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O estado geral da Terra

Veja Especial, Especial, p. 180-213
22 de dez de 2004

O estado geral da Terra

André Fontenelle e Leonardo Coutinho
Uma jóia única no universo

A Terra é o terceiro planeta do sistema solar. Se fosse o primeiro ou o segundo, seria quente demais e toda água se evaporaria. Se fosse o quarto, o quinto, o sexto... ou o nono, sua superfície seria tão gelada que não haveria água em forma líquida.
O tamanho e a massa da Terra também foram calibrados pela natureza para sustentar a vida. Um pouco menos de massa e não haveria força gravitacional para manter uma atmosfera. Um pouco mais de massa e o núcleo provocaria oscilações gravitacionais capazes de transformar o clima em um inferno.
O mais espantoso: se a súbita expansão que se seguiu ao Big Bang na criação do universo tivesse se atrasado em uma fração de trilionésimo de segundo, as galáxias e os planetas teriam sido atraídos para o núcleo cósmico e destruídos. Se a expansão tivesse se adiantado a mesma fração de tempo, o universo teria se evaporado na forma de uma nuvem de partículas geladas.

Especial
Sinais de mudança
A questão não é mais se haverá aquecimento global: o processo já está em andamento e o que se vê agora são apenas seus primeiros efeitos
A Terra passa regularmente por períodos frios, as eras glaciais, e amenos, chamados de interglaciais. São mudanças climáticas severas que redesenham a paisagem global. Até agora, essas transformações se processavam no ritmo natural: de tão lentas, eram imperceptíveis no espaço de uma geração. Os sinais recentes do aquecimento do planeta, porém, acumulam-se em uma velocidade considerada inédita pelos cientistas. O ciclone Catarina, que se formou neste ano no litoral sul do Brasil, foi considerado por um grupo de cientistas ingleses como sinal antecipado da mudança do clima. Pelas contas dos especialistas, tormentas assim serão normais nessa região do Atlântico daqui a uma década. Blocos de gelo de tamanho inusitado têm se desprendido dos pólos. Em 1998, um deles, do tamanho do Distrito Federal, se soltou de uma geleira na Antártica. Outro, com 720 bilhões de toneladas de gelo e três vezes maior que a cidade do Rio de Janeiro, desprendeu-se em 2002. Dois séculos atrás, a Praça de São Marcos, em Veneza, era inundada uma ou duas vezes por ano. Agora é interditada quase toda semana por causa do avanço das águas. No sul dos Estados Unidos, o estado de Louisiana perde cerca de 16 hectares de terra por dia. Os Everglades, turísticos pântanos da Flórida, podem desaparecer até o fim deste século. Países asiáticos, como Bangladesh e China, estão perdendo faixas de terra férteis usadas para o cultivo do arroz.
São mudanças que afetam a vida de todas as espécies, inclusive o homem. Globalmente, a década mais quente já registrada foi a de 1990. Essa tendência é observada também nos últimos cinco anos. Atribuem-se a uma inédita onda de calor 30 000 mortes na Europa Ocidental, no verão de 2003. Um estudo da Organização Mundial de Meteorologia, ligada às Nações Unidas, estima que pelo menos 160 000 pessoas morram por ano em conseqüência das mudanças no clima. Entre as causas da mortandade está a elevação das marés, que inviabiliza fontes de água na foz de rios. No Egito, o avanço do mar está deixando a água do Nilo salobra e afetando o abastecimento da região. A febre do oeste do Nilo chegou aos Estados Unidos em um ano de fortes secas, por meio de aves migratórias infectadas, e nos últimos cinco anos matou 500 americanos.
A camada de neve em todo o planeta diminuiu 10% desde a década de 1960, e houve um recuo significativo dos glaciares. As neves eternas que cobrem o Himalaia recuam cerca de 30 metros por ano. As estimativas apontam que, se for mantido esse ritmo, até 2035 não haverá mais gelo nas partes central e oriental da cadeia de montanhas. O gelo do Ártico perdeu 40% de seu volume em cinco décadas. No final deste século, a região não terá mais cobertura congelada no verão, acreditam os especialistas. Uma conseqüência do encolhimento da calota polar é o surgimento de ursos anões. Com a redução das áreas de caça e, conseqüentemente, da oferta de alimentos, eles desmamam mais tarde e crescem menos a cada geração. Também no Ártico, as raposas vermelhas estão perdendo espaço para suas parentes que viviam em latitudes mais baixas e migraram em direção ao norte em busca de temperaturas mais frias. Na Inglaterra, certas espécies de borboletas e pássaros não são mais vistas no seu habitat. Na Costa Rica, uma espécie de sapo foi extinta depois que uma seca jamais observada interrompeu seu ciclo de reprodução.
Até dois séculos atrás, havia na atmosfera uma quantidade natural de poluentes, resultado basicamente das erupções vulcânicas, da decomposição orgânica e da fumaça de grandes incêndios. Depois que a humanidade começou a queimar carvão para alimentar as chaminés da Revolução Industrial, o volume de gases e partículas tóxicas dispersos no ar aumentou 30%, segundo calculam cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. A análise de bolhas de ar presas há milênios no subsolo gelado da Antártica comprovou que a atual concentração de CO2 na atmosfera é a maior já registrada nos últimos 440 000 anos. É um terço a mais do que a natureza é capaz de reciclar. Em setembro, cientistas japoneses do Instituto Nacional de Pesquisa Polar revelaram que os níveis de CO2 já interferem na qualidade do ar dos lugares mais remotos do planeta. Com o auxílio de balões que coletaram amostras do ar, descobriram que a quantidade do poluente cresceu 2,6% em seis anos no continente gelado. É a primeira vez que um gás causador do efeito estufa aumenta a ponto de influenciar a qualidade do ar nos pólos.
Esse saldo, resultado do desequilíbrio entre o que é emitido e o que é absorvido pela natureza, cria a condição básica para o fenômeno chamado de efeito estufa. O excedente de fumaça e de partículas na atmosfera atua como uma cúpula - que, além do CO2, é composta de metano e enxofre, entre outros gases. Essa cobertura é que impede que parte do calor recebido do Sol seja refletida para o espaço - assim como em uma estufa o vidro deixa passar a luz do Sol mas impede a saída do calor.
Segundo as contas do físico e astrônomo James Hansen, diretor do Instituto Goddard, da Nasa (a agência espacial americana), essa sobrecarga de calor é de cerca de 1 watt por metro quadrado. Isso equivale a manter acesa por 150 anos, em cada metro quadrado da superfície do planeta, uma lâmpada de enfeite de Natal. Parece pouco, mas não é. "Os estudos da história do clima mostram que pequenas forças, mantidas por muito tempo, podem causar grandes mudanças", explica Hansen. A maior parte do coeficiente energético gerado pelas "lâmpadas" de Hansen é absorvida pelo mar. Medições do oceanógrafo Sydney Levitus, do serviço de meteorologia americano, mostram que a quantidade de calor nos oceanos aumentou 10 watts por metro quadrado nos últimos cinqüenta anos. Levitus afirma que, mesmo que se venham a reduzir as emissões e controlar o efeito estufa, a atmosfera terrestre continuará esquentando por no mínimo 100 anos, devido à absorção do calor emitido pelos oceanos. É que, assim como a água demora para se aquecer, também demora para perder calor. As conseqüências são facilmente imagináveis. "A elevação de apenas 1 grau onde a temperatura era zero significa que, ali, tudo o que é gelo vai derreter e fazer aumentar a quantidade de água escorrendo para os oceanos", lembra o físico Edmo Campos, coordenador do Laboratório de Modelagem dos Oceanos, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Para completar, como qualquer corpo aquecido, o mar se expande. Esse fenômeno, combinado com mais água, faz avançar as marés. O que se vê agora, para muitos cientistas, é apenas o começo de uma tendência que vai se agravar ao longo das décadas.

O monstro de gelo
Um dos maiores icebergs já observados, o A-38 - de 144 por 48 quilômetros - nasceu ao se desprender da camada de gelo antártica em 1998. Desde então se dividiu em vários pedaços, que vagam pelo Atlântico Sul, representam perigo para a navegação e são por esse motivo continuamente monitorados. A seqüência ao lado, que cobre um período de uma semana, acompanha uma de suas subdivisões. Uma montanha de gelo com a área aproximada da cidade de São Paulo partiu-se em duas em abril deste ano. Icebergs desse porte tendem a se tornar cada vez mais comuns com a aceleração do derretimento do gelo polar.

Ameaça à cidade dos canais
A frágil Veneza atravessou os séculos convivendo com inundações e erosão. Nunca o problema foi tão grave quanto agora. Calcula-se que as águas em torno da cidade alcancem o ritmo de elevação de 6 milímetros por ano. O solo instável cedeu uma dezena de centímetros nas últimas décadas. A Praça de São Marcos, símbolo da cidade, era inundada dez vezes por ano no início do século XX. Hoje (foto menor) chega a enfrentar sessenta enchentes anuais.

Especial
Além dos limites
Os pessimistas, que previam fome no planeta com o crescimento da população, estavam enganados. Mas os recursos naturais continuam ameaçados pelos 6,5 bilhões de habitantes da Terra

O efeito das marés negras
Muitos petroleiros não têm cascos suficientemente protegidos. Na esteira de grandes desastres, a União Européia e outros governos começaram a tomar medidas como a obrigatoriedade de cascos reforçados. Mas enquanto esses cuidados não se tornam universais, desastres como o do Prestige, que em novembro de 2002 inundou as praias francesas e espanholas (foto) com 75 milhões de litros de resíduos de óleo combustível, continuam a prejudicar a fauna e a economia de grandes regiões.

No Ensaio sobre o Princípio da População, de 1798, o economista inglês Thomas Malthus previa que, como o número de habitantes da Terra crescia em escala superior à da produção de alimentos, fome e guerras por comida seriam inevitáveis. O engenho humano impediu que se confirmasse o catastrofismo malthusiano. Os avanços tecnológicos aplicados à agricultura multiplicaram as safras e, se a fome persiste em muitas partes do globo, isso se deve menos à falta de alimentos do que à desigualdade na distribuição. O mesmo equívoco de Malthus - não considerar a criatividade do homem - pode estar sendo cometido quando se fala do meio ambiente. Mas ainda não há manifestação de engenhosidade que dê solução à pressão sobre os recursos naturais decorrente do crescimento populacional. E o planeta dá sinais claros de que já se passou da medida.
A geração de energia e a busca de matérias-primas aniquilaram alguns ecossistemas. Metais pesados foram despejados nos rios e áreas de florestas, e montanhas se transformaram em crateras após décadas de mineração. Esse desequilíbrio resulta de várias atividades humanas - queimadas, poluição e pesca excessiva são algumas apresentadas nas próximas páginas. Nada disso começou ontem, como se vê por exemplos que remontam a 30 000 anos. Paleontologistas creditam a extinção de três espécies de mamutes e do bisão gigante aos primeiros homens que chegaram às Américas. Se na pré-história o homem extinguiu meia dúzia de espécies animais, hoje mais de 15 000 estão ameaçadas em todo o planeta. Somente em 2004, 3 000 foram acrescentadas a essa lista. "Pode-se dizer que estamos vivendo um novo processo de extinção em massa", afirma o biólogo Adriano Paglia, da organização não-governamental Conservação Internacional, referindo-se a ciclos anteriores de desaparecimento de espécies, como o que acabou com os dinossauros. "Só que este é o primeiro causado pelo homem."

Especial
O paradoxo da abundância
Desperdício e distribuição desigual ornaram a água uma fonte de conflitos
O Mar de Aral, na antiga União Soviética, morreu. Outrora quarto maior lago do planeta, com superfície maior que a dos estados do Rio de Janeiro e Alagoas juntos, hoje ocupa um terço da área original. Os rios que o alimentam foram desviados e canalizados para a agricultura. Os ventos carregaram o sal do leito seco para terras antes férteis. Esse processo inviabilizou ao mesmo tempo a pesca e a agricultura. No ano passado, o governo do Cazaquistão anunciou um plano para salvar pelo menos a porção norte do Aral, separando-a com um dique da parte sul, a maior do lago, dada como perdida.
O caso do Aral é o mais emblemático dos riscos do mau uso da água. Uma vez que cobre cerca de 70% da superfície do planeta, costuma-se vê-la como um recurso inesgotável. Trata-se de uma abundância enganosa. Apenas 2,5% da água é doce, e a maior parte está no topo das montanhas e nos pólos, na forma de gelo ou de neve. Sobra menos de 1% em condições para consumo animal e uso na agricultura. Desse total, o homem já utiliza mais da metade - com uma taxa de desperdício próxima a 60%. A agricultura consome a maior parte da água doce. A indústria é responsável por um quarto da utilização, e o consumo residencial representa menos de 10%. De acordo com um levantamento realizado pelo Conselho Mundial da Água - que reúne governos e organizações não-governamentais -, se os atuais padrões de consumo forem mantidos, em vinte anos a humanidade será obrigada a derreter geleiras para garantir o abastecimento.
A disponibilidade também é desigual. Uma dúzia de países - o Brasil entre eles - concentra mais de metade das reservas mundiais. O mesmo se verifica com os padrões de consumo. Enquanto um americano consome a média diária de 600 litros de água, um cidadão africano não dispõe de mais do que 20 litros por dia. Em duas décadas, nas contas da Organização das Nações Unidas, haverá 4 bilhões de pessoas sem acesso a água em quantidade adequada à sobrevivência, e boa parte sem água potável. Dados da Organização Mundial de Saúde contabilizam 7 milhões de mortes por ano decorrentes da falta de saneamento ou do consumo de água contaminada.
O acesso à água é fonte potencial de pelo menos 300 conflitos internacionais, como em fronteiras demarcadas por rios. O governo do México reivindica dos Estados Unidos a redução da drenagem do Rio Grande para irrigação, que diminui a disponibilidade no território mexicano e favorece a contaminação da água com pesticidas. A Etiópia e o Sudão, países na cabeceira do Nilo, sofrem pressão econômica e militar do Egito para abandonar projetos de irrigação e construção de represas, o que poderia decrescer o volume de água no trecho egípcio. Curdos e sírios protestam contra a Turquia, que, ao represar o Eufrates, reduziu a quantidade de água que chega à Síria e ao norte do Iraque.
Já se conhecem, porém, soluções eficazes para o desperdício. Resta colocá-las em prática. A irrigação por gotejamento, por exemplo, reduz a perda de água, que é de 40% no sistema por canais e aspersores, o mais usado, para menos de 10%. É comum em Israel, país seco onde se sabe o valor de cada gota. Também em Israel já existem empresas especializadas em devolver água usada ao subsolo - isso mesmo, devolver. Depois de tratada, a água é reinjetada em aqüíferos, as reservas subterrâneas naturais. Em Cingapura, país que importa água, o governo promove entre a população a chamada água potabilizada - obtida do tratamento de água poluída e própria ao consumo.
É sorte que o Brasil não precise chegar a tanto, mas também aqui há casos de escassez. Embora o país detenha 17% da água doce disponível no planeta, ela é mal distribuída. Mais de 70% do recurso está concentrado na Amazônia, onde moram menos de 10% dos brasileiros. Enquanto um morador de Roraima tem à disposição 1,8 milhão de litros de água por ano, em Pernambuco essa média é de pouco mais de 1 000 litros. No Nordeste e no Sudeste, algumas localidades enfrentam racionamentos regulares. Em São Paulo, as crises de abastecimento são em parte resultado da poluição dos rios, como o Tietê e o Pinheiros. A maior cidade do país produz menos da metade da água necessária para seu abastecimento. A outra parte é trazida da bacia do Rio Piracicaba, a cerca de 100 quilômetros.

Especial
Cada um destes incêndios tem 15 km²
Provocadas pelo homem, queimadas como estas na África ameaçam a biodiversidade, alteram o clima e geram bilhões em prejuízos. Mesmo assim, seu número não pára de crescer
A África em chamas
A cada ano, no início de maio, a África fica coberta de nuvens de fumaça. A imagem desta página, que abrange o oeste da República Democrática do Congo e o norte de Angola, mostra 4000 incêndios florestais simultâneos, provocados pelo homem para abrir caminho para pastagens e plantações. O impacto dessa antiga prática é muito maior do que o simples dano ao solo. Somados, tantos focos de chamas afetam o clima em uma vasta parte do continente. Prova disso é a imagem da direita, obtida por satélite um mês depois da foto maior. As áreas amarelas e vermelhas representam uma densa nuvem de monóxido de carbono espraiando-se muito além da zona original dos incêndios (indicada no retângulo abaixo).

O homem é culpado por mais de 95% dos incêndios em florestas. Segundo a Nasa, que monitora por satélite as ocorrências em todo o mundo, já se chegaram a queimar em apenas um ano 820 milhões de hectares. É como se um Brasil inteiro tivesse sido incendiado. É somente uma comparação, mas o Brasil também é um dos líderes nesse ranking negativo. Em 2004, os satélites identificaram cerca de 226 000 focos de incêndio em todo o Brasil. Há quatro anos, o número era menos que a metade desse total. A fumaça gerada pelas queimadas lança na atmosfera quase três vezes o total de poluentes gerado no Brasil pela indústria, pelos transportes e pela agricultura, segundo um inventário divulgado em dezembro pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. A Amazônia responde por 77% das emissões, produzindo 776 milhões de toneladas de partículas de CO2 por ano. O custo não é apenas ambiental. O prejuízo com cercas e pastos queimados é de 100 milhões de dólares por ano.
Na África, assim como na Amazônia, o fogo é usado para limpar a roça, na preparação para o plantio e na abertura de pastagens. Freqüentemente as chamas fogem ao controle. Na Europa, os países do Mediterrâneo enfrentam todo ano uma média de 50 000 incêndios florestais. Muitos deles começam como pequenos focos provocados pelo homem. A recorrência das queimadas está empobrecendo a vegetação e alguns cientistas falam em desertificação de parte de Portugal, Espanha, Grécia e sul da França. Nos Estados Unidos, em 2003, o fogo florestal na Califórnia atingiu cerca de 2 400 casas, matou vinte pessoas e causou prejuízos de mais de 2 bilhões de dólares. Os 63 000 focos de incêndio registrados neste ano em matas americanas destruíram 3 milhões de hectares.
O mar está perdendo fôlego
Há estudos sobre uma moratória na pesca para evitar o desaparecimento de espécies
Em 1992, 44 000 pescadores da região de Newfoundland, no Canadá, perderam o emprego. As autoridades decidiram proibir a pesca do bacalhau, base da economia local, ao constatar que a produção baixara 90% em relação à década de 70. A responsável foi a chamada sobrepesca, ou seja, aquela que impede a reprodução do peixe. Cidades inteiras faliram. Pior, a medida foi tardia. Doze anos depois, o bacalhau não reapareceu. O caso não é isolado. O Conselho Internacional de Pesquisa Marinha recomendou à União Européia que proíba a pesca do bacalhau no Mar do Norte. O máximo que se conseguiu, porém, foi uma redução de 45% nas cotas de pesca.
Todos os anos são retirados dos mares e rios do planeta 100 milhões de toneladas de pescado. A indústria pesqueira movimenta 200 bilhões de dólares anuais e ocupa diretamente 15 milhões de pessoas. Fonte barata de proteínas e de riqueza durante milênios, o mar dá sinais de perder fôlego pela primeira vez na história. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) calcula que em apenas seis anos a produção será até 20 milhões de toneladas menor que a atual. Das 200 espécies mais valiosas no mercado, 120 são exploradas além de sua capacidade de reprodução. No Brasil, entre as consideradas sobrepescadas estão a lagosta, certas variedades de sardinha e camarão e peixes de água doce, como o tambaqui amazônico. A frota pesqueira mundial só sobrevive graças a subsídios - perde 54 bilhões de dólares por ano e recebe quase a mesma quantia em ajuda de governos.
Artesanal desde o início dos tempos, hoje a pesca também é industrial. A pesca de arrasto, com redes que varrem o fundo do mar, é extremamente predatória. Além de recolherem indiscriminadamente todas as espécies, as redes usam bolas de aço que destroem corais e revolvem o fundo do oceano. O jornalista inglês Charles Clover mostra no livro O Fim da Linha: como a Sobrepesca Está Mudando o Mundo e o que Comemos (eleito um dos melhores de 2004 pela revista inglesa The Economist) que a indústria pesqueira investe tudo no aprimoramento das tecnologias de captura e nada em métodos menos destruidores. Equipadas com sonares e softwares de localização por satélite, as embarcações modernas encontram os cardumes com uma facilidade jamais vista. Com o colapso dos estoques em várias partes do Mar do Norte, na Europa, pesqueiros europeus e asiáticos se aventuram em águas internacionais próximas à África e ao Brasil. "Seguirão nesse ritmo até chegarem à Antártica. E essas serão as últimas águas a ser exploradas", diz Clover.
A sobrepesca é agravada pelo desperdício. A cada ano, descartam-se ainda a bordo dos navios 8 milhões de toneladas de pescado em boas condições de consumo. São espécies de menor valor comercial, rejeitadas para dar espaço a peixes mais valiosos. Essa sobra encheria 200 000 carretas e corresponde ao consumo de peixe no Brasil em seis anos. "Para cada tonelada de camarão pescada, outras 4 de peixes são jogadas fora", diz o ecólogo Miguel Petrere Júnior, da Universidade Estadual Paulista, membro do Comitê Consultivo em Pesquisa da Pesca da FAO.
Há esperanças - mas elas dependem de medidas drásticas. Para evitar o colapso da pesca industrial, a FAO cogita propor uma moratória. Em certas áreas só poderiam atuar os pescadores artesanais, que representam 90% da mão-de-obra em atividade e respondem por metade da produção mundial. Outra solução, a criação de "fazendas marinhas", vem se impondo como uma alternativa de exploração ordenada de um recurso outrora inesgotável - mas longe da escala necessária para substituir as quantidades pescadas em mar aberto.

1 000 toneladas de lixo por segundo
Essa é a quantidade produzida na Terra
Todos os anos, a humanidade joga no lixo 30 bilhões de toneladas de detritos. Isso representa quase 1 000 toneladas por segundo. Muitas regiões já não dispõem de espaço para armazenar a própria sujeira. Nas principais cidades do planeta, como São Paulo, a construção de aterros sanitários virou um problema grave. Os lixões não podem ser instalados em áreas urbanas, devido aos riscos de contaminação do ar e do solo. De Nova York, que produz 11 000 toneladas por dia, saem diariamente 550 caminhões de lixo para aterros sanitários nos estados de Nova Jersey e Virgínia. No Canadá, o lixo coletado na cidade de Toronto (na província do mesmo nome) viaja 800 quilômetros até ser despejado em uma mina desativada no interior da província.
Levar o lixo para mais longe só encarece e muda o problema de lugar, sem resolvê-lo. Boa parte, além disso, é de difícil reciclagem. O plástico - que leva mais de 400 anos para se decompor - responde por 20% do lixo urbano. Aterros sanitários ajudam na proliferação de mosquitos transmissores de dengue, febre amarela e outras enfermidades. São um importante foco de leptospirose, doença transmitida pelos ratos. Bastam 50 toneladas de lixo para contaminar definitivamente 1 hectare de terra. O chorume, líquido tóxico originado da decomposição do material orgânico, misturado com a água da chuva, penetra no solo e pode alcançar lençóis subterrâneos.
A contaminação vem também dos esgotos. No Brasil, produzem-se em média 150 litros de esgoto por habitante diariamente. Mais de 95% são jogados nos rios e no mar sem nenhum tipo de tratamento. Somente no litoral, onde vivem mais de 40 milhões de pessoas, todos os dias são lançados ao mar 6 bilhões de litros. Nos Estados Unidos, o lixo e a poluição levada pelos rios estão transformando o Golfo do México em região morta. A degradação ambiental afugentou centenas de espécies que viviam naquela área. "Nas costas geralmente se encontra a maior quantidade de peixes. Mas com esse nível de degradação a situação é crítica", alerta o ecólogo Ronaldo Barthem, membro do Global International Waters Assessment, órgão ligado às Nações Unidas que monitora o acesso a recursos hídricos de boa qualidade no mundo.
Os Estados Unidos, que ocupam o topo da lista dos países que mais reciclam seu lixo, conseguem reaproveitar pouco mais da metade do que vai parar nas lixeiras. Na Europa Ocidental, virou rotina nos supermercados cobrar uma taxa para fornecer sacolas plásticas. Os clientes levam as suas de casa. Também na Europa, o bom e velho casco (de vidro ou de plástico) vale desconto na compra de refrigerantes e água mineral. Para a redução do lixo industrial, a União Européia está financiando projetos em que uma indústria transforma em insumo o lixo de outras fábricas. Até a fuligem das chaminés de algumas é aproveitada para a produção de tijolos e estruturas metálicas.

Artigo: George Philander
O que o El Nino pode nos ensinar
"Precisamos evitar a tentação de adiar decisões políticas difíceis em nome de uma suposta necessidade de informações mais completas"
El Niño tornou-se um nome familiar, mas poucos se deram conta de que o fenômeno nos acompanha há milênios e que antigamente era saudado como uma bênção. Na verdade, esse nome foi dado inicialmente a uma modesta corrente quente sazonal que aparece na costa do Equador e do norte do Peru, perto do Natal, quando as chuvas transformam em jardim essa desértica região. El Niño é uma referência ao menino Jesus.
Ele exemplifica um paradoxo: quanto mais crescemos em riqueza e população, mais cresce nossa vulnerabilidade a desastres naturais. As chuvas associadas ao El Niño continuam a transformar o deserto do Equador em um jardim, mas hoje poucas pessoas têm tempo para se regozijar com esse milagre. Estão preocupadas com estradas, pontes e casas arrastadas pelas chuvas.
A história nos ensina que informações científicas precisas são de imenso valor e também que muita coisa pode ser feita mesmo quando essas informações encerram grandes incertezas. Acima de tudo, devemos evitar a tentação de adiar decisões políticas difíceis em nome de uma suposta necessidade de informações mais completas. Para facilitar nossos esforços, precisamos fazer a ponte entre os mundos profundamente diferentes da ciência e dos negócios. O multifacetado El Niño pode se tornar uma ponte eficaz, porque cativou a imaginação tanto de cientistas quanto de não-cientistas. Pode-se aprender muito com ele. E isso precisa acontecer logo.
Em nossos esforços para lidar com desastres, costumamos pedir aos cientistas que prevejam uma série de fenômenos naturais. Os meteorologistas responderam transformando a previsão diária do tempo de um augúrio em uma fonte confiável de informações importantes, um feito magnífico a que nem se dá mais atenção. Mais recentemente, os cientistas se voltaram para as flutuações do clima a longo prazo. Os avanços foram tão rápidos que, enquanto um El Niño excepcionalmente intenso pegou todo mundo de surpresa em 1982, já em 1997 se pôde prever sua chegada com meses de antecedência.
Mesmo na falta de previsões totalmente precisas, muito pode ser feito para mitigar o impacto de desastres naturais - mas apenas se os governos implementarem as políticas adequadas. Muitos, porém, relutam em fazê-lo. Nos Estados Unidos, por exemplo, não se coíbe a construção de edifícios altos em regiões sujeitas a furacões. O resultado é que, quando eles atingem o litoral, acabamos por nos considerar inocentes vítimas de catástrofes. Devemos ter em mente que, se enfrentamos cada vez mais problemas com fenômenos como El Niño e furacões, não é porque nossas previsões são defeituosas, e sim porque nosso modo de viver e conduzir os negócios está mudando.
Temos de pesar os consideráveis benefícios de nossas atividades agrícolas e industriais - padrões de vida superiores tanto para ricos quanto para pobres - e as possíveis conseqüências negativas de um aumento rápido na concentração de gases. Tornamo-nos senhores da Terra. Somos capazes de provocar mudanças que afetarão várias gerações futuras e todas as formas de vida do planeta.
Nosso "caso" com o El Niño chega a um momento crítico. Ele vai se tornar mais intenso? O visitante esporádico se tornará um morador permanente? Ainda não temos respostas. Mas podemos esperar que políticos sábios, que levem em conta o que os cientistas podem prever e que estejam cientes das inevitáveis limitações do conhecimento destes, façam com que o El Niño continue a ser uma bênção, em vez de uma praga, uma encantadora corrente com a capacidade milagrosa de transformar desertos em jardins.
Professor de geociências (meteorologia) na Universidade Princeton, nos Estados Unidos, é autor de Nosso Caso com El Niño: Como Transformamos uma Encantadora Corrente Peruana em um Desastre Climático Global (Princeton University Press, em inglês, 2004)

Entrevista: David King
Uma ameaça maior que o terrorismo
O químico sul-africano David King, de 65 anos, é considerado o cientista número 1 da Inglaterra. Chefe do prestigioso escritório nacional de ciência e tecnologia, o professor da Universidade de Cambridge despacha diretamente com o primeiro-ministro Tony Blair. Quando o premiê se manifesta sobre questões como o controle de doenças ou os transgênicos, sempre leva em consideração as avaliações de King. Em um artigo publicado em janeiro na revista Science, o cientista qualificou as mudanças climáticas como "um perigo com dimensões maiores que as do terrorismo". De seu escritório em Londres, ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA:
VEJA - Qual é a real parcela de culpa do homem no processo chamado de efeito estufa?
King - O aquecimento que nós vemos não pode ser explicado sem que a atividade humana - notadamente a queima de combustíveis fósseis e a liberação de CO2 - seja considerada. Os dados coletados no gelo de camadas profundas da Antártica dizem que a Terra não via concentrações de CO2 na atmosfera como nos níveis atuais há pelo menos 440 000 anos - provavelmente bem mais até. Enquanto alguns especulam que mudanças na atividade solar ou na órbita da Terra são responsáveis por essas variações, outros trabalhos fornecem fortes evidências de que a causa dominante, particularmente nas últimas décadas, é a ação humana.
VEJA - Fenômenos extremos, como a temporada atípica de furacões nos Estados Unidos e no Caribe e a onda de calor na Europa em 2003, já são reflexos do aquecimento global?
King - Embora seja difícil ligar eventos individuais às tendências de longo prazo, há evidências de que a onda de calor na Europa teve influência do aquecimento global. O número de pessoas afetadas pelas inundações ao redor do mundo subiu de 7 milhões, na década de 1960, para 150 milhões, nos dias de hoje. Esses impactos condizem com o que se prevê e representam um aviso prévio do que nós podemos esperar no futuro.
VEJA - Como será a vida em um planeta mais quente?
King - Um mundo mais quente trará uma grande variedade de impactos, freqüentemente devastadores, ao redor do mundo, para o meio ambiente, a saúde humana e a sociedade. O comportamento de animais e plantas já dá sinais de mudança. A vegetação é afetada pelas mudanças na temperatura, pela quantidade de chuva e pelo aumento das concentrações de dióxido de carbono. Isso alterará a duração das estações de crescimento, produção, colheita e também a competição entre espécies animais, levando-as a se deslocar por longas distâncias em busca de novos habitats - ou até mesmo à extinção. Haverá perdas irreversíveis e aceleradas de biodiversidade. Um estudo estima que entre 15% e 37% das espécies terrestres das áreas pesquisadas estarão sob ameaça de extinção até 2050.
VEJA - Que impacto pode ter a ascensão do nível do mar?
King - O impacto será maciço principalmente para os países de baixa altitude, como Bangladesh. Das dezenove maiores cidades do planeta, dezesseis são litorâneas. Um aquecimento de 2,7 graus, conforme prevêem os modelos atuais do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, pode ser suficiente para derreter a camada de gelo da Groenlândia e provocar uma ascensão do nível do mar entre 6 e 7 metros. Uma elevação de 2 graus na temperatura média global representará um aumento real de 4 graus na África, por exemplo, tornando ainda mais dura a luta daqueles que buscam sair da pobreza, piorando problemas associados a falta de alimentos, segurança, saúde e água.

Especial
Vilões ambientais
O homem polui para gerar energia, mas alternativas limpas começam a se tornar viáveis
Usinas de problemas
Cerca de 11% da eletricidade que abastece a Rússia é produzida pelos 29 reatores nucleares em operação. Desde os anos 80, quando a economia soviética entrou em colapso, a segurança dessas usinas e o destino do lixo nuclear russo são motivo de preocupação internacional

A maior parte da energia consumida no planeta vem das chamadas fontes sujas - principalmente petróleo e carvão mineral. Elas são a principal causa da elevação dos níveis de CO2 na atmosfera e criam outros riscos ao ambiente. Petroleiros realizam viagens transoceânicas transportando milhões de toneladas de óleo cru. Estão sempre sujeitos a vazamentos catastróficos, como os do Exxon Valdez, em 1989, na costa do Alasca, e do Prestige, em 2002, que tingiu de negro as costas da Espanha e da França. Tubulações que transportam gás e petróleo também são um risco constante para o meio ambiente.
Na lista dos combustíveis sujos enquadram-se igualmente as fontes da eletricidade que abastece empresas e residências. A mais polêmica é a energia nuclear, que, embora não lance poluentes na atmosfera, gera rejeitos que se transformam em um problemão ambiental praticamente eterno. Ainda não foram bem resolvidas as questões de o que fazer com essas sobras e como tornar as usinas à prova de vazamentos. Acredita-se que o lixo atômico tenha poder de contaminação por mais de 30 000 anos. A solução atual é, literalmente, enterrar o problema. Acondicionado em caixas blindadas, o lixo é jogado em minas subterrâneas ou em estruturas de concreto construídas no subsolo. Na Alemanha, diante da questão dos rejeitos radioativos, o governo anunciou que pretende fechar todas as usinas nucleares em um prazo de trinta anos. Em quatro décadas de pesquisas, os cientistas do país não entraram em um acordo sobre as melhores áreas para os depósitos.
Na lista de grandes geradores de energia - e de problemas ambientais - também estão as hidrelétricas. Elas são, teoricamente, uma fonte limpa. Mas, além de alagarem e desestruturarem complexos ambientais, são emissoras de metano, um gás com poder de retenção de calor 21 vezes maior que o do dióxido de carbono. Isso porque guardam em seus reservatórios bilhões de toneladas de matéria orgânica que, ao se decompor, se tornam fontes poluentes. Segundo cálculos do ecólogo Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, somente as quatro maiores represas da Amazônia (Tucuruí, Balbina, Samuel e Curuá-Una) emitiram juntas, em 1990, quatro vezes mais gases causadores do efeito estufa do que se produziria gerando a mesma quantidade de energia com combustíveis fósseis.
As alternativas são as chamadas fontes limpas - energias solar, eólica e das marés, por exemplo. Produzidas para poluir menos ou, em alguns casos, nada, elas ainda são caras demais para se tornar um substituto viável às fontes atuais, mas deixaram de ser vistas como projetos de cientistas malucos e vêm sendo levadas a sério por governos e empresas de grande porte (leia texto sobre alternativas limpas).

Especial
Para onde vamos
Os cientistas dizem que não há como parar o aquecimento global. Seu ritmo de expansão, porém, pode ser reduzido
Ninguém é capaz de dizer exatamente como será o planeta dentro de cinqüenta ou 100 anos. Mas centenas de pesquisas permitem afirmar com segurança que o futuro será mais quente. Todas elas, das mais otimistas às mais pessimistas, indicam que a vida sobre a Terra terá de se adaptar a novas condições. É provável que dentro de um século alguns pontos do planeta estejam 6 graus mais quentes do que hoje. O nível do mar pode subir até 80 centímetros. Essas mudanças serão sentidas por centenas de milhões de pessoas. Segundo uma das previsões, Bangladesh, pequena nação asiática com 140 milhões de habitantes, perderá 16% de seu território para o mar. Isso obrigaria 20 milhões de pessoas a se transferir para terras mais altas. Problemas semelhantes podem se verificar um pouco em toda parte, de Nova York ao Recife.
Os mais poderosos supercomputadores de hoje ainda precisam de meses de cálculo para prever cenários futuros, ainda assim com muita incerteza. Resultados já divulgados indicam que secas, tornados e furacões deverão ficar mais fortes e constantes. O cálculo é complexo, mas a explicação é simples. A elevação da temperatura provoca mais evaporação e mais umidade na atmosfera, o que favorece a formação de tempestades. Quatro furacões em seis semanas no Caribe, como aconteceu neste ano, é algo que nunca tinha sido visto. "Não dá para dizer que sejam resultado do efeito estufa, mas são um exemplo perfeito de como poderá ser o futuro", explica o meteorologista Carlos Nobre, coordenador-geral de previsão do tempo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Veja outras previsões:
o A Organização Mundial de Saúde estima que em duas décadas o saldo de mortes provocadas pelo efeito estufa deverá ser de mais de 300 000 por ano.
o Economistas da Universidade Yale afirmam que os prejuízos provocados pelos fenômenos climáticos deverão chegar a 794 bilhões de dólares por década, a partir de 2010.
o Segundo estudo do Conselho Ártico - entidade que reúne os países vizinhos do Pólo Norte, como Noruega, Canadá e Rússia -, até o fim do século o Círculo Polar Ártico ficará sem gelo durante o verão e o princípio do outono.
o A Universidade de Leeds, na Inglaterra, estima que 1 milhão de espécies são vulneráveis ao aquecimento e que 15% a 35% poderão estar extintas em 2050.
o Pesquisa do cientista israelense Roni Avissar, da universidade americana Duke, relacionou o desmatamento na Amazônia à redução das chuvas no Meio Oeste dos Estados Unidos, onde se concentra o grosso da produção agrícola americana.
o No Brasil, cientistas do Inpe e da Universidade de São Paulo prevêem que em cinqüenta anos o clima no país será desfavorável ao plantio de café em São Paulo e de algodão no Centro-Oeste.
Pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, afirmaram recentemente na revista Science que todas as alterações climáticas registradas nos últimos 400 milênios têm relação direta com a quantidade de CO2 na atmosfera. Sempre que houve elevação da temperatura e derretimento de calotas polares, os índices de CO2 eram próximos dos de hoje. Assim como no passado, o derretimento das calotas polares afeta as correntes marítimas - determinadas pela temperatura das águas - e estas afetam o clima global - como no norte da Europa, onde amenizam o frio.
Cenas como as mostradas no filme O Dia Depois de Amanhã, do diretor Roland Emmerich - em que o clima da Terra mudou em apenas uma semana, provocando uma era glacial -, são impossíveis na vida real, porém. Os pesquisadores descartam qualquer mudança abrupta, o que permitirá à humanidade se antecipar. "O que não podemos é ignorar as evidências", diz o físico americano James Hansen, da Nasa. Para o cientista, por meio de ações práticas pode-se não só desacelerar o aquecimento como também, a longo prazo, neutralizá-lo, impedindo que as catástrofes venham a ocorrer. Essas previsões, dizem os cientistas da corrente otimista, não levam em conta as evoluções tecnológicas dos próximos cinqüenta ou 100 anos. Vários cenários catastróficos elaborados no passado não levaram em consideração essas mudanças importantes.

Especial
No caminho certo
Muita gente está fazendo sua parte no conserto do planeta: cientistas, ambientalistas e até governos

Transporte limpo
Ônibus movidos a hidrogênio, como este em Amsterdã, na Holanda, estão deixando de ser curiosidades experimentais e se tornando uma solução para conter a poluição nas grandes cidades. Este modelo já circula em dez cidades européias e será testado em Pequim em 2005. Em vez de poluentes, expele vapor d'água
Depois de sete anos de negociações, o Protocolo de Kioto vai sair do papel. Há bons motivos para comemorar o evento. Ratificado por um número suficiente de países, o acordo - que prevê a redução da emissão de gases que causam o efeito estufa e estimula o desenvolvimento de novas tecnologias e a implantação de fontes limpas de energia - começa a vigorar em fevereiro de 2005. É um passo importante no combate aos efeitos do aquecimento do planeta. O protocolo entra em vigor em etapas. Na primeira, de 2008 a 2012, os signatários têm de reduzir sua emissão de poluentes em 5,2% em relação aos valores apurados em 1990. Cada país possui uma meta, expressa em "créditos" que pode gastar. Se um país signatário ultrapassar a meta, pode comprar créditos excedentes de outros. Tem ainda a opção de financiar programas de energia limpa ou desenvolvimento sustentável em outros países, o que também vale créditos. Assim, o objetivo global de redução das emissões tem mais chance de ser cumprido. "Kioto vai acelerar a busca de tecnologias alternativas em ritmo jamais visto", aposta José Domingos Miguez, coordenador do setor do Ministério da Ciência e Tecnologia que estuda mudanças climáticas.
Se o documento tiver o mesmo efeito que o Protocolo de Montreal, de 1987, há razões para otimismo. O tratado canadense foi eficaz na redução do uso dos aerossóis que abriram um rombo na camada de ozônio que protege a Terra de raios solares nocivos. O documento de Montreal, como o de Kioto, também começou a ser negociado de forma tímida, mas progressivamente houve um aumento do número de países que o obedeceram.
Em 2005, inicia-se a discussão da segunda etapa de Kioto. As metas que vão valer a partir de 2012 devem se tornar mais duras. Calcula-se que, para frear de vez o aquecimento, seja necessário reduzir 60% das emissões em relação a 1990. "A redução prevista no protocolo não vai resolver o problema, mas é o início do caminho para estabilizarmos a temperatura da Terra", diz a pesquisadora Thelma Krug, responsável pelo cálculo da emissão de gases brasileira junto ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.
Kioto é o maior exemplo, mas não é a única ação positiva para combater o efeito estufa. O primeiro-ministro inglês, Tony Blair, anunciou um programa de incentivo a energias limpas. A meta da Inglaterra é chegar a 2050 emitindo 60% menos CO2 do que hoje. Mesmo nos Estados Unidos, a nação que mais torce o nariz para o protocolo, existem mais de cinqüenta iniciativas oficiais importantes, já em prática, que reduzem a emissão de poluentes. São leis como a aprovada recentemente na Califórnia, que obriga toda a frota de veículos do estado, até 2014, a emitir 30% menos carbono do que hoje. Isso terá impacto indireto em todos os estados americanos, já que provavelmente a indústria automobilística não vai produzir carros limpos para a Califórnia e poluentes para o resto do país. "Boa parte da sociedade civil americana é mais consciente que o governo", afirma o antropólogo americano Stephen Schwartzman, da organização não-governamental Environmental Defense. Na União Européia, cujo Parlamento já havia decidido que os países-membros cumpririam as metas de Kioto independentemente da entrada em vigor do protocolo, várias nações têm projetos próprios de redução das emissões.
Em outras ameaças ao ambiente, como a desertificação, a união entre países começa a render frutos. Governos do Mediterrâneo se reuniram em um consórcio para evitar que uma região de 300 000 quilômetros quadrados (o tamanho da Itália), onde vivem mais de 16,5 milhões de pessoas, vire deserto dentro de algumas décadas. Cientistas estão montando planos de ação baseados em obras civis e programas de reflorestamento e combate às queimadas. Empresas privadas também já entenderam o potencial econômico (e de marketing) de iniciativas saneadoras. A Honda desenvolveu um carro movido a hidrogênio, o FCX, que resolve vários problemas de versões anteriores, como excesso de peso, pouca autonomia e dificuldade de funcionamento em baixas temperaturas. O novo modelo anda 400 quilômetros sem reabastecer e não polui nada: o subproduto do motor a hidrogênio é vapor de água. A General Motors e a Toyota, entre outras, já têm projetos avançados de veículos limpos. Em certos países europeus, como Holanda e Islândia, postos de combustível para abastecimento com hidrogênio deixaram de ser raridade. A companhia petrolífera Statoil, da Noruega, evita emissões de CO2, resultado da extração de gás natural, injetando-o em uma cavidade a 800 metros de profundidade.
O avanço da pesquisa permite prever cada vez melhor o processo de mudanças do clima e a influência do homem. Cientistas da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos, montaram uma "geloteca", com amostras extraídas de diversas profundidades do solo antártico, algumas congeladas há mais de 400 000 anos. Conhecer o clima do passado ajuda a entender o presente e analisar o futuro. No Brasil, cientistas já sabem como as chuvas se formam na Amazônia e como as queimadas e o desmatamento alteram o regime de chuvas de norte a sul do país. Na Oceania, pesquisadores estão reproduzindo corais em laboratório. Acreditam que assim poderão encontrar uma solução para salvá-los da grave ameaça de desaparecimento provocada pela elevação da temperatura dos oceanos.
Os benefícios econômicos da preservação ambiental são evidentes em áreas como a reciclagem, cuja indústria progride rapidamente. Papel e plástico formam cerca de metade do lixo urbano do planeta, mas o problema tende a diminuir à medida que alternativas biodegradáveis se popularizarem. Para cada tonelada de papel reciclado, em média trinta árvores são poupadas. Reciclar 1 tonelada de alumínio consome 5% da energia necessária para produzir 1 tonelada a partir da bauxita. O Brasil está adiantado nesse setor: recicla 87% das latas de alumínio, reaproveita um terço do papel e 40% das garrafas plásticas de refrigerantes. A reciclagem gera 200 000 empregos no país e 1,5 milhão em todo o mundo. Calcula-se que 700 milhões de toneladas de materiais de todo tipo sejam recicladas anualmente no planeta. Isso representa um faturamento anual de 200 bilhões de dólares. Nos EUA, a reciclagem emprega diretamente meio milhão de pessoas, o dobro do que emprega a indústria do aço, segundo levantamento do Instituto Worldwatch.

Especial
A solução chamada transgênicos
Alimentos geneticamente modificados são mais antigos do que se imagina - e mais benéficos ao ambiente também
Os transgênicos existem há mais tempo do que a maioria das pessoas imagina. "Há 80 anos a humanidade consome produtos com algum tipo de alteração genética", diz a geneticista Maria Helena Zanettini, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde o início do século passado cientistas fazem experiências com espécies vegetais. Muitas estão há décadas nas prateleiras dos supermercados. Segundo levantamento da FAO, órgão das Nações Unidas para a alimentação, e da Agência Internacional de Energia Atômica, existem na praça 2 300 produtos cujo DNA original foi alterado por métodos rudimentares, como exposição intencional a radiação ou a agentes químicos. É o caso, por exemplo, do tomate que se compra em qualquer supermercado.
Teoricamente, os efeitos dessas experiências são até menos conhecidos que os dos transgênicos modernos, obtidos por manipulação direta do DNA, exaustivamente testados antes de ser liberados para o plantio. E esse é apenas um dos argumentos a favor dos novos transgênicos. Em média 8% mais produtivos, grãos modificados, como o de uma das variedades de soja cultivadas no Brasil, podem desempenhar papel importante até na preservação de florestas: em tese, consegue-se maior produção em área menor, preservando florestas, por exemplo. Como exigem 80% menos inseticida do que as variedades convencionais e são resistentes aos herbicidas, os transgênicos reduzem a contaminação do solo, dos rios e dos próprios alimentos.
Em oito anos, o número de países que autorizaram a pesquisa e o cultivo de sementes transgênicas subiu de seis para dezesseis. De 1996 até agora, a área mundial cultivada com essas sementes saltou de 1,7 milhão de hectares para mais de 60 milhões de hectares. Gigantes da agricultura, como Brasil e México, caminham em direção à legalização do cultivo. A China, a maior consumidora da soja brasileira, dá sinais de que vai abrir seu mercado para os geneticamente modificados. Além da soja, há mais de setenta espécies com importantes variedades transgênicas: milho, arroz, hortaliças, frutas, árvores, plantas ornamentais e até pastagens.
Os transgênicos também estão presentes nas indústrias farmacêutica e química e na engenharia de novos materiais. Mais de 400 produtos de uso médico têm em sua fórmula organismos geneticamente modificados. Insulina e anticoagulantes de última geração são alguns exemplos. Plásticos biodegradáveis, que não agridem a natureza, estão surgindo dessas pesquisas.
Possíveis efeitos nocivos ainda são objeto de estudo, mas nada se achou até agora que condene as experiências atuais. Isso não eliminou as dúvidas dos ambientalistas quanto a possíveis danos a longo prazo ao organismo humano e ao equilíbrio ambiental das regiões onde são cultivados. Um relatório divulgado em novembro pela Comissão para Cooperação Ambiental da América do Norte - entidade que reúne especialistas de Estados Unidos, Canadá e México - recomendou às autoridades dos três países maior cuidado com o cultivo de milho transgênico no México. O documento é categórico quanto à ausência de risco à saúde de quem come esse tipo de milho, questão exaustivamente pesquisada ao longo de duas décadas. O que a comissão teme é a "contaminação" de lavouras tradicionais, afetando a cadeia alimentar.
A China está pronta
Maior produtora mundial de arroz, a nação mais populosa da Terra ainda emprega métodos de cultivo tradicionais, como nesta plantação na província de Yunnan (acima). Mas os cientistas chineses já estão testando variedades transgênicas, resistentes a pesticidas. Seu uso em grande escala ainda está sujeito à aprovação do comitê chinês de biossegurança. Em outros países, modificações genéticas são comuns. A foto menor mostra a comparação entre duas variedades de milho mexicanas - a maior é a transgênica

Veja, 22/12/2004, Especial, p. 180-213

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