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O Fome Zero que da resultados

CB, Politica, p.8
17 de Fev de 2004

EXCLUÍDOS
O Fome Zero que dá resultados
Ajuda de organizações não-governamentais, estados e municípios faze o principal programa social do governo avançar, como o projeto de beneficiamento da borracha, que favorece 400 famílias na região Norte

O Ministério do Desenvolvimento Social não passou impune pelos cortes no Orçamento anunciados na semana passada. Também esta pasta, carente de recursos para a pretensão de resolver o problema da fome até 2007, sofreu um corte de R$ 80,9 milhões na última semana, o que corresponde a 24,8% da verba inicial. Dinheiro que representa dez vezes o valor de R$ 7.293.722 arrecadado durante todo o ano de 2003 pelo Ministério da Segurança Alimentar e Combate à Fome em doações.

Com o aperto, a estratégia do ministério será investir ainda mais na busca de parcerias com estados, municípios, empresas e organizações não-governamentais. E são esses setores que mais demonstram disposição na luta contra a miséria.

Na semana passada, 130 expositores participaram da Expo Fome Zero em São Paulo para mostrar o trabalho desenvolvido em parceria com o governo. Um levantamento feito pelo recém-criado Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome mostrou que a maior parte dos expositores desenvolve ações estruturantes, aquelas que buscam resultado a médio e longo prazo, como a geração de emprego e renda, e não só o imediatismo da distribuição de alimentos. Na maior parte das vezes, os projetos estruturantes têm duas características em comum. Se valem de criatividade para tornarem-se eficientes e baratos.

É o caso de um programa de beneficiamento da borracha desenvolvido pela Universidade de Brasília (UnB) em parceria com a Fundação Banco do Brasil e o Ibama. A partir de um kit no valor de R$ 2,5 mil por seringueiro, 400 famílias do Acre, Amazonas, Pará e Rondônia aumentaram a renda mensal de cerca de um salário mínimo em 150%. O processo consiste em eliminar uma etapa na produção da borracha: o repasse do látex para as usinas de beneficiamento, que ficavam com a maior parte do lucro do pequeno produtor.

Sem instrução adequada, os seringueiros demoravam muito tempo entre o sangramento da madeira para extração do látex até o recolhimento do material, que endurecia com impurezas como insetos e casca de árvores. Sem condições de limpar a matéria-prima, não tinham saída a não ser vender a borracha em estado bruto para as usinas de beneficiamento.

A partir do programa, foram montadas cooperativas equipadas com bandejas, calandras (cilindros para afinar a borracha), varais, baldes e telhas. Para facilitar a higienização do látex, os seringueiros foram instruídos a recolher o material em sua forma líquida no mesmo dia em que cortam a madeira. O que fizemos foi adequar a rotina de trabalho desses seringueiros a uma técnica barata e bem mais lucrativa do que a que conheciam, explica Ione Nunes Rego, engenheira florestal do programa.

Oficinas
O Distrito Federal também foi representado na Expo Fome Zero por outro projeto que fez sucesso em São Paulo. O Instituto Empregar, uma organização da sociedade civil de interesse público (Ocipe) expôs caricaturas, cartões de Natal, telas pintadas a óleo e máscaras carnavalescas que são comercializados pela instituição e produzidos na comunidade do Riacho Fundo 1.

Em um galpão de dois andares cedido pela Associação dos Amigos da Saúde Mental, a aposentada Vera Barros, recebe 60 alunos. De segunda a sexta-feira, eles participam de oficinas de pátina, pintura de parede, artesanato e caricatura. Cada um recebe orientação para a atividade que mais se identifica. Além das oficinas, eles têm aulas de alfabetização de adultos. Não aprendem só a juntar as letras. Há aulas de Geografia, Ciências Sociais, Literatura e Saúde.

No ano passado, muitos alunos acostumados com a caridade experimentaram o prazer de conquistar renda por meio do próprio trabalho. Produziram cartões natalinos vendidos a R$ 1. Foram mais de 300 encomendados, o que rendeu a cada um dos artesãos uma média de R$ 60. A minha parte foi de R$ 66,80, comemorou Raimundo Nonato Rocha Monteiro, 50 anos.

Nascido em Campo Maior, no Piauí, Raimundo Nonato chegou em Brasília com esperança de ganhar mais do que o cultivo da roça de arroz, milho e feijão na sua terra natal. Durante um tempo, trabalhou como pedreiro em obras do Riacho Fundo, mas a idade e o vício da bebida afastaram o piauiense da construção de casas e o aproximaram dos favores de pessoas solidárias. Depois que comecei a pintar quadros, eu nasci de novo, disse, emocionado. As aulas de alfabetização, casadas com a arte, não só representaram um dinheiro extra para Odalícia de Oliveira Neves, como um orgulho que considera o maior que já teve em sua vida. No ano passado, a senhora de 75 anos se inscreveu no concurso de talentos do Banco Real para a terceira idade com um poema e um mosaico todo feito de casca de ovo.

Foi premiada com a menção honrosa e festejada entre os amigos do instituto e o marido, Jerônimo Apolinário Neves, que também participa das aulas de alfabetização e das oficinas do Instituto Empregar. A presidente do Instituto Empregar, Vera Barros, remete a iniciativa do projeto a uma vocação de vida. Mas diz que o fato de sentir que há uma rede na mesma direção que a dela é um estímulo para continuar no caminho da solidariedade. A gente teve noção dos braços do Fome Zero, disse, referindo-se aos outros expositores da feira em São Paulo. Vera fez muitos contados com outros empresários dispostos a ajudar no projeto e ampliá-lo para outras cidades do DF. Me senti abraçada e estou doida para abraçar.

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O número
Doações
R$ 7.492.285 é o valor em dinheiro arrecadado pelo Fome Zero desde o lançamento do programa, no ano
passado, até janeiro de 2004

50% das doações recebidas pelo Fome Zero em 2003 foram para as ações estruturantes, que buscam resultado a médio e longo prazo, como a geração de emprego e renda

30% das contribuições para o programa foram em
alimentos e dinheiro

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Bons exemplos

Leite que alimenta e emprega
Na Paraíba, a produção de leite é a base de um projeto de geração de renda para 1,5 mil pequenos produtores de 233 municípios. A Secretaria de Agricultura cadastrou as famílias que produzem entre cinco e cem litros de leite por dia e fez um convênio com as usinas de beneficiamento. Essas usinas ficam obrigadas a comprar o alimento dos pequenos produtores. Depois de processado, o leite é vendido à própria secretaria, que doa o alimento às famílias pobres com crianças de até 6 anos. Do preço de R$ 1,15 cobrado por litro de leite, R$ 0,70 vai para o bolso do produtor e o restante para a usina. Antes da interferência do estado, a conta era inversa. O programa custa R$ 16 milhões, conta dividida entre os governos estadual e federal. A organização dos produtores de leite aumentou a quantidade do alimento beneficiado e as pretensões do governo da Paraíba, que estuda a possibilidade de exportar o excedente para estados vizinhos.

Castanha de caju sem intermediários
Em oito estados do Nordeste, 4,5 mil famílias de catadores de caju foram beneficiadas com 60 pequenas fábricas para produção de castanha. De extrativistas, as famílias passaram a deixar o produto pronto para o consumo. A tecnologia das minifábricas foi desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a construção dos galpões equipados com o maquinário foi financiada pelo Banco do Brasil, um total de R$ 4,5 milhões. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) se encarregou de capacitar os produtores e a Universidade Federal do Ceará organizou as cooperativas de trabalho. O resultado da parceria é o aumento de 50% ao valor do quilo do caju, antes vendido a R$ 1 para a indústria mecanizada, que fazia o beneficiamento. As famílias ganham uma média de
R$ 540 por mês. Antes do programa, não passava de um salário mínimo.

Lixo de valor
É de restos de produtos orgânicos que surge a renda de três salários mínimos para 500 famílias moradoras de Entreiros e Mata de São João, municípios da Costa de Sauípe, na Bahia. Pescadores, marisqueiros e desempregados participam do Programa Berimbau, desenvolvido pelo resort da Costa do Sauípe e inspirado na filosofia do Fome Zero de matar a fome ensinando a pescar. As nove toneladas de lixo orgânico geradas por dia e antes aterradas viram adubo na usina de reciclagem, que usa tecnologia desenvolvida pela Universidade Federal de Uberaba. O adubo orgânico é vendido para pequenos produtores agrícolas que se dedicam a atender a demanda por verduras, legumes e frutas servidos nas refeições do complexo hoteleiro da Costa do Sauípe. A conta do projeto de R$ 2,5 milhões é dividida entre o resort e o Banco do Brasil. A segunda etapa do Programa Berimbau será a construção de minifábricas de sabonetes e xampus usados nos hotéis. A iniciativa deve empregar mais 500 famílias.

CB, 17/02/2004, p.8

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