CB, Opiniao, p.21
18 de Set de 2004
O Milagre da estação de esgoto do rio Melchior
Joaquim Domingos Roriz
Governador do Distrito Federal
O paraibano Cícero de Lima e sua mulher Eleusa Rodrigues, moradores de uma chácara no Núcleo Rural do P Norte, formavam, em abril de 2002, um casal triste. lá não podiam mais tomar banho no rio Melchior. Com um jeito de saudade, Cícero dizia: "Era um rio tão bom. Tão limpinho para a gente tomar banho... Hoje, quando chove, a catinga dá enjôo. 0 rio não serve pra mais nada..." (1)
Seu Cícero e dona Eleusa já podem se alegrar novamente e, juntamente com seus três filhos, nadar à vontade nas águas despoluídas do rio. O Melchior está ressuscitando. Depois de vários anos sem peixes, tomado por plantas aquáticas, cheio de espuma e morto devido aos 2,2 milhões de litros de esgoto despejados em natura em suas águas, o rio prepara-se para reviver. O "milagre" deve-se à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) que transformará o Distrito Federal na primeira unidade da Federação com cobertura de 100% de tratamento de esgoto. 0 milagre da ressurreição do rio Melchior tem um custo. Foram R$ 64 milhões, 30 meses de trabalho duro da Caesb e muita dedicação de toda a equipe de governo.
Os beneficiários da estação de tratamento de esgoto do rio Meichior são vários. Beneficiam-se os quase um milhão de moradores de Ceilândia e Taguatinga, que agora têm tratamento sanitário adequado. Beneficia-se a microbacia do rio Melchior, que estará completamente despoluída e pronta para ser utilizada para captação de água. Beneficia-se a microbacia do rio Descoberto que, como receptor do Melchior, deixará de receber os resíduos despejados em suas águas. Beneficia-se a bacia do Corumbá, para onde correm agora as águas despoluídas do Descoberto, pronto para encher a barragem de Corumbá IV. Por final, beneficiam-se todos os goianos e brasilienses, por compartilhar um meio ambiente mais limpo e saudável.
A ETE do Melchior terá capacidade para tratar 2.500 litros de esgoto por segundo e vai realizar o processamento biológico em nível terciário. Isso significa que, após o tratamento, as águas estarão livres de nitrogênio e fósforo e terão a mesma qualidade do Lago Paranoá. A construção da ETE consumiu 450 toneladas de aço, 16.600 metros cúbicos de concreto, gerou 600 empregos diretos e pelo menos 1.200 indiretos e ocupa 210 mil metros quadrados, o que equivale a 42 campos de futebol.
Um dos aspectos mais importantes da ETE do Melchior é o nível de utilização de tecnologia na operação. Todas as etapas de funcionamento da estação serão automatizadas. 0 tratamento orgânico dos resíduos será monitorado sistematicamente em todas as suas, etapas, garantindo assim uma, eficiência no tratamento do esgoto e um controle de qualidade de impecável no produto final. Não bastassem os benefícios diretos da estação de tratamento, o lodo capturado na estação será processado e transformado em adubo orgânico para ser utilizado pela agricultura no Distrito Federal.
Brasília caminha para os 50 anos de sua fundação. Com dois milhões de habitantes, o Distrito Federal recebe, todos os dias, mais um milhão de moradores do Entorno, que trabalham, buscam tratamento médico, fazem compras e se deslocam para sua casas apenas à noite.
E pouco provável que essa situação mude no curto prazo. O Distrito Federal polariza uma grande região e é necessário reconhecer e aceitar esse fato. Brasília não deve tentar expulsar aqueles que vivem fora de suas fronteiras. Ao contrário, deve integrar o Entorno e sua economia, fazendo que o crescimento de ambos seja equilibrado e sustentável. A estação de Melchior beneficia diretamente, além dos moradores de Ceilândia e Táguatinga, todos aqueles que moram próximos às bacias do rio Descoberto e Corumbá.
A construção da ETE de Melchior é um projeto ousado porque envolve milhões de reais e uma tecnologia avançada; é um projeto silencioso, porque não é visível nem se transforma em atração eleitoral; é fundamental, porque beneficia um milhão de pessoas no Distrito Federal e outro tanto no estado de Goiás que contarão, a partir de agora, com um meio ambiente mais equilibrado e adequado à vida.
(1) Correio Braziliense, 23 de abril de 2002
CB, 18/09/2004, p. 21
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