OESP, Vida, p. A16
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
26 de Jan de 2006
O orquidófilo fiel
Marcos Sá Correa
Para defender a exuberância da mata atlântica, a maior arma de Masuji Kayasima é uma lupa. Quando o instrumento de campo, que se dobra como um canivete no estojo arranhado pelo uso, focaliza o minúsculo ponto branco à sua frente, vê-se uma orquídea, completa, nos mínimos detalhes. Uma flor de sépalas e pétalas simétricas, desenhada como uma pista de pouso para insetos, sinalizando o caminho do estame. É uma Platysteles edmundoi, diz a etiqueta. Não é a menor da coleção - nem do Brasil, tampouco do mundo. A menor chama-se Barbosella miersii e também é vizinha de Masuji em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo. Florida, no auge do esplendor, não passa dos três centímetros de estatura. Sua flor tem o tamanho da cabeça de um alfinete.
Na chácara de Masuji, o carro é da década passada e, na varanda, tábuas soltas separam os cachorros de uma ninhada que acabou de nascer. O luxo está guardado na parte mais sombria do quintal, onde as plantas minúsculas se penduram em caramanchões, encosta abaixo.
A ferro e fogo
Uma microorquídea traz seu nome - é a Miltonia kayasima. Outra foi batizada em homenagem a sua mulher. É a Miltonia spectabiles Laura Kayasima. Ele a descobriu anos atrás num pedaço quase intacto do litoral paulista, onde foi construído o condomínio Riviera de São Lourenço. A publicidade do empreendimento repete, até hoje, que o projeto reservou às áreas verdes um terço do terreno, "mais que o dobro exigido pela lei". Tem viveiros de mudas "com o maior banco genético da flora regional".
Masuji freqüentou o lugar quando a Riviera de São Lourenço ainda era mato. Viu as árvores nativas abrirem alas para o loteamento. Num tronco caído, um dia se espantou com o número de orquídeas que definhavam ao sol, na clareira aberta pelas obras. Voltou com um amigo para contá-las. A soma parou em 5 mil, "fora as bromélias e os filodendros".
Se havia tantas numa só árvore, ele comenta, "imagine o que este País não perdeu, do Rio Grande do Sul à Bahia, derrubando a mata atlântica sem saber o que ela tinha". Assim, ele resume numa frase, compacta como suas orquídeas, as 484 páginas de A Ferro e Fogo, livro em que o americano Warren Dean conta a história do Brasil como a saga da floresta que deu identidade ao País.
Masuji é presidente e diretor técnico da Associação Orquidófila de Mogi das Cruzes. Cresceu num município onde a siderurgia era tocada a carvão vegetal extraído de árvores nativas. "Até nas toras que vinham para os fornos da mineração havia flores", ele conta. Aos 17 anos, integrava o júri dos concursos promovidos pela entidade. Era um adolescente metido com um hobby de aposentados. E sobreviveu aos pioneiros para testemunhar o interesse crescente pelas orquídeas depois que se derrubou tanta mata.
Em 2003, suas mudas foram exibidas em Hokkaido, no Japão, numa exposição patrocinada pela rede de televisão HBC. "Os japoneses fizeram fila para ver", comenta Masuji.
Aos 56 anos, ele tem levado forasteiros para visitar as orquídeas no Parque das Neblinas, uma reserva particular criada pela Companhia Suzano de Papel e Celulose. Mateiros tarimbados, como o fotógrafo Du Zuppani, recomendam o programa. Zuppani, que como arquiteto projeta jardins de espécies nativas em Bertioga, andou por ali pelo menos dez vezes na companhia de Masuji. "Com ele, tudo fica interessante, porque Masuji conhece a mata e vê coisas que ninguém mais enxerga."
Marcos Sá Correa, Jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)
OESP, 26/01/2006, Vida, p. A16
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