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O fogo exige respeito

OESP, Vida, p. A21
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
01 de Set de 2005

O fogo exige respeito

Marcos Sá Corrêa

O fogo acaba de mostrar que com ele aqui não se brinca. A engenheira agrônoma Maria Tereza Pádua publicou outro dia na internet uma crítica à inocência das campanhas contra incêndios florestais, que nesta temporada de chuva rala florescem na televisão como as labaredas no campo. Elas se consideram educativas. Mas, para não mexer em suscetibilidades, fazem de conta que o problema é obra de gente distraída, que larga ponta de cigarro e caco de vidro nos matos e pastos ressecados.
Nada menos educativo do que essa cortesia, lembrava Maria Tereza. Pela malversação de gentileza, esconde-se o que todo brasileiro sabe desde que esta terra se chamava Pindorama.
Como as pesquisas já provaram, se dependesse só dos incêndios acidentais o Brasil perderia o sexto lugar que conquistou na copa mundial da poluição atmosférica graças à fumaça das queimadas. E esse é o tipo do fogo que se acende de propósito na fronteira agrícola. Confundi-lo com discrição é levar à campanha na TV a velha fórmula da conciliação que vem devastando a política nacional.
"Em vez de denunciar os culpados, cria-se a falsa idéia de que todos são responsáveis, de modo difuso, pelo dano à natureza", ela concluía.
Dito e feito. Na manhã seguinte, a repercussão do artigo chegou pela voz do caseiro, ligando de Pirenópolis para dizer que estava em chamas o sítio onde, para espanto dos vizinhos, ela cultiva árvores nativas e água limpa. Era coincidência demais, num país onde o fogo quase sempre sabe com quem está falando. No caso, ele estava pulando a cerca de quem implantou mais de 8 milhões de hectares de parques em áreas públicas e há mais de uma década fazia, com o marido Marc Douroujeanni, a reconstituição de matas ciliares e da paisagem do cerrado goiano em seus 40 hectares de terras particulares.
Se não era fortuito, o incêndio só podia ser um aviso. Mas bateu em porta errada. Maria Tereza, quando trabalhava na demarcação do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense, às turras com fazendeiros e contrabandistas, teve a casa invadida em Brasília por jagunços, que lhe puseram no quarto a fralda de seu filho, manchada de sangue. E ela foi em frente, com ameaça e tudo. Quem está andando para trás, nessa matéria, é o País.
Lá se vão 91 anos que um leitor de Taubaté mandou para O Estado de S. Paulo um destampatório contra os piromaníacos que arrasavam o interior, enquanto os brasileiros se preocupavam com o avanço do exército alemão sobre a Europa. Naquele agosto "de guerra e seca", o texto saiu sob o título "A velha praga". Era assinado por um fazendeiro de 30 anos, "ameaçado de ver suas terras calcinadas, isto é, reduzidas à situação da Bélgica invadida, pela maldade de um inimigo anônimo".
Tratava "do fogo posto", continha uma descrição da queimada que merece figurar em qualquer antologia da literatura brasileira e espalhava denúncia por toda parte, a começar pela indiferença dos leitores: "Venha, pois, uma voz do sertão dizer às gentes da cidade que se lá fora o fogo da guerra lavra implacável, fogo não menos destruidor devasta nossas matas, com furor não menos germânico." Nasceu ali, ainda sem nome, o Zeca Tatu, na figura do caboclo miserável que abria roçados a golpes de fósforo. Era tratado como "piolho da terra". E o que aconteceu com o fazendeiro? Foi contratado pelo jornal como colunista.
Chamava-se Monteiro Lobato.

Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 01/09/2005, Vida, p. A21

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