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O fim das neves eternas

O Globo, Ciência, p. 35
08 de Dez de 2011

O fim das neves eternas
Aquecimento global já é real nos Alpes: região perdeu 25% das geleiras em 40 anos

Uma das paisagens mais belas e famosas do mundo está em mutação. Os Alpes franceses perdem a neve que um dia se pensou eterna em ritmo mais acelerado do que o calculado por cientistas. Enquanto um acordo global para combater as mudanças climáticas agonizava em Durban, África do Sul, ontem, geofísicos franceses apresentavam o mais detalhado quadro da doença dos Alpes em São Francisco, EUA, durante a reunião da União Americana de Geofísica (AGU, na sigla em inglês), o maior encontro de ciências da terra do mundo.
As geleiras dos Alpes franceses perderam nada menos que um quarto de sua área nos últimos 40 anos. Não se trata de mudanças que podem, ou não, acontecer. Já é fato concreto e bem visível. A perda de gelo já afeta o turismo. As estações de esqui da região estão fechadas, uma vez que não há gelo suficiente para a prática do esporte.
No fim dos anos 60 e no início dos 70, as geleiras e campos de gelo que cobriam as encostas do Mont Blanc (a montanha mais elevada da Europa Ocidental, com 4.850 metros) e montes vizinhos se espalhavam por uma área de 375 quilômetros quadrados. No fim dos anos 2000, essa área havia caído para 275 km2.
O grupo de Marie Gardent, da Universidade da Savoia, na França, estava triste quando apresentou o trabalho. Sua terra natal perde a marca registrada, os picos nevados que todos os anos atraem multidões de turistas, esquiadores e alpinistas e movimentam a economia de muitas cidades.
Gardent e seus colegas analisaram dados de 600 geleiras. Além do Mont Blanc, foram estudados os maciços de Ecrins, Vanoise, Ubaye, Belledonne e Grand Rousse Arves. Os pesquisadores combinaram uma série de tecnologias para medir a retração do gelo. Usaram mapas antigos, imagens de satélites e fotos aéreas. Calibraram manualmente os dados das fotos com medições em campo.
- Fomos às geleiras e comparamos os dados de satélite com os coletados no local - explicou Gardent. - Com isso conseguimos evitar dados dúbios sobre a cobertura de gelo observada por satélites.
Os Alpes da França não perdem suas geleiras sozinhos. O mesmo fenômeno está em curso em Suíça, Áustria, Eslovênia, Alemanha e Itália.
O trabalho de Gardent é acompanhado de outros para continuar a monitorar a situação das geleiras. A redução das geleiras pode ter dramáticas consequências econômicas. O gelo das montanhas alimenta muitos rios franceses. Dependem das geleiras dos Alpes, rios como o Rhone. A água de degelo é essencial para a agricultura e a geração de energia hidroelétrica. Num primeiro momento, quando começa a retração, há até mais água. Com os anos, porém, a água se torna cada vez mais escassa, pois há menos gelo para derreter. A famosa vinicultura francesa pode ser seriamente afetada.
Outra indústria importante que sofre com a perda do gelo é o turismo. Nos últimos anos, várias estações de esqui tiveram seu funcionamento prejudicado e um estudo de seguradoras mostrou que algumas estão condenadas a fechar nos próximos anos.
O gelo é um dos grandes agentes do clima e a perda das geleiras tem impacto no clima local. A retração, porém, ocorre de forma desigual. As maiores perdas foram registradas no Maciço de Belledonne, onde as geleiras praticamente desapareceram. Outra área muito afetada é a do Maciço de Ecrins, onde a retração foi três vezes maior do que a observada no Maciço do Mont Blanc.
- Os Alpes do Sul sofrem bem mais do que os do Norte, como o Mont Blanc. Atribuímos isso ao fato de serem mais baixos - explicou Gardent. - O clima também é distinto. Neva mais no Norte e também há mais nuvens por lá.
Situação é similar na Patagônia
A situação é semelhante na América do Sul. Localizada no extremo sul do continente, a Patagônia abriga a terceira maior reserva de água doce do mundo (depois da Antártica e da Groenlândia), constituída de enormes extensões de gelo que, nos últimos tempos, retrocedem a uma velocidade cada vez maior.
O glaciologista Andrés Rivera, chefe do Laboratório de Glaciologia e Mudança Climática do Centro de Estudos Científicos, que estuda a região, revelou que a geleira Jorge Montt retrocedeu um quilômetro em apenas um ano. Desde 1850, quando foram feitos os primeiros registros, até 2011, o retrocesso foi de 19,5 quilômetros.
- A Patagônia sofre com as mudanças climáticas, mas num ritmo mais moderado que o observado no resto do mundo - afirmou Rivera. - Ainda assim, quase todas as geleiras apresentam perdas.

O Globo, 08/12/2011, Ciência, p. 35

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