VOLTAR

O novo padrão de normalidade para o crescimento

OESP, Economia, p. B10
Autor: ROGOFF, Kenneth
06 de Mai de 2009

O novo padrão de normalidade para o crescimento

Kenneth Rogoff
Project Syndicate

Os mercados estão Animados com os sinais de melhoria na economia global.
Um número cada vez maior de investidores prevê a aproximação de um forte movimento de recuperação, primeiro na China, depois nos Estados Unidos, e então na Europa e no resto do mundo. Mesmo os terríveis números registrados para o crescimento nos dois últimos trimestres não parecem afastar essa mentalidade otimista. Quanto maior o declínio, mais forte o ricochete, dizem alguns analistas.
Talvez os otimistas tenham razão. Mas até que ponto podemos esperar racionalmente uma expansão forte depois que o pior já tiver finalmente passado? Será que o novo nível de normalidade será igual ao antigo padrão de normalidade dos anos prósperos, entre 2002 e 2007? Acho difícil que Estados Unidos e China, há duas décadas os principais motores do crescimento mundial, consigam evitar que sua média de crescimento posterior à crise seja destacadamente inferior ao nível prévio.
Comecemos com os EUA, o epicentro da crise financeira, e ainda a economia mais importante do mundo. Na melhor das hipóteses, o setor financeiro americano vai emergir da crise menor e mais regulamentado.
Alguns economistas dizem que isso não é motivo de preocupação. O crescimento dos EUA foi acelerado nos anos 1950 e 1960,quando o seu sistema bancário apresentava regulamentação relativamente pesada. O que impediria de acontecer novamente? É claro que nos primeiros anos do pós-guerra não se exigia do sistema financeiro que mantivesse em funcionamento uma economia tão diversa e sofisticada quanto a atual.
Se as autoridades optarem por um retrocesso de várias décadas na regulamentação bancária, como podemos nos certificar de que um retrocesso igual não acontecerá na renda?
O consumo dos EUA, principal fator que impulsiona o crescimento mundial, está certamente rumando para um nível inferior, na esteira de um mercado imobiliário enfraquecido, um desemprego em alta,e a queda na renda dos fundos de pensão. Durante os anos de prosperidade, o consumo americano superou a marca de 70% do PIB. Depois da crise, ele pode cair em direção aos 60%.
E quanto à grande mudança política pela qual os EUA acabam de passar? Cansados de um crescimento galopante, os eleitores agora prestam mais atenção à solução de questões ambientais, além dos problemas relativos ao atendimento médico e também à desigualdade na distribuição da renda.
Mas a concretização dessas metas louváveis custará muito caro, somando-se aos gigantescos déficits orçamentários mantidos pelos EUA para conter a crise financeira. Impostos mais altos e uma maior regulamentação não podem beneficiar o crescimento.
É verdade que há margem para aumentar a eficiência do governo, especialmente nas áreas da educação e da saúde.
Mas será que essa economia será suficiente para aliviar o fardo de um governo cuja presença será em geral significativamente maior?
Espero que sim, e não há dúvida de que a administração Obama seja uma mudança refrescante depois da impressionante inépcia dos anos Bush-Cheney. Mas os governos de todo o mundo se mostram sempre convencidos de que sua expansão possa ser financiada substancialmente por meio dos ganhos na eficiência, um sonho que costuma se mostrar quimérico.
O crescimento chinês deve também desacelerar no longo prazo. Mesmo antes da crise financeira, estava claro que a China não poderia manter indefinidamente sua trajetória de crescimento de 10% ao ano ou mais.
Os problemas ambientais e de abastecimento de água estavam se acumulando.
Tornava-se cada vez mais claro que, enquanto a China continuava a crescer num ritmo superior ao de praticamente todos os demais países, a capacidade de importação(e a tolerância) do restante do mundo não seria capaz de acompanhar a máquina exportadora chinesa.
A China estava se tornando grande demais.
Com a crise financeira, o ajuste necessário à economia chinesa rumo a um maior consumo interno se tornou muito mais urgente. É verdade que, conforme as importações desabaram, o governo conseguiu sustentar o crescimento com imensos gastos e com a expansão do crédito. Mas, apesar de necessária, essa estratégia ameaça afetar o delicado equilíbrio entre a expansão dos setores público e privado que definiu a expansão chinesa até o momento. O papel cada vez maior desempenhado pelo governo e o papel cada vez menor do setor privado significam quase certamente um menor crescimento nesta década.
A Europa também enfrenta desafios,que não são provenientes apenas do fato de o continente ser agora amais afetada dentre as principais regiões econômicas do mundo atingidas pelo declínio, com o governo da Alemanha alertando para uma queda surreal de 6% no PIB esperada para 2009.
A crise financeira atual vai quase certamente desacelerar a integração dos países da Europa Central e Oriental, cuja jovem população é hoje a fonte mais dinâmica de crescimento na Europa.
Nem todas as regiões verão necessariamente um crescimento menor na próxima década. Supondo a continuidade das reformas em países como Brasil, Índia, África do Sul e Rússia, os mercados emergentes poderiam perfeitamente preencher parte da lacuna deixada no crescimento pelas economias maiores. Mas o mais provável é que, depois de aumentar durante anos as estimativas de crescimento, o Fundo Monetário Internacional (FMI) passe agora a reduzi-las.
Mesmo depois da crise, o crescimento mundial quase certamente deverá se manter, durante alguns anos, abaixo do nível observado nos anos de prosperidade pré-crise.
Essa mudança pode ser boa para o ambiente, para a melhor distribuição da renda, e para a estabilidade. Os governos estão certos ao se preocuparem com a qualidade do crescimento, e não apenas com a sua velocidade. Mas,em se tratando de estimativas tributárias e de lucros, os investidores e os políticos precisam se adaptar ao novo nível de normalidade - uma menor média de crescimento anual.

*Kenneth Rogoff é professor de economia e medidas públicas na Universidade Harvard, e foi economista-chefe do FMI.

OESP, 06/05/2009, Economia, p. B10

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.