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O efeito é colateral

CB, Brasil, p. 12
21 de Jan de 2010

O efeito é colateral
Pesquisa da UnB feita no Mato Grosso mostra que cidades voltadas para a agricultura registraram aumento de 100% na emissão de gases entre 2001 e 2007. Compromisso do Brasil é garantir uma redução de 38,9% até 2020

Danielle Santos

As medidas adotadas até agora pelo Brasil não foram eficazes para conter a emissão de gases de efeito estufa. Estudo da Universidade de Brasília (UnB) mostra que em alguns municípios no estado do Mato Grosso, com forte produção agrícola e pecuária, a emissão aumentou em até 100% entre 2001 e 2007. A avaliação do pesquisador Diego Lindoso é a de que, se não houver uma ação efetiva do país nos próximos anos, não será possível cumprir a meta de redução de 38,9% nos gases de efeito estufa até 2020, como se propôs o governo brasileiro na conferência do clima em Copenhague em dezembro do ano passado. E a promessa deve ser reafirmada na próxima segunda-feira, em Nova Déli, na primeira reunião multilateral oficial desde o fracasso da COP15, com a presença de Brasil, Índia, África do Sul e China.

A pesquisa fez um recorte dos polos de produção agrícola do país, localizados em Mato Grosso, responsável por cerca de 29% dos grãos colhidos na safra de 2009/2010, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Nos municípios pesquisados - Alta Floresta, Sorriso e Feliz Natal - estão localizados os maiores polos de produção de soja e gado do país.

Lá também foram identificados altos índices de desmatamento e desrespeito à legislação ambiental, provando que as políticas públicas não estão funcionando como deveriam. O pesquisador diz que o grande problema é que as conclusões do estudo podem ser semelhantes para outras regiões onde o setor agropecuário é a principal atividade econômica, como Sul e Centro-Oeste.

Nos seis anos do levantamento, o pesquisador constatou um aumento excessivo da emissão de gases com a devastação da área nativa. "A cultura em que hoje prevalece um modelo de grandes extensões de terras com demanda intensiva de recursos naturais, concentrador de renda e de baixa agregação de valor não colabora para a nova concepção de produtividade", avalia Lindoso. "É preciso ter tempo, que é pouco, dinheiro e consciência para mudar."

O resultado da pesquisa também mostra que o governo tem pouco controle sobre o ritmo do desmatamento. Segundo o pesquisador, de 2001 a 2004 foi possível observar a ligação entre pro dução agrícola, desmatamento e demandas do mercado internacional.

"Nesse período, quando houve um aumento das commodities (transações de matéria-prima), da soja e da carne bovina, por exemplo, o desmatamento aumentou consideravelmente." Os problemas apontados pelo levantamento já são velhos conhecidos do governo. No caso de Mato Grosso, quase 100% das propriedades estão fora da lei, reconhece o diretor do departamento de Florestas do Ministério do Meio Ambiente, João de Deus Medeiros. "Praticamente 100% das propriedades não preservam a parcela da área nativa e nem compensam em outra área, como prevê a lei. O grande dilema está em conscientizar o produtor a adotar boas práticas que muitas vezes custam mais caro", afirma.

O diretor admite que o país tem um desafio pela frente se quiser cumprir a meta assumida na 15ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), mas que está tentando fazer a sua parte. "Temos duas linhas de frente para combater as emissões e, consequentemente, o desmatamento que são novas tecnologias de plantio e de diminuição de espaço para criação de gado, além do mutirão para regularização das propriedades no que diz respeito à reserva legal e à área de preservação permanente.

O problema é a conscientização do produtor mesmo."

CB, 21/01/2010, Brasil, p. 12

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