de gasolina. Também foram estabelecidas multas para os produtores de carros que não atingissem esses níveis. Carros japoneses e europeus têm desempenho muito melhor.
Desde a década de 1980, as regras em vigor nos Estados Unidos não mudaram e, com isso, o país tomou o rumo errado. Em lugar de desenvolver automóveis híbridos (como a Toyota japonesa) ou carros pequenos (como a Fiat italiana), os produtores de Detroit embarcaram na canoa furada de SUVs e outros veículos grandes, consumidores de gasolina, do que resulta não só poluição local, como também grande emissão de carbono.
O Departamento de Transportes deve aumentar em 40% a quilometragem mínima por litro de combustível exigida dos veículos até 2020. As medidas são tomadas "para assegurar que os carros econômicos do futuro serão produzidos aqui, na América", disse Obama.
As medidas adotadas nos Estados Unidos, na área de transporte, foram a de melhorar a eficiência dos veículos e não a de mudar o combustível, como no Brasil. O próprio programa do álcool dos Estados Unidos, que poderia reduzir os impactos ambientais, enfrenta grandes problemas porque, diferentemente do Brasil, ele é feito de milho. Sob tal ponto de vista, a estratégia brasileira de utilizar álcool de cana-de-açúcar é claramente superior.
O que veremos, logo, é a adoção pelos Estados Unidos de novos padrões de eficiência de equipamentos residenciais (como geladeiras e aparelhos de ar-condicionado), que tiveram papel importante na redução do consumo de energia na Califórnia. A posição de Obama o diferencia, portanto, claramente, da posição do governo Bush e prenuncia uma política mais progressista na área ambiental em geral.
O que se espera agora é que o novo embaixador para o clima dos Estados Unidos, que acaba de ser nomeado, abra negociações com a China e outros grandes emissores, inclusive o Brasil, de modo que a Conferência de Copenhagen, no fim deste ano, alcance resultados concretos e não apenas retóricos, como tem sido o caso dessas conferências.
Não é que retórica não seja importante, e foi graças a ela que Obama foi eleito. O problema é passar da retórica para a ação. No sóbrio discurso de posse, ele disse basicamente "vamos à obra", o que lembra a frase inesquecível de Geraldo Vandré, que se transformou em bandeira de luta contra o regime autoritário nos anos 1970: "Esperar não é saber / quem sabe faz a hora / não espera acontecer...". Isso é o que o presidente Obama parece estar tentando fazer.
CB, 03/02/2009, Opinião, p. 19
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