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O meio ambiente trocado em miúdos

OESP, Vida, p. A27
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
05 de out de 2006

O meio ambiente trocado em miúdos

Marcos Sá Correa

O aquecimento global caiu na rede. Agora, quem procura por carbono no eBay, o balcão de leilões na internet, entre filtros, tubos de ligas leves para bicicletas e produtos tão especiais que os anunciantes nem se preocupam em explicar para que servem, pode topar, sem mais nem menos, com certificados de que o comprador tem créditos de CO2 com o planeta.

O atestado custa US$ 75. O vendedor está em Tulsa, Oklahoma, mais ou menos o Tocantins dos Estados Unidos. Vem garantido por uma tal de Clean Air Action Corporation, que assina o diploma vistoso, afirmando que só em 2005 tirou cinco toneladas de carbono da atmosfera, através de árvores plantadas na Índia, no Quênia, na Tanzânia e em Uganda. Metade da folha é decorada pela fotografia de gente em trajes étnicos, agachada à sombra de uma copa frondosa.

Mas é preciso ir mais fundo para encontrar, por trás do certificado, histórias como a da africana Beatrice Ahimbisibwe, uma professora de geografia em Bushenye, nos confins da selva ugandense. Em sua vizinhança fica o Parque Nacional Rainha Elizabeth, terra de leões, elefantes e hipopótamos. Em seu horizonte se erguem as montanhas azuladas do Rwenzori, santuário de gorilas.

Como professora primária, ela ganha cerca de US$ 150 por mês. Nada mal, numa região onde a renda mensal per capita anda pelos US$ 70. Beatrice é viúva, mãe de dois filhos. Três anos atrás, ela aceitou a proposta de uma ONG local para investir no mercado global do seqüestro de carbono, antes mesmo que o Protocolo de Kyoto deixasse o berço de seus entraves diplomáticos.

Tudo o que ela tinha de fazer para isso era devolver ao mato um pedaço de sua roça, plantando mudas nativas e deixando que elas cresçam em paz pelo menos até a maturidade. Beatrice reservou ao programa de reflorestamento 1 hectare dos 100 que cultiva, o suficiente para tirar do ar em dez anos 57 toneladas de carbono, vendidas como créditos à TetraPak, fabricante inglesa de embalagens descartáveis. Não chegava a ser um negócio da China, o de Uganda. Se tudo der certo, a US$ 8 por tonelada, em uma década Beatrice terá colhido US$ 456. Pagos em longas prestações que não ultrapassam, na melhor das hipóteses, US$ 120.

Em compensação, tem pouco a perder com o investimento em despoluição, exceto a certeza de que, sem mato perto de casa, os macacos e os rinocerontes não vão aparecer para suas safras. Enquanto as árvores sobem, ela está livre para soltar suas cabras no bosque. Para cortar galhos para usar na cozinha como lenha. E sobretudo para fazer planos de vender a madeira, se precisar de dinheiro quando se aposentar, lá pela década de 2020.

Beatrice, se tivesse escolha, plantaria eucaliptos, em vez de espécies africanas 'que a maioria de nós nem conhece'. Mas parece difícil vender cotas de carbono extraídas de um eucaliptal em Uganda a fregueses como Mick Jagger, Leonardo di Caprio e Pink Floyd, que enfeitam a clientela de corretoras desses títulos. Como a The CarbonNeutral Company, que recentemente negociou 10 mil toneladas de carbono seqüestrado por pequenos agricultores de Uganda. Não era, no caso, o CO2 de Beatrice.

Mas nunca se sabe o dia de amanhã, num mercado que nasceu outro dia mesmo e só no ano passado apostou US$ 100 milhões em modestos negócios como o da professora.

'É assim que as coisas começam', diz o ambientalista colombiano Ricardo Bayon, que trouxe nesta semana ao Brasil histórias como a de Beatrice. E fica difícil não ouvir seus argumentos quando, para apresentá-los, ele passou a noite num vôo São Francisco- Rio, desembarcou no Galeão às 7h30 da manhã, antes das 9 horas já mandava e-mails, do táxi engarrafado na Linha Vermelha, para avisar que estava meia hora atrasado. Apresentou-se para a conversa sem passar no hotel e, movido a meia xícara de café, falou sem parar pelo dia adentro, alinhavando os sinais de que passou o tempo em que o mundo parecia dar tudo de graça.

Uma tonelada de carbono já vale 17. É o primeiro a aprender a pagar por ar, água e, quem sabe, canto de passarinho. Bayon dirige nos Estados Unidos o Ecosystem Martketplace. Acredita tanto no mercado que acha possível virá-lo pelo avesso.

Marcos Sá Correa Jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 05/10/2006, Vida, p. A27

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