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O horror do desastre

O Globo, País, p. 11-13
21 de jul de 2019

O horror do desastre
Brumadinho, as buscas e o tormento da impunidade
Seis meses depois do rompimento da barragem, operação ainda busca vítimas em meio ao medo

ANA LUCIA AZEVEDO
PABLO JACOB

O mar de lama está seco. Em seu lugar há poeira e pilhas de rejeito de minério de ferro. Milhares delas, entremeadas por destroços de prédios, locomotivas e caminhões, amassados como bola de papel. É nessa zona de terra arrasada de quatro milhões de metros quadrados que acontece a maior operação de resgate do mundo, abusca às vítimas do rompimento da barragem de rejeito de mineração da Vale, em Córrego do Feijão, em Brumadinho. Às 12h 28m da próxima quinta-feira, dia 25, se completam seis meses do desastre, cuja brutalidade ainda impressiona acada dia os bombeiros. O trabalho sem precedentes já levou à identificação de 248 vítimas, mas 22 pessoas permanecem desaparecidas, numa luta contra o tempo. Por dia, 150 bombeiros e mais de cem máquinas trabalham nas buscas. O impacto da onda de mais de 10,5 milhões de metros cúbicos de rejeito, 15 metros de altura e velocidade de 75 km/h produziu um desastre que legistas classificam como grotesco ao destroçar corpos eespalhá-los por uma área vasta. É a violência do desastre, que parentes de vítimas denunciam agora em busca de justiça. Famílias de vítimas mutiladas - a maioria dos mortos teve o corpo destruído -decidiram contar seu drama por temer que os responsáveis fiquem impunes, se a brutalidade do desastre não for reconhecida. Outra reportagem deste especial sobre o desastre revela que aforça-tarefa que investiga a responsabilidade pelo rompimento da barragem vai denunciar até 15 pessoas pelos crimes de homicídio qualificado com dolo eventual, lesões corporais graves e danos ambientais. Entre eles estão membros da cúpula da Vale. O Ministério Público já ouvi mais de 90 testemunhas e estima ainda que ao menos cem pessoas sofreram ferimentos significativos, incluindo amputações.
A onda de Brumadinho gerou uma tsunami de reservatórios interditados, a maioria deles da Vale e em Minas Gerais. Das 56 barragens interditadas, 22 estão em emergência, quase todas na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Quatro delas encontram-se em risco iminente de rompimento. Outra reportagem mostra como vivem as pessoas nas zonas de risco, expulsas de casa e sem definição sobre o futuro.

ONDE A TRAGÉDIA AINDA PERSISTE
OBRIGADAS A ENTERRAR VÍTIMAS AOS PEDAÇOS, PARENTES DENUNCIAM DESCASO E QUEREM PUNIÇÕES

O Globo 21 Jul 2019

Indignação. Daiane segura a foto do irmão, Vagner: a família ainda não sepultou os restos mortais encontrados e considera uma afronta às vítimas esconder a brutalidade do desastre. Eles temem que isso só ajude a amenizar a tragédia
Amaioria dos mortos pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho foi oficialmente identificada e sepultada. Mas, para algumas de suas famílias, eles continuam na lama e elas, à espera de justiça e com medo de, como na tragédia de Mariana, prevalecer a impunidade. São famílias como a do operador de máquinas da Vale Vagner Nascimento da Silva, de 39 anos, 12 dos quais na mineradora. Ele foi declarado morto e seu corpo encontrado em 10 de maio. Seus restos mortais permanecem no IML.

Na casa onde Vagner morava, no bairro de José Henriques, zona rural de Brumadinho, sua família chora todos os dias. Mas deixou o que se achou dele no necrotério para lembrar que não houve justiça. Os parentes consideram uma afronta à dignidade das famílias tratar fragmentos como corpo: é como amenizar a gravidade do desastre.

- Se todas as famílias revelassem o que de fato sepultaram, talvez houvesse alguma justiça. É preciso que se encare o que a barragem da Vale fez com as pessoas que matou. Pessoas foram trituradas, despedaçadas. A impunidade nos atormenta. Em Mariana só as vítimas sofreram. Temos que encarar a

verdade, para lutar por justiça - afirma a mãe de Vagner, Arlete Gonçala de Souza Silva, de 56 anos. Da maioria das vítimas não se achou de fato um corpo, só fragmentos. O IML informou que dos 248 mortos identificados, apenas 79 corpos podem ser considerados íntegros.

- Fingir que temos um corpo enquanto só temos pedaços é uma humilhação, um deboche. Esconder a verdade ajuda os responsáveis pelo desastre. Vou aguardar até o fim das buscas -frisa Arlete.

LUTA POR DIGNIDADE

Dona Arlete diz que jamais esquecerá quando lhe telefonaram do IML para dizer que haviam achado seu filho, mas ele não estava inteiro. Perguntou o que haviam encontrado. Aperna direita com um pedaço da pélvis ainda conectado, um pouco do intestino e apontada coluna foi a resposta. A família acredita que ele morreu enquanto esperava um ônibus dentro da mina, diz sua irmã, Daiane Rodrigues.

-Não fomos pegar aperna do Vaguinho. Não temos pressa. O mal que a Vale fez, está feito. Não há dignidade em aceitara perna e alguns pedaços de um trabalhador, caixão e cham arde corpo. Agora lutamo spa raque haja punição. Mas não confiamos na Justiça -diz.

A família de Vagner sofre ao reconhecer que parte dos restos mortais das vítimas permanecerão na zona de desastre. -Um diate remos que sepultar oque foi achado. E o restante do meu irmão, onde está? Estará por aí, na lama. Essa violência não acaba nunca - diz Daiane.

DOIS ENTERROS

Como a família de Vagner, a de Manuel Messias Souza Araújo, de 57 anos, também ouviu que ele havia sido encontrado. Foi declarado morto em 19 de maio e sua família o sepultou dias depois. Manuel morreu no que se acredita ter sido o quarto dele, em Parque da Cachoeira. Ele fugiu com a irmã ao saber que a onda vinha, mas voltou para pegar seus documentos. Seu Manuel foi decapitado e sua cabeça permanece perdida. Ainda no IML, porém, a sobrinha Ana Cristina Cardoso Araújo, de 39 anos, conta que os familiares foram surpreendidos pela pergunta de uma funcionária.

- Ela nos perguntou se iríamos querer a cabeça dele, caso esta fosse encontrada. Mas advertiu que nesse caso, teríamos que pagar pelo segundo enterro, já que a mineradora só pagaria por um. Óbvio que queremos sepultar a cabeça do meu tio e não vamos assinar papel algum para ignorar o restante dele. É essa violência do desastre que a sociedade precisa conhecer se quiser evitar outros -lamenta.

UM TERÇO E UMA ALIANÇA

Rosângela Maria Matos, de 53 anos, não larga o celular. Nele está uma foto com o rosto do filho morto, que ela achou na internet na semana passada. A lama da Vale matou Duane Moreira de Souza, de 33 anos, no dia do aniversário dele. Matou sua irmã, Eva Maria de Matos, de 56. E arrasou o rio Paraopeba sobre o qual se debruça sua casa, no bairro de Pires. Quase seis meses depois, o jardim da casa, cuidado por Duane e outrora repleto de roseiras, morreu. Cinzas do último churrasco da família ainda estão num canto. A mãe deixou a casa há 40 dias.

Ela se recusa a fazer acordos. Quer punição para os culpados pelo desastre. Duane era manobreiro do trem de minério, um dos primeiros atingidos pela tsunami. Foi encontrado no dia seguinte ao desastre e sepultado logo depois em caixão fechado. De Eva, cozinheira do restaurante da mina, acharam o tronco nove dias depois. Este mês a família foi chamada para pegar o terço e a aliança:

- Minha irmã veio num saco, da cintura para cima. Será que as pessoas e a Justiça perceberam a gravidade do crime de quem deixou essa barragem romper? Tem gente feliz em Brumadinho com a mesada da Vale. Tem gente que quer esquecer porque não perdeu nada. Eu que perdi tudo quero lutar por justiça até o fim da minha vida.

LIGAÇÕES PROFUNDAS

A poucos dias de a tragédia completar seis meses, nenhum resto mortal de Aroldo Ferreira de Oliveira havia sido encontrado. Ele faria 55 anos no próximo dia 27 e trabalhava na Vale há 33 anos. Coordenava uma equipe que cuidava da parte elétrica da mina de Córrego do Feijão e acredita-se que estava em seu escritório, num galpão de operações da mina destroçado pela tsunami nos primeiros instantes após o rompimento. - Não me preocupo muito com o corpo. Para mim, o espírito não está mais lá. Mas minha mãe de 76 anos quer sepultar o filho. Nós nos preocupamos com justiça. Ele poderia estar vivo se houvesse uma sirene - diz Neide Ferreira de Oliveira, professora do ensino médio em Brumadinho, que perdeu vários de seus ex-alunos no desastre. A família de Aroldo tem ligação profunda com a mineração. Dois de seus sete irmãos trabalhavam na Vale. Seu filho, de 29 anos, também. Ele estava na mina de Jangada e viu quando a lama arrasou tudo e cobriu a área onde estava seu pai. Em licença médica desde então, não quer voltar a trabalhar no mesmo lugar onde seu pai e muitos de seus amigos morreram. Segundo a tia, porém, a Vale quer que ele volte para lá ou se aposente pelo INSS.

A Vale informa que tem dado assistência às famílias e que assinou um acordo de indenização para as famílias com o Ministério Público.

PRISIONEIROS DA LAMA INVISÍVEL
MORADORES DE 12 CIDADES MINEIRAS VIVEM SOB O RISCO DE ROMPIMENTO DE 22 BARRAGENS

O Globo 21 Jul 2019

Produtos tóxicos. Barragem de ouro que cerca Raposos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte: a cidade se desenvolveu da mineração e seus 15 mil habitantes estão cercados por 14 barragens de rejeito, algumas com cianeto e arsênico
Após o desastre de Brumadinho, uma lama invisível cobriu comunidades ameaçadas por reservatórios de rejeito de mineração. Desde então, 22 barragens em 12 cidades mineiras entraram em emergência. Quatro estão no nível 3, o máximo, de risco de rompimento iminente, todas da Vale. São lugares como o outrora turístico distrito de São Sebastião de Águas Claras (Macacos), em Nova Lima, ou a cidade de Raposos, ambos na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A vida ali entrou em suspensão pela indefinição sobre o destino das barragens.

- Viramos prisioneiros da falta de informação, em tensão permanente. Quase todos aqui dependem do turismo e ele só voltará com a segurança - afirma José Paulo Ribeiro, vice-presidente da Associação de Moradores de Macacos.

A 25 km de Belo Horizonte, Macacos está cercado por sete barragens. A maior preocupação é com B3/B4, da Vale. Desde março ela está em emergência máxima. E Macacos está na zona de autossalvamento, situada a até 30 minutos da chegada da onda ou 10 km de distância. Na prática, é a zona onde as pessoas só contam com si mesmas para se salvar. Mais de 300 moradores foram tirados de casa (cerca da metade da população) e hoje moram em imóveis alugados pela mineradora. Mas o distrito todo mudou. Recebe 10% dos turistas que vinham antes de fevereiro. As ruas estão vazias e repletas de placas com rotas de fuga. A psicóloga Andreia Silveira mora no centro de Macacos, onde o tempo para fugir da onda de rejeito é de dez minutos. Ela define o sentimento local: -Vivemos sob uma lama invisível.

ABASTECIMENTO DE ÁGUA

A Vale informa que trabalha para aumentar o nível de segurança, baixar o nível do lençol freático e faz obras de contenção, que devem ser concluídas em dezembro. A barragem será descomissionada, mas o prazo não foi informado. Em Raposos, as rotas de fuga estão por toda parte. A cidade se desenvolveu da mineração e seus 15 mil habitantes estão cercados por 14 barragens de rejeito, algumas com cianeto e arsênico, destaca o líder comunitário e engenheiro Glauco Gonçalves Dias. Tantas são as rotas de fuga pintadas de vermelho nos meios-fios e indicadas em placas por toda parte que fica difícil, se não impossível, saber para qual caminho seguir. Raposos também é atravessada pelo Rio das Velhas, que abastece de água 5 milhões de pessoas da Grande Belo Horizonte. É pelo rio que viriam as ondas de lama, frisa o químico Benedito Rocha, especialista em qualidade da água:

- Não somos apenas nós que estamos cercados. Mas a água de Belo Horizonte. Não há informação sobre nada, falta transparência. Além da barragem B3/B4, três outras, de rejeito de ouro (Calcinados, Rapaunha e Cocuruto), causam temor. Os reservatórios da AngloGold Ashanti integram a Política Nacional de Segurança de Barragens, que lista aquelas que oferecem risco de danos a pessoas e/ou meio ambiente. Porém, têm declaração de estabilidade e operam normalmente. Glauco Dias diz que há risco porque o beneficiamento do ouro usa produtos tóxicos, como cianeto: -Temos medo porque até o cálculo da zona de autossalvamento de Calcinados mudou sem que nos fosse explicado o motivo. E ter declaração de estabilidade não é garantia de segurança. Fundão, que rompeu em Mariana, e B1, em Brumadinho, também tinham. O vereador Evandro Zeferino (PRB) lembra que o município é o primeiro de Minas a ter uma lei que proíbe a construção de barragens de rejeito em seu território, aprovada em 2016. Mas ela não impede o risco que vem de fora, como o de B3/B4 e das barragens de ouro, que estão em outros municípios. O próprio Evandro mora numa casa sem rota de fuga segura.

A AngloGold informou que Raposos está dentro da zona de autossalvamento de Calcinados, porém, se apenas ela romper, o rejeito ficará retido na barragem de Cocuruto. Só no caso de rompimento das duas, o rejeito chegaria ao centro, a um bairro e ao Rio das Velhas. A mineradora diz ainda que todas as rotas de fuga são seguras e que tem organizado simulados.

O Globo, 21/07/2019, País, p. 11-13

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