OESP, Vida, p. A30
Autor: KRUGMAN, Paul
16 de Mai de 2009
O império do carbono
Paul Krugman*
Eu vislumbrei o futuro e vi que ele não vai funcionar.
Esta deveria ser uma época de esperança para os ambientalistas. A ciência fajuta não mais impera em Washington. O presidente Barack Obama falou enfaticamente sobre a necessidade de agir contra as mudanças climáticas; as pessoas com quem converso demonstram otimismo cada vez maior, acreditando que logo o congresso vai estabelecer um sistema de limites e permutas capaz de restringir as emissões de gases-estufa, restrição que se mostrará cada vez mais rigorosa com o passar do tempo. E, depois que os Estados Unidos tomarem medidas nesse sentido, podemos esperar que o restante do mundo siga o nosso exemplo.
Mas isso ainda nos deixa com o problema da China, onde passei a maior parte da semana passada. Como todos que a visitam, fiquei impressionado com a escala do desenvolvimento. Até seus aspectos mais irritantes - gastei muito tempo contemplando a Grande Muralha dos Engarrafamentos - são subprodutos do sucesso econômico chinês.Mas a China não pode seguir no caminho atual porque o planeta não é capaz de suportar tamanho desgaste.
O consenso científico em relação às perspectivas do aquecimento global se tornou muito mais pessimista nos últimos anos. As previsões mais recentes feitas por renomados cientistas climáticos beiram o apocalíptico. Por quê? A resposta: o ritmo do aumento na emissão de gases-estufa iguala ou excede as piores projeções. E o crescimento das emissões chinesas - o país já é o maior produtor mundial de CO2 - é uma das principais razões por trás desse pessimismo.
As emissões da China, que vêm principalmente de usinas de energia abastecidas por carvão, dobraram entre 1996 e 2006. Trata-se de um ritmo de crescimento muito mais acelerado que o da década anterior. E a tendência deve continuar: em janeiro a China anunciou que planeja dar continuidade à sua dependência em relação ao carvão como principal fonte energética. E, para suprir a demanda gerada pelo seu crescimento econômico, vai aumentar em 30% a produção de carvão até 2015. Essa decisão pode anular quaisquer reduções na emissão de gases conquistadas em outras partes do mundo.
E o que devemos fazer? Nada, dizem os chineses. Cada vez que toquei nesse assunto durante minha visita, deparei-me com declarações indignadas, destacando a injustiça de se esperar que a China limite o uso dos combustíveis fósseis. Afinal, disseram eles, o Ocidente não foi submetido a esse tipo de restrição durante sua fase de desenvolvimento; apesar de a China ser a maior fonte mundial de emissões de CO2, sua proporção de gases emitidos per capita é muito inferior à observada nos EUA; e grande parte do aquecimento global que vivemos não se deve às emissões chinesas, mas às emissões anteriores dos países ricos de hoje.
E os chineses têm razão. É injusto esperar da China que viva sob restrições às quais não fomos submetidos quando nossa própria economia estava em ascensão. Mas essa injustiça não altera o fato de o planeta estar condenado se permitirmos à China igualar o desperdício ocidental anterior.
Injustiças históricas à parte, os chineses insistiram que não deveriam ser responsabilizados pelos gases-estufa emitidos durante a produção de artigos para estrangeiros. Mas eles se recusaram a aceitar a implicação lógica dessa recusa - o fardo deveria então ser repassado a esses consumidores estrangeiros, e os fregueses que compram artigos chineses deveriam pagar uma "tarifa do carbono" equivalente à emissão de gases associada à sua produção. Isso, dizem os chineses, seria contrário aos princípios do livre comércio.
Sinto muito, mas as consequências da produção chinesa na mudança climática precisam ser levadas em consideração. E o problema da China não está tanto naquilo que o país produz quanto na forma com a qual esta produção é levada a cabo. Lembrem-se, a China emite hoje mais dióxido de carbono do que os EUA, apesar do seu PIB equivaler a cerca da metade do americano (e os Estados Unidos, por sua vez, são um verdadeiro porco emissor de gases se comparados aos países europeus e ao Japão).
A boa notícia é que a própria ineficiência energética da China oferece muito espaço para melhorias. Se forem adotadas as medidas corretas, a China pode manter o seu rápido crescimento sem aumentar suas emissões de carbono. Mas primeiro o país precisa compreender a necessidade de mudanças nas suas políticas.
Há indícios, nas declarações que emanam da China, de que os administradores do país estejam começando a perceber que a sua posição atual é insustentável. Mas suspeito que eles ainda não tenham entendido o quão rapidamente as regras do jogo vão mudar.
Quando os EUA e demais países avançados finalmente agirem para enfrentar a mudança climática, eles disporão também do poder moral de confrontar os países que se recusarem a adotar medidas semelhantes.
Mais cedo do que a maioria das pessoas pensa, os países que se recusarem a limitar as emissões de gases do efeito estufa serão submetidos a sanções, provavelmente sob a forma de impostos sobre os seus produtos de exportação. Eles se queixarão amargamente desse protecionismo, mas e daí? A globalização não pode ser de grande serventia se o próprio globo se tornar inabitável.
É hora de salvar o planeta. E a China terá de fazer sua parte, goste ou não.
*Prêmio Nobel de Economia de 2008
OESP, 16/05/2009, Vida, p. A30
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