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O isolamento do presidente

CB, Opinião, p. 25
Autor: GOLDEMBERG, José
10 de Jun de 2008

O isolamento do presidente

José Goldemberg
Professor da Universidade de São Paulo (USP)

Uma das facetas surpreendentes do presidente Lula é seu engajamento solitário na defesa do programa do álcool em foros internacionais. Em suas viagens pelo Brasil, quer anunciando obras ou benesses o presidente vive cercado de políticos, ministros e áulicos em que sua retórica tem muito sucesso. Ele cumpre bem seu papel, mas não tem revelado convicções pessoais muito fortes.

No entanto, na defesa do programa do álcool do Brasil o presidente tem revelado convicções profundas e não oportunistas ao se tornar um "cavaleiro andante" em defesa do uso dos biocombustíveis, um dos maiores programas de energia renovável do mundo. Aparentemente, ele o faz por convicção.

Biocombustíveis (tanto etanol como biodiesel) já são produzidos na
Europa há muitos anos em pequenas quantidades e o seu uso como substituto dos derivados de petróleo foi saudado inicialmente como umas das soluções mais criativas da área energética nas últimas décadas. Nos últimos 10 ou 15 anos, a produção de etanol cresceu muito, sendo produzida a partir da cana-de-açúcar no Brasil e de milho nos Estados Unidos. Hoje, cerca de 3% da gasolina do mundo foi substituída por etanol. No Brasil, ele substitui 40%. O biodiesel foi apresentado como parte do programa de agricultura familiar, que poderia atrair o apoio de certos setores da "esquerda", mas dificuldades técnicas tornaram esse programa pequeno e problemático.

O custo de produção do etanol - a partir do milho - nos Estados Unidos é o dobro do seu custo no Brasil. Na Europa, onde é feito de beterraba ou trigo, o custo é quatro vezes maior. O excelente clima do Brasil é favorável à cultura da cana-de-açúcar e 30 anos de experiência na produção de etanol o tornaram imbatível no mundo.

É evidente, portanto, que o etanol do Brasil ameaça interesses comerciais dos produtores dos Estados Unidos e da Europa, e, para impedir que penetre nessas áreas, barreiras alfandegárias foram criadas. Os ataques dos interesses comerciais ameaçados contaminaram o movimento ambientalista, cuja oposição não deve ser menosprezada.

Os ambientalistas conseguiram paralisar os programas nucleares em muitos países e quase paralisaram a construção de hidroelétricas. Seu principal argumento é que o uso de milho para produzir álcool é um dos responsáveis pelo crescimento do preço dos alimentos e, portanto, está criando fome no mundo. Sucede que o etanol do Brasil vem da cana-de-açúcar e está se expandindo em pastagens, não substituindo outras culturas. Os ataques ao Brasil se concentram também nas condições sociais dos trabalhadores que trabalham nos canaviais e no desmatamento da Amazônia, que não é conseqüência da produção de cana.

Para enfrentar esses ataques, não basta o presidente discursar em Bruxelas, em reuniões da União Européia ou em Roma, onde ele tem tido até um desempenho razoável. É preciso demolir tecnicamente esses argumentos e também conquistar os "corações e mentes" das organizações ambientais e acadêmicas que alimentam os argumentos protecionistas dos governos dos Estados Unidos, Europa e dos países produtores de petróleo.

Essa batalha não ocorre em Bruxelas e Roma, mas nas páginas das revistas científicas, como Science (americana) e Nature (inglesa), e nelas poucos são os cientistas brasileiros engajados até agora.

O presidente não se cercou, nem aparece em foros internacionais apoiado pelos seus ministros das áreas técnicas (exceto o de Relações Exteriores). Ele está só e parece ao mundo externo estar só.Ao falar de temas complexos como biocombustíveis e as diferenças entre o modelo brasileiro e o americano e europeu de produzi-los, ele não pode fazê-lo de maneira convincente.

O presidente parece ter se dado conta disso ao anunciar a realização de uma conferência científica em São Paulo, em novembro, para discutir biocombustíveis. É uma boa iniciativa, mas vem atrasada, sendo preciso fazer mais. Até agora o governo tem promovido apenas conferências chapa-branca, como a realizada em Iguaçu pelo Ministério de Minas e Energia, em que nem foram convidados os cientistas das nossas universidades e institutos de pesquisa que trabalham na área e que, portanto, não ajudaram a dissipar as restrições mundiais aos nossos programas.

CB, 10/06/2008, Opinião, p. 25

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