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O mundo virtual da política verde

O Globo, Ciência, p. 28
27 de Mar de 2012

O mundo virtual da política verde
Anthony Giddens diz que tomadores de decisão vivem numa realidade paralela

LONDRES. Os danos causados pela ação do homem ao meio ambiente já são tão extensos e significativos que o planeta estaria entrando em uma nova era geológica, o Antropoceno (antropos, do grego, homem). A constatação foi corroborada por cientistas das mais diversas partes do mundo ontem, na capital britânica. Os especialistas criticaram duramente os governos por sua inércia em relação ao aquecimento global, cujas mudanças teriam sido tão profundas que justificariam uma alteração geológica. Sociólogo, ex-diretor da London School of Economics e um dos pioneiros da Terceira Via e da economia verde, Anthony Giddens afirmou ontem que os políticos vivem num mundo virtual ideal, que comparou ao do filme Matrix, enquanto o restante do planeta enfrenta enormes pressões.
- Vivemos como em Matrix, na interseção entre dois mundos - comparou Giddens, na abertura do encontro. - Há um mundo virtual, do computador, em que tudo é ótimo. E outro, o real, um mundo horrível. Para o sociólogo, esta é a metáfora ideal do que está acontecendo desde a Rio 92.
- O mundo virtual é o dos políticos, das conferências em que o melhor resultado que se consegue é manter as negociações andando - explicou. - O mundo real é o que cientistas estão descrevendo aqui, em que as coisas parecem bem ruins. Em que as concentrações de CO2 na atmosfera são as mais altas já registradas, onde o nível do mar não está baixando. É uma situação dramática, em que o futuro da civilização industrial está em jogo, uma situação que nenhuma outra civilização jamais experimentou.
De acordo com o sociólogo, a Humanidade está a ponto de alterar o clima da Terra de forma profunda e permanente, e muito longe de adotar qualquer ação para reverter o processo.
- Não há nenhuma economia verde no mundo - afirmou. - Nenhum país está nocaminho certo para manter o aumento da temperatura global em 2 graus Celsius.
Por essas e outras razões, explicou Giddens, ele aceita a ideia de que estamos em uma nova era geológica, o Antropoceno.
A primeira a propor a alteração foi a diretora do Instituto de Meio Ambiente da Universidade do Arizona, Diana Liverman.
Dada a rapidez das mudanças vivenciadas nos últimos anos, Diana considerou que a Terra já está em uma nova era geológica, marcada pelo profundo impacto no ecossistema das ações provocadas por uma única espécie, o homem. Tradicionalmente, cientistas consideram que estamos no Holoceno desde o fim da última Idade do Gelo, há 12 mil anos (data em que, acredita-se, teve início a agricultura).
- Antes disso, éramos basicamente caçadores-coletores - lembrou o geólogo Will Steffen, da Universidade Nacional da Austrália, que também participou da abertura do evento. - Agora, porém, estamos tirando a Terra da estabilidade, e de uma forma diferente, muito rápida, criando uma nova época na história do planeta. E o que isso significa?
O colapso da Amazônia, o derretimento de grande parte da camada de gelo, termos um aumento de temperatura que pode chegar a 6 graus Celsius. É um futuro incerto, num planeta muito mais quente.
Segundo Steffen, o Antropoceno pode presenciar uma das maiores extinções em massa de que se tem notícia.
Giddens frisou que, embora apoie as conferências das Nações Unidas - tentativas de lidar com o problema, como a Rio+20 -, ele acredita que a reversão de tal quadro só ocorrerá com a tomada de ações em outros níveis.
Ele lembrou, por exemplo, que apenas 1% da energia usada hoje no mundo é renovável. Para mudar o atual quadro, será preciso ter um novo tipo de visão política, mais realista.
- Trata-se de algo real e urgente, precisamos de algo realista. Precisamos de um novo paradigma, em outro nível que não o das Nações Unidas: da sociedade civil, das cidades, dos grupos de ação, dos jovens - ressaltou. -
A força de mudança tem que vir de baixo, pressionando. Mas não podemos fazer isso sem os países. Acho que nisso os países menos desenvolvidos terão um papel crucial, como China e Brasil, que devem assumir uma liderança importante.
(Roberta Jansen

O Globo, 27/03/2012, Ciência, p. 28

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