OESP, Notas e Informações, p. A3
04 de Fev de 2006
O lixo no Rio Tietê
E m meados de outubro passado, período de estiagem, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee)montou uma barreira para contenção de lixo no leito do Rio Tietê, nas proximidades da Ponte do Piqueri. A experiência durou 36 horas e, no final, 150 caminhões saíram lotados com garrafas plásticas, papel de todo tipo, madeira, móveis e materiais de outros tipos descartados pela população de cidades da região metropolitana diretamente nas águas do rio ou dos 220 córregos que deságuam nele.
A falta de consciência ambiental, aliada às falhas na coleta do lixo e ao descontrole da ocupação das margens de córregos, degrada os cursos d'água e anula parte considerável dos investimentos públicos nos projetos de despoluição, desassoreamento e canalização de rios e córregos. Desde 2002, o governo de São Paulo investiu R$ 1 bilhão no projeto de ampliação da Calha do Rio Tietê, obra realizada em parceria com o Japan Bank for International Cooperation (JBIC), que financia 75% do programa. Outros US$ 1,5 bilhão são investidos paralelamente no projeto de despoluição do rio, considerado pelos técnicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como o plano de saneamento melhor gerenciado do mundo. O banco financia 50% do programa.
Tanto esforço técnico e financeiro, porém, pode ter os resultados comprometidos pela falta de educação, pela inexistência de política habitacional e pela falta de fiscalização. Desde 2002, foram retirados 7 milhões de metros cúbicos de detritos do leito do Rio Tietê, além de 120 mil pneus.
A ampliação da calha dobrou a capacidade de vazão do rio e diminuiu drasticamente a possibilidade de extravasamento das águas. Os bons resultados, porém, podem desaparecer em pouco tempo se o governo não mantiver um trabalho constante de desassoreamento para ir retirando do rio o que a população atira nas águas que cortam a região metropolitana.
A Grande São Paulo produz 19 mil toneladas de lixo diariamente, das quais pelo menos 2 mil são lançadas em lugares inadequados. É o lixo despejado diretamente nas águas de córregos e rios ou em aterros improvisados por onde as enxurradas passam, levando tudo para os cursos d'água. O Rio Tietê recebe uma carga poluidora de mais de 1,1 mil toneladas de matéria orgânica, 3 toneladas de matéria inorgânica e mais de 300 toneladas de resíduos sólidos a cada dia. Mais de 35% da poluição acumulada na Bacia do Tietê não vem das redes de esgoto, mas das mais de 600 entradas de água existentes no rio. É o lixo abandonado nas ruas e despejado em locais impróprios. O Daee estima que o Tietê só manterá as condições atuais de vazão se, anualmente, forem retirados 800 mil metros cúbicos de detritos do seu leito.
O secretário de Estado de Recursos Hídricos, Mauro Arce, acredita que a solução só ocorrerá no longo prazo com o cultivo da consciência ambiental entre as crianças. Durante as obras, o governo estadual levou 2 mil pessoas para visitar o rio. Palestras sobre o tema têm sido realizadas nas escolas. Mas é preciso uma ampla e permanente campanha de conscientização capaz de mudar hábitos em todas as classes sociais e faixas etárias.
É necessário também que as prefeituras da região metropolitana ampliem os serviços de coleta de lixo e se esforcem para frear as ocupações clandestinas, principalmente aquelas que comprometem rios e córregos. É preciso ainda que os governos municipais fiscalizem a destinação dos resíduos de construção. Muitos são os transportadores particulares de entulho que esvaziam os caminhões nos córregos mais próximos das obras.
Em épocas de chuvas, o lixo compromete o sistema de drenagem das cidades. No último fim de semana, uma chuva forte arrastou o lixo dos córregos para o Tietê. O ramal que levaria a água para as bombas de sucção instaladas na Ponte das Bandeiras para impedir o refluxo das águas para a Marginal do Tietê entupiu, provocando a inundação das pistas.
É urgente conscientizar a população sobre os prejuízos provocados pela má destinação do lixo. Incentivos à reciclagem, campanhas de conscientização, programas de educação ambiental são ações urgentes que o poder público pode desenvolver em conjunto com a iniciativa privada e entidades ambientais.
OESP, 04/02/2006, Notas e Informações, p. A3
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