VOLTAR

O governo Lula e as notícias da mídia sobre os povos indígenas

Porantim - http://www.cimi.org.br/pub/publicacoes/1214433978_Porantim%20306.pdf
Autor: Roberto Antonio Liegbott
01 de Jul de 2008

Nos últimos dias temos ouvido, lido e assistido a uma infinidade de notícias negativas sobre os povos indígenas e elas partem de uma mesma visão dos fatos, que são narrados a partir de edições elaboradas para sustentar posições e defender interesses de alguns setores da economia nacional e transnacional.

Estes setores econômicos têm ambição de explorar as terras e nelas "plantar" o agronegócio; têm interesse nas matas e florestas para exploração da madeira e da biodiversidade; como também em minérios estratégicos e matéria-prima utilizada na produção de ferro, aço, alumínio, nióbio. Com grande destaque, se pode ver projetados empreendimentos que ambicionam as águas dos rios da Amazônia para produzir energia hidráulica que dará suporte aos grandes empreendimentos.

As obras do PAC respondem diretamente a este conjunto de interesses, oferecendo condições para o monocultivo de soja, cana de açúcar, eucalipto e assegurando a lucratividade da iniciativa privada. Portanto, as obras de infra-estrutura previstas neste programa funcionam como garantias do governo ao grande capital e beneficiam quase que exclusivamente os investidores. É importante lembrar que as referidas obras são financiadas, em boa parte, com recursos públicos, sendo que as grandes empresas nacionais e internacionais desfrutam de benefícios como isenções fiscais, colocadas sob a forma de incentivos aos investimentos.

O governo federal vem promovendo uma intensa mobilização destes setores da economia (nacional e mundial) para que invistam na Amazônia. Na região os empreendimentos são projetados em áreas estratégicas, com fartura de matéria-prima, água, minérios, espécies vegetais e, para tanto, os espaços territoriais devem estar livres de pendências legais, jurídicas e dos índios, quilombolas e demais populações.

Os acontecimentos recentes envolvendo povos indígenas têm, portanto, uma relação direta com o modelo desenvolvimentista colocado em curso pelo governo Lula, que conta com a adesão quase absoluta da grande imprensa. O modo como são noticiados os fatos mostra que a imprensa tem servido como porta-voz de interesses econômicos e políticos, em especial aos que se articulam em torno das grandes obras. O objetivo parece ser o de colocar em descrédito todos aqueles que se manifestam contrários aos empreendimentos do governo federal e para tanto divulgam informações de maneira unilateral, criminalizando os movimentos de luta e resistência indígena.

Exemplo disso é a avalanche de notícias relativas a um fato ocorrido no dia 20 de maio em Altamira, Pará. Na ocasião, os Kayapó participavam de um evento que discutia os impactos da hidrelétrica de Belo Monte e um engenheiro da Eletronorte tomou a defesa do empreendimento. Com palavras provocadoras ele instigou os índios dizendo que não adiantariam os protestos, pois a hidrelétrica seria construída de qualquer maneira. Diante desta afirmação, os Kayapó se sentiram agredidos e reagiram, tentando amedrontar o engenheiro, que acabou sofrendo um corte no braço. Ao abordar o fato, os jornais utilizaram a expressão "selvageria" e os noticiários de televisão repetidas vezes falaram em barbárie.

Enquanto se noticia exaustivamente e de maneira nada isenta um mesmo acontecimento, pouco vem sendo revelado do que ocorre nas diversas regiões brasileiras. Os povos indígenas têm sido vítimas de crimes, agressões e violências de toda ordem, mas nada parece furar o cerco e ganhar os noticiários nacionais.

No dia cinco de maio, na terra indígena Raposa Serra do Sol, 10 índios foram feridos por ocasião de um ataque com bombas e tiros de espingarda, numa ação violenta promovida por pistoleiros encapuzados a mando do prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero. Apesar da forma covarde e violenta do ataque, a maioria dos meios de comunicação tratou o episódio como se tivesse havido um confronto entre indígenas e seguranças do prefeito invasor da terra indígena.

Ainda em maio, no Maranhão, dois homens encapuzados invadiram a aldeia Anajá, mataram uma menina de seis anos do povo Guajajara e deixaram seu irmão ferido. Duas semanas depois, o fato se repetiu. Dois motoqueiros, igualmente encapuzados, abordaram um casal Guajajara que caminhava à beira da MA-006 e dispararam tiros, ferindo-os gravemente. Nos dois casos, suspeita-se que os agressores estavam a serviço de madeireiros invasores da Nterra indígena. Nada foi feito pelas autoridades federais para apurar os fatos e as notícias não entraram no rol de divulgações televisivas e nem foram veiculadas em jornais de grande circulação. Por que será?

No estado do Mato Grosso do Sul, somente neste ano, foram assassinados 14 Guarani-Kaiowá. Em 2007, 92 indígenas
foram assassinados em todo o Brasil. Muitas das vítimas lutavam pelo direito à demarcação de suas terras.
Em todos estes casos o governo brasileiro age com negligência e, ao invés de defender aqueles que de fato possuem direitos sobre as terras, coloca-se a serviço de interesses do grande capital.

Mas nada disso parece interessar à grande imprensa. Esta, sócia e aliada do grande capital, usa seu poder de informação
para fazer chegar ao cidadão comum, a idéia de que os índios são "selvagens", de que possuem muita terra,
de que são privilegiados, vândalos, bárbaros, antipatriotas.

Como em outros tempos, especialmente na ditadura militar, assistimos a uma verdadeira "caça às bruxas". Os povos indígenas, mais uma vez, figuram como obstáculos, como símbolos do atraso, unicamente porque não abandonam a luta por suas terras, seus valores culturais, e não se deixam levar pelo lucro rápido e fácil, tal como o atual presidente e seus aliados.

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.