O Globo, Razão Social, p. 12-13
19 de Jan de 2010
O legado da COP-15 nas empresas
Executivos falam sobre impactos das negociações no setor privado
Camila Nobrega e Martha Neiva Moreira
camila.alves@oglobo.com.bre
martha.moreira@oglobo.com.br
O documento forte, que traria fresquinhas da COP-15 as diretrizes para o combate mundial ao aquecimento global, não veio. Mas, em vez de esfriar investimentos do setor privado, o resultado parece ter aumentado a disposição do empresariado de coordenar com o setor público a transição para uma economia de baixo carbono. Entre executivos brasileiros, ouvidos pela Razão Social após desembarcarem da COP-15, há um consenso: o grande número de delegados brasileiros na Dinamarca mostrou que não se trata de ufanismo, mas de sobrevivência dos negócios. Segundo instituições representativas do setor privado, porém, o protagonismo das empresas foi tímido. Marina Grossi, diretora do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), afirma que eventos como este não estão preparados para dar maior espaço às empresas.
Já Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, acredita que falta na agenda das companhias nacionais uma participação internacional efetiva.
Marina Grossi citou uma afirmação do secretário-geral da convenção, Yvo de Boer, segundo o qual o setor privado não estava sendo representado no processo de negociação. A diretora do CEBDS, que já havia estado em duas outras Conferências das Partes (ela era negociadora do governo brasileiro), explicou que as empresas têm boas iniciativas, mas não estão incluídas nas discussões:
- Falta diálogo do setor privado com o governo. E isso não ocorre só no Brasil, mas no mundo inteiro. Há espaços para apresentação de iniciativas, mas são isolados. Falta uma ação organizada. Muitas vezes, a iniciativa privada sequer é consultada sobre uma nova legislação que, em alguns casos, depende da ação do empresariado. Para que os projetos se tornem viáveis, falta sinergia, ou seja, sentar para conversar costantemente.
Em contrapartida, Marina ressaltou os ganhos com a conferência. Para ela, o fato de o Brasil ter saído da situação de polarização com os países desenvolvidos e ter assumido metas, como outras nações em desenvolvimento, foi um grande passo. Mesmo sem incluir metas no acordo oficial, os países garantiram que vão manter compromissos individuais.
Já o presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young afirmou que, embora a delegação brasileira tenha sido uma das maiores, com 700 integrantes, o protagonismo das empresas ficou aquém do esperado. Young citou como exemplo a China, que, segundo ele, brilhou em inovação:
- Todo mundo esperava uma atuação melhor de nossos representantes, já que temos boas inovações em sustentabilidade, como a política nacional de biocombustível. Falta na agenda das empresas nacionais uma atuação mais efetiva internacionalmente. Ou as empresas brasileiras não estão sendo consideradas ou nosso empresariado não está criando condições para que elas sejam consideradas lá fora - disse Young, lembrando também os pontos positivos da COP-15: - Garantiu a integração do setor empresarial em uma dimensão nunca antes vista.
A Natura foi uma das empresas que se destacou ao anunciar, durante a Conferência, a adesão da empresa ao programa Defensores do Clima WWFBrasil e seu compromisso em reduzir em 10% as emissões absolutas dos seus processo operacionais até 2012.
- Isso mostra como é possível dissociar crescimento econômico e emissões de gases de efeito estufa, mesmo em países em desenvolvimento - observa Marcos Vaz, diretor de sustentabilidade.
A impressão de Luiz Claudio Castro, da Vale, foi a de que a mobilização dos empresários nacionais para a COP-15 só se compara a entrada das empresas, de maneira efetiva, na discussão ambiental da Eco 92. Ele informa que, este ano, entre os investimentos da companhia estão dois projetos importantes, relativos à redução de emissões:
- Pesquisamos energias alternativas. Fizemos uma primeira apresentação na COP-15, mas o protótipo ainda está no laboratório. Num projeto, estamos desenvolvendo uma metodologia para quantificar a fixação de carbono nas raízes das árvores, que será importante no trabalho de Redução de Emissões por desmatamento e Degradação Florestal (REDD).
Os impactos da Conferência nas empresas também foram considerados positivos, na opinião o diretor de Relações Institucionais e Comunicação Corporativa da siderúrgica Usiminas, Eduardo Vieira. Segundo ele, a COP-15 foi um marco na discussão de como o planeta vai lidar com o aquecimento global:
- A COP-15 foi mais uma etapa na definição de como vamos aliar o crescimento econômico a uma produção e consumo ambientalmente responsáveis. A sustentabilidade é vital para garantir o futuro de toda e qualquer atividade econômica. A siderurgia, por ser uma atividade com alta produção de gases atmosféricos, é também uma área que dá grandes possibilidades de redução das emissões. A Usiminas aposta em ecoeficiência, para diminuir suas emissões.
A preocupação com desenvolvimento sustentável faz parte da estratégia de negócios da Coca-cola, que também tem uma série de projetos, especialmente ligados à agenda política mundial para conservação de recursos hídricos.
- Esse compromisso está ligado aos negócios da empresa, mas temos o objetivo de ir além e levar esses valores para o nosso público consumidor - explica José Mauro de Moraes, diretor de Meio Ambiente da Companhia, que acredita que é importante levar o debate aos consumidores.
Outra empresa que tem investido na redução das emissões é a Petrobras.
Segundo o presidente de Biocombustível da empresa, Miguel Rossetto, independentemente das negociações de metas globais, as ações fazem parte de uma política de respeito à sociedade e à imagem da empresa:
- A sustentabilidade faz parte de nosso planejamento estratégico. E a COP-15 encerra definitivamente dúvidas com relação a urgência da agenda de mudanças climáticas em escala mundial. O Brasil assumiu um papel de liderança positiva.
O desempenho brasileiro foi também destacado por Nemércio Nogueira, diretor de Assuntos Institucionais da Alcoa América Latina e Caribe:
- A posição do Brasil foi muito marcante, na pessoa do presidente Lula, que assumiu a responsabilidade que havia sido acordada na COP-14 de trazer uma meta, reconhecendo sua contribuição para a solução, mas sem esquecer de chamar os países desenvolvidos a assumirem sua responsabilidade.
Já os executivos da União da Indústria da Cana-de Açúcar (Unica) e da petrolífera Shell ressaltaram que a ausência de um acordo forte deixou em aberto questões decisórias para o setor privado. Luiz Fernando do Amaral, assessor de Meio Ambiente da Unica, disse que isso vai atrasar a política que vai guiar o setor privado:
- Investimentos em novas tecnologias já fazem parte da agenda dos agentes privados. O problema é não ter regulamentação internacional. A regulamentação daria um boom nos investimentos - afirmou, lembrando que restrições comerciais e demanda de consumidores já assumem pressão sobre os negócios: - No caso do etanol, Estados Unidos e Europa já têm leis de metas de consumo de biocombustíveis, independentemente de um acordo. Vamos continuar no caminho de incentivar a colheita mecanizada, por exemplo. O setor privado está pronto para tomar atitudes, mas falta arcabouço jurídico.
O gerente de Relações Corporativas da Shell, Fábio Caldas, também diz que não ficou claro como a vontade política de se fazer a transição para uma economia de baixo carbono vai ser traduzida em passos concretos. Segundo ele, uma saída pode surgir em acordos bilaterais e multilaterais, em vez de globais:
- Falta montar uma estrutura global, para combater mudanças climáticas. As soluções políticas podem emergir de acordos bilaterais, em nível regional ou multilateral, ou até entre blocos econômicos. Houve discussões sobre essa tendência em Copenhague.
Mas é necessário definir compromissos mundiais, um processo claro, de apoio aos países em desenvolvimento e com medição de emissões. A Shell já faz seus próprios inventários. Em 2008, reduzimos em 30% nossas emissões em relação aos níveis de 1990. A ideia é continuar nesse ritmo de ação.
A frustração com o resultado da COP-15 foi o termômetro, na opinião de Reinoldo Poernbacher, diretor geral da Klabin, de que o tema já faz parte do rol de preocupações de empresários, poder público e sociedade civil.
- Até então o tema ambiental era restrito a cientistas e ONGs. Agora temos uma sociedade inteira preocupada e demandando medidas. É exatamente esta atitude que gera transformação. A Klabin participou de vários movimentos e alianças pré-conferência, que encaminharam recomendações para o governo brasileiro - informa.
Para o diretor de relações institucionais da Suzano, Luiz Cornacchioni, empresa que faz sistematicamente inventário de emissões, não se pode esperar da COP-15 resultados rápidos.
- O Brasil teve presença maciça.
Acho que o ganho é qualitativo.
Investimentos em novas tecnologias já fazem parte da agenda dos agentes privados. Ainda não há regulamentação.
Luiz Fernando do Amaral, da Única
A posição do Brasil foi muito marcante, na pessoa do presidente Lula, que assumiu a responsabilidade que havia sido acordada na COP-14
Nemércio Nogueira, da Alcoa
A COP-15 encerra definitivamente dúvidas com relação a urgência da agenda de mudanças climáticas em escala mundial
Miguel Rosetto, da Petrobras
Falta diálogo do setor privado com o governo no mundo inteiro. Há espaços para apresentação de iniciativas, mas são isolados
Marina Grossi, do CEBDS
A frustração com o resultado foi o melhor termômetro do sucesso da COP-15. O tema era restrito a cientistas e ONGs, agora é da sociedade
Reinoldo Poernbacher, da Klabin
Não se pode esperar resultados rápidos da Conferência das Partes. O Brasil teve presença maciça e o ganho é qualitativo
Luiz Cornacchioni, da Suzano
O Globo, 19/01/2010, Razão Social, p. 12-13
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