O Globo, Opinião, p. 7
Autor: TRIGUEIRO, André
05 de Fev de 2002
O meio ambiente por inteiro
André Trigueiro
ARio-92 marcou o início de uma série histórica de pesquisas realizadas a cada quatro anos pelo Ibope com o objetivo de avaliar o que o brasileiro pe nsa do meio ambiente. Encomendada pelo Iser e patrocinada pelo Ministério do Meio Ambiente, a última versão da pesquisa está sendo divulgada agora, com o resultado de duas mil entrevistas realizadas em outubro passado em todas as regiões do país.
A riqueza e a complexidade do material coletado ainda são objeto de estudos, mas alguns dados merecem atenção desde já. Tal como haviam indicado as consultas feitas em 1992 e em 1997, a pesquisa confirmou em 2001 que, para a maioria dos brasileiros, meio ambiente é uma questão que se resume à fauna e à flora. Ao escolher, numa lista com catorze elementos, quais aqueles que fazem parte do meio ambiente, a maioria dos entrevistados deixou de fora "seres humanos", "favelas" e "cidades".
Ou seja, aos olhos do brasileiro, meio ambiente é algo em que simplesmente ele não está incluído, e todos os problemas que dizem respeito à qualidade de vida nas cidades - lixo, saneamento, especulação imobiliária etc. - não estão relacionados com o assunto da entrevista.
Talvez por conta disso, mais de 50% dos entrevistados não souberam identificar nenhum problema ambiental no seu bairro. Conclui-se que, para o brasileiro, a chamada agenda marrom, expressão cunhada pelas Nações Unidas para designar as ações em benefício da qualidade de vida nas cidades, não faz o menor sentido.
A pesquisa revelou ainda que o conceito de meio ambiente varia de acordo com nível de escolaridade dos entrevistados. Quanto maior o nível de instrução, maior a capacidade de identificar como problemas ambientais do bairro a falta de saneamento, o acúmulo de lixo, a poluição de rios, lagos e praias etc.
Merece registro o fato de que apenas 17% dos entrevistados lêem jornal diariamente, e 90% têm na televisão a principal fonte de informação. Por mais que se reconheçam os avanços na cobertura da mídia nos últimos dez anos em relação aos assuntos ambientais, o fato é que apenas 15% dos entrevistados se declararam bem informados sobre meio ambiente e ecologia.
Este é um indicador que também diz respeito ao trabalho de jornalistas, formadores de opinião e educadores ambientais. Há um trabalho a ser feito para qualificar os conteúdos da mídia na área do meio ambiente, emprestando à expressão novos significados que extrapolem a fauna e a flora.
Desinformação, porém, não significa desconsideração. A pesquisa indica, de forma curiosa, a sensibilidade dos brasileiros para as questões ambientais: 59% (57% em 1992) dos entrevistados consideram a natureza sagrada e 52% (51% em 1997) preferem menos poluição à geração de mais empregos sem qualidade ambiental. Mais de 70% manifestam simpatia pelo trabalho de organizações ecológicas, e o Ibama aparece disparado em primeiro lugar (77%) como a mais lembrada, seguida da Associação Mico-Leão-Dourado (25%) e a Fundação S.O.S Mata Atlântica (23%).
A simpatia pelas organizações ecológicas ainda não se traduz em participação ativa numa frente de trabalho voltada para este fim: apenas 1% declarou ser membro de alguma organização ambiental.
A parte da pesquisa que identifica o que os brasileiros estão dispostos a fazer pelo meio ambiente registra os mesmos resultados da pesquisa anterior, de 1997: separar materiais recicláveis, conter o desperdício de água e os gastos com luz, nesta ordem. Não deixa de ser curioso o fato de que, num país onde a maior parte do lixo vai parar displicentemente em aterros improvisados, o brasileiro manifesta preocupação com o descarte de materiais tóxicos ou perigosos, sem que existam campanhas orientando a população quanto a isso. Cinqüenta e nove por cento dos entrevistados declararam ter cuidado com o que jogam na lixeira.
A grande novidade desta última pesquisa é o ineditismo do questionário que apurou os hábitos de compra e consumo do brasileiro: nada menos que 81% declararam que se sentem mais motivados a comprar um produto ambientalmente correto, ou seja, que traga no rótulo informações claras sobre os cuidados tomados em relação ao meio ambiente; 73% declararam que se sentem mais motivados a comprar um produto orgânico, sem insumos químicos. O plantio de transgênicos no Brasil foi condenado por 59% dos entrevistados.
A pesquisa apurou também qual esfera do poder detém, aos olhos da população, a maior cota de responsabilidade na solução dos problemas ambientais. De 1992 para 2001, as prefeituras deram um salto de 30% para 46% nas respostas, confirmando a expectativa da população no sentido de que o poder local se manifeste e exerça a sua autoridade. Num país onde as estatísticas são sofríveis, os dados reunidos nesta série histórica de pesquisas constituem um precioso material que enseja reflexão e aprimoramento de iniciativas.
André Trigueiro é jornalista.
O Globo, 05/02/2002, Opinião, p. 7
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