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O encontro dos peixes-boi

O Globo, Amanhã, p. 11
06 de Nov de 2012

O encontro dos peixes-boi
Ilha de Marajó, no Pará, é o único local do mundo onde espécies de águas doce e salgada vivem juntas. Ambas estão ameaçadas

Claudio Motta
claudio.motta@oglobo.com.br
Pedro Kirilos*
Especial do Pará
pedro.kirilos@oglobo.com.br

A vazão do maior rio do mundo, o Amazonas, por um lado. A força de um oceano inteiro, o Atlântico, por outro. No encontro destes dois gigantes, as variações de marés e de salinidade criam situações muito específicas, e fazem com que a Ilha de Marajó, a maior ilha fluviomarinha do mundo, no Pará, seja um ambiente sui-generis, onde os dois tipos de peixe-boi, tanto o que vive em água doce como o que habita o mar, coexistam.
Ainda que ambas as espécies sejam extremamente ameaçadas pela caça, perda de habitat e poluição.
- A costa do Pará, com a influência do mar e dos rios, permite áreas de simpatria (coexistência numa mesma área) das espécies.
Este é um dos poucos lugares do mundo em que o peixe-boi-da-Amazônia (Trichechus inunguis) e o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) ocorrem. Isso por si só já mostra a importância desta área - disse Salvatore Sicilino, pesquisador do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (Gemam) e da Fiocruz. - As informações que temos, porém, ainda são muito escassas.
O trabalho de pesquisadores que vem sendo realizado é fundamental. Sequer há contagem do tamanho da população. As estimativas indicam que existam menos de mil exemplares no Brasil. Este é o mamífero marinho mais criticamente ameaçado.
O grupo de pesquisadores, que é ligado ao Setor de Mastozoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi, se mobiliza desde 2006 para a pesquisa e conservação dos mamíferos aquáticos amazônicos. Um destes projetos é o Bicho D´água: Conservação Socioambiental, que conta com o apoio do Programa Petrobras Ambiental. Os especialistas conversam com os moradores e pescadores, estabeleceram um braço socioambiental de fomento a artesões locais, falam da importância da preservação da espécie e vão a campo para observar os animais.
Na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), em Belém, foi criada uma estrutura, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), para receber peixes-boi que precisam de cuidados. Atualmente há sete deles sendo tratados no local. Isto inclui a alimentação em mamadeiras. Nos tanques, eles vão crescendo até a hora da reintrodução na natureza.
Esta operação, que requer grande logística - o que exige gastos adicionais -, ainda não tem prazo.
O trabalho ainda está numa fase crítica, a de captação de dinheiro para o transporte dos mamíferos. Três deles já precisam ser levados para um local de semicativeiro, ainda protegidos, mas já dentro da natureza. Os animais terão que reaprender a viver em liberdade.
A pesquisadora Maura Sousa, também do Gemam, explica que perto da Praia de Joanes, o igarapé do Limão reúne as condições ideais para este estágio intermediário.
- A profundidade neste local é boa. Mesmo quando em maré baixa, fica com pelo menos um metro. Em outros locais, há períodos de seca. Além disso, tem vegetação próxima.
Os peixes-boi podem se alimentar por conta própria, também podemos buscar comida para eles. As correntes são mais amenas, assim os mamíferos não precisarão nadar tanto.
A salinidade e temperatura não variam tanto - explica Maura. - Não vemos a hora de trazer os peixes-boi para cá e soltá-los.
No semicativeiro, os peixes-boi serão acompanhados pelos especialistas, que avaliarão se os mamíferos estão conseguindo se adaptar às novas condições. Caso evoluam bem, mostrando desenvoltura no igarapé e capacidade de sobreviver na natureza, os animais finalmente poderão ganhar a liberdade.
Para os pesquisadores envolvidos na operação, este dia deverá ser reconhecido como um marco dos esforços para a preservação da espécie, um dos símbolos da Ilha de Marajó.

O Globo, 06/11/2012, Amanhã, p. 11

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