VOLTAR

O fogo!

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: TORQUATO, Gaudêncio
16 de out de 2005

O fogo!

Gaudêncio Torquato

O incêndio comia, rápido, a vegetação das dunas na Praia do Calhau, em São Luís do Maranhão, na ensolarada manhã de sábado, dia 8 passado, sob os olhares curiosos de pessoas encarapitadas no cume domorro e de freqüentadores dos bares da orla.Umúnico bombeiro procurava tirar água de um velho caminhão-tanque, usando uma mangueira curta e esgarçada. O esforço parecia em vão. Diante do fogaréu, uns 20 garis vestidos de amarelo queimado, com máquinas elétricas e barulhentas, cortavam escassos fiapos de capim do canteiro central entre as duas faixas da bela avenida litorânea, cumprindo a tarefa de "embelezar as ruas da praia". A cena se completava com a azáfama de 50 trabalhadores empenhados em concluir gigantesca arquibancada para o acolhimento dos foliões do Marafolia, o carnaval fora de época, que se encerra hoje.
Com todo o respeito aos maranhenses, esse flagrante, pinçado por acaso, retrata fielmente a administração pública no Brasil, país que, no dizer do geógrafo Milton Santos, transforma as cidades em coisas grandes e pequenas - obras monumentais para os privilegiados e modestos mimos para os pobres. A incompetência na gestão provém de uma inversão de valores, pela qual o secundário toma o lugar do principal. Fogo devastando o meio ambiente é coisa menor. Coisa maior é a belezura das praças, a cosmética urbana transvestida em moda para a gastronomia dos olhos e louvação de administradores. Coisa maior é o sucesso da política econômica, aí inseridos o superávit primário e a mais alta taxa de juros do mundo. Coisas menores são a violência, o desemprego em massa, as estradas esburacadas, a falta de remédios nos hospitais ou doenças que ameaçam um rebanho bovino de 200 milhões de cabeças.
Aliás, o que explica o fato de vermos ameaçado, de uma hora para outra, um negócio de exportação de carne da ordem de US$ 4 bilhões, se não o desleixo do governo, que liberou apenas 1,57% dos recursos estabelecidos para o combate preventivo da febre aftosa? O foco recente da doença em Mato Grosso do Sul, que sustou as exportações para mais de 30 países, parece ser coisa menor para um governo tão aplicado em esconder lixo sob o tapete. Coisa maior para Lula deve ser mesmo pegar seu luxuoso avião, fumar um charuto cubano, tomar um vinho português ou uma vodca russa, hospedarse no Kremlin, ditar regras para acabar com a fome no mundo e recitar números favoráveis da economia, sem atentar para o fato de que seus assustados interlocutores ficarão tontos com a falta de nexo entre o boom econômico brasileiro (?) e o muuuh! de bois doentes nos pastos do Centro-Oeste. O que pensou Palocci, o ministro do dinheiro, quando viu a cena de bovinos espumando nos currais? Sorriu amarelo ou tomou um drinque? O fogo da cegueira também queima reservas.
Voltando, porém, ao incêndio que abriu este texto, os dados apontam para a inexorável realidade: o Brasil é um dos maiores campos de fumaça do planeta. Dos 5 milhões de km² de matas virgens que o País possuía por ocasião do Descobrimento, há hoje menos de 3 milhões. Pior, o mar vira deserto. Não dá para acreditar. Como é possível faltar água potável na região amazônica, que guarda um quinto da água doce do planeta? Pois falta água potável nas cidades do Amazonas assoladas pela seca. A administração pública é incapaz de montar um sistema de abastecimento de água a partir dos rios que ali correm. A manchete da semana expressa a confluência dos contrários: falta água de beber na Amazônia. Mas fogo há, e abundante. Na Amazônia Legal, berçário de vida de 5,1 milhões de km², que ocupa 60% do território brasileiro, o fogo devasta a paisagem. Torrou, nas últimas três décadas, 14% da floresta, o equivalente ao território da França. Os satélites acusam: entre 2003 e 2004, foram desmatados 26 mil km², a maior taxa de destruição do mundo depois da China. No ano passado, 236 mil focos de queima ilustraram o mapa mundial com um gigantesco mosaico de grandes e pequenas fogueiras, pelo qual o País se credencia a ganhar o troféu Thomas Hobbes, um lobo de madeira, com o epíteto: "O homem é o lobo do homem."
Ao processo de combustão que devasta as riquezas da Nação se adiciona o fogo não muito brando das vaidades. Perfis de bronze em praças públicas, tinta branca em meios-fios, plantação de rosas ganham volumosos recursos dos governos dos 5.560 municípios brasileiros. A equação está posta no exemplo: 20 garis passando póde- arroz na avenida e um único bombeiro apagando o fogo. Não há demérito na decisão de embelezar as cidades. As perspectivas animadoras para o turismo nacional comportam soluções estético-urbanísticas. O erro é não dar a mesma ênfase a programas menos visíveis, como saneamento básico. Mais de 55% da população brasileira não tem água encanada nem saneamento básico. Ocompromisso social se submete ao compromisso pessoal. A filosofia do homempúblico é: primeiro, eu; segundo, eu; terceiro, eu. As administrações floreadas (jardins e praças) capturam mais votos que as administrações soterradas. E, assim, o conceito de "bonitinho, mas ordinário" vai ganhando espaço.
A administração fosforescente se completa com mais dois tipos de fogo. Um deles torra recursos no assistencialismo demagógico. Milhões de brasileiros carecem de pão, casa, remédios, bolsas. Até aí, tudo bem. Mas esses programas, por ausência de ações estruturantes, perpetuam a miséria e o domínio da velha política. É assim que os governantes conservam o poder. Exemplo é o Bolsa-Família do governo Lula. Nos próximos dias, a TV vai trombetear a expansão do programa para cerca de 12 milhões de famílias. Trata-se de moeda de troca para o voto. O último tipo de fogo é a combustão da energia popular. É o fogo das festas. O circo aparece como sobremesa do pão. Carnavais fora de época, descontração, clima de catarse e ar de orgia. Marafolia! Brasilfolia! É o fogo em ação.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USPe consultor político. E-mail: gautor@gtmarketing.com.br

OESP, 16/10/2005, Espaço Aberto, p. A2

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.