OESP, Aliás, p. J7
Autor: ROMANELLI, Thiago; SMERALDI, Roberto
31 de Ago de 2008
O governo deve liberar canaviais no Pantanal?
Divergências sobre o plantio de cana
Para aumentar a produção de álcool do País, o governo tem planos de ampliar a lavoura de cana-de-açúcar em áreas mais elevadas da Bacia do Alto Paraguai, na região do Pantanal mato-grossense. Enquanto o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, confirma o projeto do governo de liberar a produção, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, afirma que não vai permitir o plantio de novos pés de cana nem em locais já degradados do planalto pantaneiro.
Resultado da enquete:
Sim> 8%
Não> 92%
O que pensam os especialistas
Existem áreas nas quais não haveria maiores prejuízos ao bioma'
Thiago Romanelli
Prof. Do Depto. de Engenharia Rural da ESALQ-USP
A disputa que os Ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura vêm travando demonstra a falta de embasamento que norteia algumas tomadas de decisão, principalmente quando se trata de assuntos importantes como fontes de energia e preservação ambiental. Certamente existem áreas onde não ocorreriam maiores prejuízos ao bioma pantaneiro, porém, como diria Paracelso, "a diferença entre o remédio e o veneno é a dose". Cientistas e pesquisadores especialistas em Pantanal e cana-de-açúcar devem ser consultados para que os limites biofísicos sejam estabelecidos e, a partir deles, se verifique a viabilidade do plantio. Caso não haja informação suficiente sobre esse bioma, podemos nos embasar em casos de outras áreas pantanosas, como os Everglades, na Flórida, que estão passando por uma fase de recuperação de suas funções naturais. No tocante aos biocombustíveis, o aspecto econômico tem sido o foco principal, e aspectos sociais, ambientais, políticos, estratégicos e físicos das fontes de energia, na maioria das vezes, são negligenciados.
'O Pantanal é muito vulnerável ao desmatamento de suas nascentes'
Roberto Smeraldi
Jornalista e Diretor da Organização Amigos da Terra
É paradoxal que em 2008 se discuta ainda o que já constava de lei estadual em 1982, durante a ditadura, e que em 1985 virara norma federal: não se instalam usinas no Pantanal e, mais importante, o Pantanal é "a área da bacia hidrográfica do Rio Paraguai e de seus afluentes". Aliás, a norma previa restrições fortes a quaisquer outras atividades agrícolas. Os militares não trabalhavam com nossa Constituição de 1988, mas já sabiam que o Pantanal é a maior área úmida contínua do planeta, muito vulnerável ao desmatamento de suas nascentes e ao impacto de agrotóxicos ou do vinhoto da cana. Hoje sabemos que esta ecorregião é fundamental na recarga do aqüífero Guarani e que seu potencial de ecoturismo é um trunfo especial do Brasil. A proposta de instalar usinas no Planalto Pantaneiro reflete ignorância - pois é evidente que a planície alagada é mera consequência de suas nascentes - e irresponsabilidade, porque iria prejudicar a imagem do etanol brasileiro no mundo, justamente agora que se adotam os princípios e critérios globais para sua sustentabilidade.
OESP, 31/08/2008, Aliás, p. J7
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