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O exemplo de quem já mudou para rotinas mais sustentáveis

Terra da Gente n. 59, mar. 2009, p. 76-77
Autor: WHATELY, Marussia
31 de Mar de 2009

Consumo
O exemplo de quem já mudou para rotinas mais sustentáveis

Marussia Whately
Sempre De Olho nos Mananciais, ela defende mudanças de comportamento no consumo para redução do desperdício de água

A ligação de Marussia Whately com a água vem da infância: ela nasceu e foi criada às margens da represa Guarapiranga, na Capital paulista. O pai foi o fundador de uma das primeiras organizações não-governamentais (ONGs) voltadas para a preservação dos mananciais. Quando cursava Arquitetura e Urbanismo, Marussia começou a se envolver com os problemas da represa e então se especializou em Gestão de Bacias Hidrográficas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 1996 participou do primeiro diagnóstico não governamental sobre a situação da Guarapiranga, trabalho do Instituto Socioambiental (ISA), desenvolvido em parceria com várias organizações da Região Metropolitana de São Paulo. Daí em diante, cada vez com mais afinco, juntou o conhecimento sistematizado dos bancos escolares e a consciência ecológica para batalhar, em várias frentes, a favor do uso racional dos recursos hídricos. Desde 2007 coordena os trabalhos do ISA com os recursos hídricos, concentrados na campanha De Olho nos Mananciais (www.mananciais.org.br), com uma inovação tecnológica por enquanto exclusiva para os paulistanos: basta digitar o CEP e, graças a uma interface com o Google Maps, cada internauta fica sabendo de onde vem a água que chega até sua casa. Na entrevista à Terra da Gente, Marussia Whately fala sobre a situação dos mananciais, problemas no abastecimento e a importância de conscientizar as pessoas para mudanças de comportamento em relação ao uso da água.

A campanha De Olho nos Mananciais consegue conscientizar os consumidores?

As pessoas começam a ter um tipo de postura de querer saber de onde vem a água que bebem. Temos unia experiência muito boa com a campanha De Olho nos Mananciais que mostra o quanto as pessoas estão, sim, abertas para saber de onde vem a água e estão, sim, preocupadas em usá-la melhor Também estão aprendendo que não adianta só fechar a torneira para escovar os dentes enquanto se tem um índice de perdas como ainda acontece em São Paulo, beirando os 40%. Isso é equivalente a perder toda a água de 6 dos 8 mananciais paulistanos, antes mesmo de chegar à torneira. A rede toda é invisível, está debaixo da terra, daí lançarmos a campanha justamente com a pergunta: Você sabe de onde vem a água que você bebe?

Se não depende só do consumidor, como garantir o sucesso da campanha?

Temos um desafio muito grande. É muito difícil viabilizar, no terceiro setor, o trabalho com abastecimento de água, que é uni assunto de governo. Pior ainda se o assunto envolve São Paulo, a cidade mais rica do Brasil. Apesar do sucesso, por exemplo, a campanha De Olho nos Mananciais está prestes a ser fechada por falta de apoio financeiro para continuar, porque o parceiro de fora do Brasil fala assim: mas como, na cidade mais rica do país que tem mais água do mundo, eu vou me preocupar com a falta de água? A prioridade é outra. Para as empresas, esse é um assunto do governo. E o governo fala: quanto menos ONGs para me cobrar e mobilizar as pessoas, melhor Não é uma situação fácil de trabalhar, mas é um desafio fundamental, porque assim como cuidar da água é responsabilidade de todo o mundo, se não tiver água todas as atividades ficam inviáveis também.

É complicado falar em falta d'água num País com tantos rios e numa cidade com tantas enchentes, como São Paulo?

Sim. O primeiro complicador é essa noção de que a água é muito abundante. Não é verdade, principalmente na região metropolitana de São Paulo. A água no Brasil é mal distribuída, tem muita onde existe pouca gente e pouca onde existe muita gente. E São Paulo é o contraste maior aqui é uma cidade de pouca água que tem enchentes. Como eu convivo com essa informação? São duas coisas diferentes: o fato de ter enchentes não significa necessariamente que essa água vai ser usada. Durante uma enchente, entra um monte de água no sistema, de uma vez só, e não tem como armazenar, é preciso abrir as comportas dos reservatórios. Depois, como as represas são assoreadas, elas não têm capacidade de armazenar essa água. Além disso, a água da enchente não tem uso, não só pelo escoamento muito grande como também pela qualidade, muito baixa. Em épocas de chuvas, a estimativa é que 50% da poluição é proveniente dessas águas, uma poluição difusa do lixo arrastado junto com químicos, solventes, tintas, combustíveis, tudo desce com as enxurradas.
E existem ainda as ligações clandestinas, gente que liga sues esgotos na rede de águas pluviais e ali descarrega produtos químicos, farmacêuticos, veterinários, de laboratórios fotográficos, postos de gasolina...
É o que acontece, em muitos casos, nas áreas urbanas mais densas, porque o esgoto vem bem depois da população. Não é assim: primeiro se coloca a água, depois se coloca o esgoto, depois vem o crescimento da cidade. É o contrário, a cidade chega e então se quebra tudo para instalar a rede de água, depois chega a rede de esgotos e quebra as ruas de novo e o morador tem que abrir tudo outra vez para fazer a ligação, que não é necessariamente do mesmo lado da ligação de águas pluviais. Feito isso, o consumidor passa a pagar o dobro na conta de água. Então ele prefere não ligar, ele não tem nenhum estímulo, não recebe nenhuma informação sobre a importância de ligar o esgoto na rede. Não há conscientização.

Ou seja, a preocupação com os recursos hídricos vai além de fechar a torneira?

Primeiro, é preciso lembrar que o manancial está muito além da torneira: primeiro vem a represa, que deve ser abastecida por um rio que esteja saudável, dentro de uma bacia hidrográfica em condições adequadas de conservação. Em São Paulo, boa parte da população mora ao lado de mananciais sem rede de esgotos ou tem rede de esgotos com descarga na represa de abastecimento de água. Essa é a principal causa da poluição das represas que abastecem todo mundo. Por sua vez, muitas pessoas que moram na cidade não têm esgoto tratado ainda, e esse esgoto é despejado nos rios sem tratamento, depois bombeado para as represas novamente. Ainda há pouca informação. As pessoas não se preocupam em saber se o esgoto está ligado na água pluvial ou não, contanto que vá embora, o assunto está 'resolvido'.

Em resumo, além das ações individuais, a solução para o abastecimento de água depende do saneamento básico?

Saneamento talvez seja um dos serviços públicos mais importantes para os moradores de qualquer cidade, uma vez que está diretamente relacionado à qualidade de vida e à saúde pública. Boa parte das doenças, das internações, da mortalidade infantil está relacionada a doenças de regulação hídrica, à contaminação biológica ou química da água. Essas premissas são muito pouco trabalhadas, e isso resulta num quadro de saneamento muito longe de adequado, em todo o Brasil.

Como mudar este modelo de saneamento?

Um marco importante foi a aprovação da Lei Nacional de Saneamento, no ano passado, que determina a obrigatoriedade de o município cuidar do saneamento, de ter um plano municipal de saneamento, de vincular investimentos e ter metas de qualidade da água. De acordo com os contratos de concessão, o município tem que garantir o acesso da população carente, existe uma série de regras novas às quais todas as cidades, concessionárias e empresas de saneamento vão ter que se adequar.

Como uma pessoa comum pode se informar sobre essa legislação e pressionar para que de fato seja implementada?

Normalmente os problemas com a água são relacionados aos conflitos dos usos que se fazem dela e do conjunto de atores que têm a ver com aquilo. Então trabalhamos com o que nós chamamos de responsabilidade socioambiental compartilhada, onde cada um tem um papel. A companhia de saneamento tem um papel e o consumidor de água tem o seu papel, ele deve ter consciência de que cuidar da água é responsabilidade de todo mundo. Isso inclui desde o uso correto no dia-a-dia, sem desperdício, até tomar cuidado com vazamentos, tanto dentro como fora da própria casa. Se você está andando na rua e vê um vazamento de água, deve entrarem contato coma prefeitura ou com a companhia de água e saneamento para avisar, porque essas perdas são muito significativas. Outra forma de atenção muito grande é para com as Áreas de Preservação Permanente (AM). Essas áreas não têm esse nome por frescura de ambientalistas, mas porque elas prestam um serviço ambiental, elas têm importância para a dinâmica daquela bacia. Na produção de água, as APPs são fundamentais. As margens dos rios, das represas, o topo dos morros, as nascentes, tudo isso tem um porquê de ser protegido.

Como evitar, nas cidades menores, que a situação fique tão crítica como em São Paulo?

Nessas cidades, além de apoiar a participação de todos em comitês de bacias - bastante atuantes, diga-se de passagem - também é preciso pensarem soluções menores e até mais criativas. Já existem várias experiências de sistemas alternativos, comunitários, para saneamento, para tratamento de esgoto, separação do lixo, com aproveitamento desses resíduos para a geração de gás e iluminação de forma sustentável. É preciso começar o quanto antes para não chegar à situação critica das metrópoles.

Terra da Gente n. 59, mar. 2009, p. 76-77

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