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O gás e o novo momento político

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: FERNANDES, R
14 de out de 2006

O gás e o novo momento político

R Fernandes

No estágio final de uma campanha para cargos eletivos, cabe perguntar quais as perspectivas do GNV (Gás Natural Veicular) no novo contexto que resultará desse processo.

Especialmente por se tratar de um insumo energético relativamente novo no país, ainda com pouca tradição, comparativamente a energéticos convencionais.

O uso de gás natural no Brasil começou a se disseminar praticamente na década de 80, em função de grandes descobertas de gás associado quando se estavam buscando reservas de petróleo. O país estava também em negociações com a Bolívia para a assinatura de um acordo com o propósito de produzir e transportar gás natural para nosso país, muito mais com a intenção de praticar uma política de boa vizinhança do que de atender a uma demanda interna, até então mal conhecida. Somente na segunda metade da década passada foi iniciado o emprego de gás natural em veículos automotores leves, em larga escala. Essa aplicação foi acelerada a partir de 2001-2002, dada a ampla oferta de gás, resultante da plena operação do gasoduto Brasil-Bolívia e da entrada substancial de produto proveniente da Bacia de Campos. Ainda nesse período foram feitos significantes investimentos nas redes de transporte e distribuição do gás, na maioria dos estados brasileiros.

Agora, vivemos um momento diferente. Temos uma oferta apertada de gás no Nordeste e uma questão política levantada pela Bolívia, obrigando o Brasil a rever seus planos de expansão da oferta no Sul e no Sudeste. Por outro lado, o cenário mundial de oferta de petróleo vem também se modificando, e isso pode afetar a oferta e os preços do gás natural. Essas condições são resultantes de menores investimentos em novas reservas, fenômenos da natureza (como os furacões do ano passado, no Golfo do México) e aumento da demanda da China e dos Estados Unidos. Isso fez com que os preços do barril de petróleo chegassem a mais de US$ 70, passando depois a cair em conseqüência do menor crescimento esperado para o próximo ano da economia americana e de novas reservas encontradas naquele país. Isso não quer dizer que a tendência continuará indefinidamente. Tudo depende dos cenários daqui para a frente.

O Brasil tem hoje uma frota de veículos a GNV de mais de 1,2 milhão, perto de 1.300 postos de abastecimento em 16 estados, mais de 800 oficinas de conversão, investimentos feitos no setor de perto de R$ 10 bilhões, empregando mais de 20 mil pessoas, e um consumo de gás com 65% procedentes de reservas nacionais. A média mensal de conversão de veículos em 2006 é de 21 mil veículos, o que denota procuraa consistente por essa opção energética, sendo esse número maior mesmo do que a produção de algumas das montadoras de veículos leves no país.

O momento é oportuno para se rever questões que ainda dependem de encaminhamento, especialmente no setor de gás natural. A inexistência de uma clara política energética para o país faz com que inúmeros agentes do setor de gás natural se sintam inseguros quanto a questões de investimentos, abastecimento e preços do combustível. O que esperamos do novo governo, seja ele qual for, é uma ampla discussão sobre pontos fundamentais de uma política para o setor, que encaminhe soluções para os impasses de licenciamento ambiental na produção de energia, para o papel das termelétricas a gás ou sem gás e da energia nuclear, uma melhor política tributária para o setor, em especial para o gás natural, tendo em vista sua contribuição para a segurança energética e melhorias ambientais. O recente lançamento do Livro Branco do GNV, feito pelo setor, é um instrumento orientador nessa direção.

Uma política energética, no sentido amplo, deve estar voltada para a segurança da oferta de energia, para o abastecimento do gás natural ao menor custo, assim como de outras formas de energia. Deve conter os critérios que o país seguirá para estabelecer o preço do gás relativamente aos demais combustíveis, do gás natural liquefeito a ser importado e a política de integração regional com os demais países da América do Sul.

O setor tem sofrido muitos sobressaltos, com ações resultantes de posturas imediatistas e sem critério, tomadas por falta de claras definições de política que cabem ao governo. E está chegando o momento de cobrarmos isso dos novos parlamentares e governantes.

R. Fernandes é vice-presidente da Associação Latino-Americana de GNV e coordenador do Comitê de GNV do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás.

O Globo, 14/10/2006, Opinião, p. 7

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