O Globo, Ciência, p. 26
21 de Mar de 2014
O enigma do Atlântico
Estudo brasileiro revela como o sistema interfere no aquecimento global
Ana Lucia Azevedo
RIO - O verão se foi marcado por recordes de calor e estiagem no Rio de Janeiro e boa parte do Sudeste. Um tempo hostil no início do ano que marca a primeira década após o Catarina (23 a 28 de março de 2004), o primeiro furacão brasileiro registrado. Surgem sinais de mudança do clima. Se associados à ação humana ou a variações naturais, ainda é inconclusivo para alguns. Mas, agora, um estudo brasileiro identificou uma inédita associação entre o buraco na camada de ozônio sobre a Antártica e alterações no padrão de ventos no Atlântico Sul, com possível influência sobre o Brasil. Uma inequívoca alteração climática causada pelo ser humano.
O estudo é daqueles que mudam paradigmas da ciência porque põe por terra a ideia de que o buraco na camada de ozônio não teria consequências climáticas. Supunha-se que o impacto do rombo no ozônio diria respeito apenas a índices perigosos de radiação UV. Mas nada teria a ver com o clima. O conceito inicialmente lançado pelo British Antarctic Survey, e depois por um grupo brasileiro do Proantar, mostraram que esta é uma ideia errada. Até agora as evidências apontam que o buraco na camada de ozônio é uma produção 100% humana. Foi aberto por gases CFCs emitidos ao longo do século XX e início de século XXI. Embora a emissão de CFCs tenha sido controlada pelo Protocolo de Montreal, em 1997, o único acordo climático bem-sucedido da História, o buraco só se fechará ao longo das próximas sete décadas.
Trabalho pioneiro de equipe da UERJ
O grupo liderado pelo físico Heitor Evangelista, da Uerj, revelou que a complexa rede de conexões climáticas faz fenômenos que acontecem na atmosfera sobre a Antártica alcançarem as águas que banham o Brasil. Esses fenômenos que podem levar ao aquecimento do mar e alterar o padrão de chuvas no continente e afetar o equilíbrio dos ecossistemas marinhos.
Os pesquisadores integram o Instituto Nacional da Criosfera, uma rede nacional de pesquisa ligada ao CNPq, que mantém um laboratório em funcionamento o ano todo na Antártica, a apenas 500 quilômetros de distância do Polo Sul geográfico. O laboratório pode funcionar de modo autônomo e os cientistas não precisam passar o tempo todo por lá, evitando o frio e escuro inverno antártico. O laboratório Criosfera I, que não foi afetado pelo incêndio da Base Antártica Brasileira em fevereiro de 2012, monitora o clima e a química da atmosfera e envia os dados por satélite para o Brasil e a comunidade científica internacional. Evangelista e seus colegas costumam passar um mês por lá, mas nunca param de receber informações.
A dinâmica da estratosfera faz em com que a camada de ozônio que protege a Terra da radiação UV seja mais fina sobre a Antártica. Quando os CFCs começaram a destruir a camada, o problema teve maior intensidade na Antártica e esfriou ainda mais a estratosfera sobre o interior do continente, enquanto que a temperatura das bordas continuava a se elevar. Na prática, o buraco na camada de ozônio aumentou a velocidade dos ventos ao redor da Antártica.
- A diferença de temperatura (neste caso entre o centro da Antártica o ambiente ao seu redor) acarretou uma diferença de pressão atmosférica. E isto levou à intensificação dos ventos de Oeste - explica Heitor Evangelista.
O resultado foi que os chamados ventos westerlies - literalmente, que sopram de Oeste - se tornaram mais fortes. Esses ventos giram ao redor da Antártica. Este aumento está registrado nas estações meteorológicas de superfície e reproduzidos nos modelos numéricos.
- Um fenômeno semelhante aconteceu, em maior escala, nos períodos glaciais, quando a diferença de temperatura entre os polos e os trópicos era maior do que hoje. Isso gerou uma atmosfera mais dinâmica, em termos de ventos superficiais - observa o cientista.
Ele destaca que o aumento dos ventos ao redor da Antártica provocou um transporte maior de calor dos oceanos e continentes (América do Sul, Austrália e África) ao redor da Antártica. Por outro lado, este enorme sistema passa a funcionar como uma espécie de barreira para os ventos penetrarem dentro do continente antártico. Assim, o coração da Antártica está mais frio e suas bordas, mais quentes.
- Observamos que parte do Atlântico Sul começou a esquentar no final dos anos 70. Sabemos, através de modelos, que a intensificação dos westerlies tem uma influência muito poderosa sobre o Atlântico Sul, muda a estrutura de ventos, inclusive na costa do Brasil, por exemplo - salienta o pesquisador.
Para estudar o que acontece no oceano, os cientistas se valem de simulações numéricas. O processo ainda está em estudo. Mas os pesquisadores sabem que alterações na dinâmica desses ventos antárticos podem se propagar até o Brasil. Ao fazer isso, eles empurram colossais volumes de água oceânica. Literalmente, podendo empilhar água na costa do Brasil. Isso aumenta a pressão sobre a coluna d'água e faz com que a água se aqueça. A ação deste processo pode atingir a costa do Sudeste brasileiro.
- O aquecimento do Atlântico pode ter várias consequências para o Brasil, inclusive o aumento da evaporação e da chuva. E também biológicos, pois espécies de corais são sensíveis ao aumento da temperatura do mar.
O estudo está em curso, mas já revelou que há uma coincidência entre a intensificação dos westerlies, o aumento da temperatura do Atlântico e um declínio na taxa de crescimento dos corais de Abrolhos. Estamos investigando se há uma conexão neste processo, pois são temporalmente bem acoplados. Para Evangelista, é cedo para dizer se a mudança nos ventos aumentará a ocorrência e a intensidade de tempestades no Brasil. Porém, observa:
- Sabemos que a variabilidade do gelo marinho na Antártica tem relação com as frentes frias que atingem a costa brasileira.
Trabalhos como esse evidenciam que o sistema climático da Terra é tão complexo e dinâmico que é preciso olhar todo o planeta, quando queremos compreender o Brasil
- Não adianta olhar para os lugares de sempre. O planeta está conectado e em permanente transformação - diz.
Águas e tormentas de outono
Heitor Tozzi
Nas regiões subtropicais, como o Sul do país e o Uruguai, o encontro da corrente marinha quente do Brasil com a corrente fria das Malvinas, favorece a ocorrência de vórtices (redemoinhos) e a consequente mistura dessas águas. Nessa região é comum também a presença de ciclones. E assim, nos deparamos com um fenômeno importante para a ocorrência de fortes tempestades, como a possibilidade de furacões.
Quando temos um verão muito quente, como o deste ano, as diferenças de temperatura entre os trópicos e as regiões polares se tornam mais acentuadas. Isso provoca choques entre correntes mais frias com as mais quentes e o resultado disso são os vórtices. Com a chegada do outono, ontem, inicia-se a época das tempestades do Atlântico Sul e a maior presença de ciclones na região subtropical do Brasil. Os ciclones trazem as tempestades, e encontram os vórtices numa região de mistura de águas frias e quentes, com muitos turbilhões tentando sobreviver aos turbulentos choques das grandes correntes marinhas. Então, se um ciclone extratropical se acoplar a um vórtice quente, o resultado é um fenômeno tão intenso que pode ser capaz de gerar um furacão.
As misturas entre as águas quentes dos oceanos com as massas quentes de ar quente da atmosfera podem gerar ciclones tropicais (também conhecidos como furacões), em vez de gerar um ciclone extratropical. Não é um fenômeno comum, mas o que formou o primeiro furacão Catarina, em 2004, foi justamente o acoplamento perfeito entre um vórtice quente da corrente do Brasil, com um ciclone, que ao passar das horas se transformou num furacão.
Importante destacar, que não só o Sul do Brasil tem vórtices. Eles existem ao longo de toda a região Sudeste, em São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Os vórtices oceânicos quentes podem ser acoplados a ciclones e gerar furacões, como o furacão Arani em 2011 na região próxima a Cabo Frio, Rio de Janeiro, que ficou no mar e não tocou a terra.
Verão carioca foi a estação mais quente em 50 anos
Temperatura média fechou em 36,2 graus Celsius; houve chuvas em apenas 16 dias
Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br
E eis que a sensação popular foi comprovada pelo balanço do verão divulgado ontem pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A estação foi a mais quente dos últimos 50 anos, com temperatura média de 36,2 graus Celsius. A estiagem também bateu recorde histórico. O Rio recebeu chuvas apenas em 16 dias - normalmente são 40. O índice de precipitações foi 37% abaixo das últimas décadas.
A hostilidade da estação pode ser atribuída à massa de ar seco que estacionou sobre o litoral do Centro-Sul do país entre o fim de dezembro e a primeira quinzena de fevereiro, provocando quase um mês de estiagem.
- Nenhum pesquisador previu como seria este verão - admite Nelson Ferreira, chefe da Divisão de Satélites e Sistemas Ambientais do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe. - Muitos cientistas estudarão por que o verão foi tão quente e seco.
As zonas de altas pressão também catapultaram os termômetros nos verões de 1984 - com temperatura média de 36,2oC - e de 2001 - quando este índice foi de 34,5oC.
- Sabíamos que havia esta massa de ar seco, mas não por que o curso das frentes frias foi tão alterado - confessa Antonio Divino Moura, diretor do Instituto Nacional de Meteorologia.
Professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da USP, Pedro Leite da Silva Dias acredita que o rigor da estação não pode ser atribuído ao aquecimento global, embora seus efeitos tenham sido sentidos em todo o planeta.
- A explicação, na verdade, é mais complexa - conta Dias, que também dirige o Laboratório Nacional de Computação Científica. - As oscilações comuns na circulação atmosférica, por algum motivo, estacionaram no Pacífico e provocaram eventos extremos em todo o planeta.
Segundo Alexandre Nascimento, meteorologista do Climatempo, o outono vai registrar chuvas abaixo do normal:
- Não há possibilidade de que a estação receba as precipitações esperadas para o verão.
O Globo, 21/03/2014, Ciência, p.26
http://oglobo.globo.com/ciencia/buraco-na-camada-de-ozonio-afeta-clima-…
http://oglobo.globo.com/ciencia/artigo-aguas-tormentas-de-outono-119422…
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