O Globo, Revista O Globo, p. 44-45
23 de Jul de 2006
O dilema chinês
A economia que mais cresce no planeta se debate entre o fim da miséria e a preservação ambiental
Por Gilberto Scofçeld jr, de Pequim
Os ambientalistas costumam brincar dizendo que, na maioria dos países em desenvolvimento, não há fogueira de crescimento econômico sem fumaça de degradação ambiental. No caso da China, que possui um quinto da população mundial e a economia que mais cresce no planeta, os dados são alarmantes. Em recente seminário, os cientistas alertaram que 300 milhões de chineses não possuem acesso à água potável. Se nada for feito para proteger o maior rio da China, o Yang-tsé - que recebe 40% do esgoto do país, 80% sem tratamento - ele morre em cinco anos.
Estudo do Banco Mundial aponta que a China tem hoje 16 das 20 cidades mais poluídas do mundo, entre elas Pequim, sede das Olimpíadas de 2008, que quer ser "uma Olimpíada verde". Nada menos que 400 mil pessoas morrem prematuramente todos os anos de doenças causadas pela poluição.
E recentemente Zhu Guangyao, vice-ministro da Administração Estatal de Proteção Ambiental (SEPA, na sigla em inglês, o Ministério do Meio Ambiente deles), afirmou que a poluição causa um prejuízo anual de mais de US$ 200 bilhões à economia chinesa.
0 primeiro-ministro Wen Jiabao chocou recentemente o país ao afirmar - com uma sinceridade raras vezes constatada no discurso oficial -que o governo de Pequim não cumpriu as metas de proteção ambiental fixadas no 10o. Plano de Desenvolvimento, encerrado no ano passado.
- Precisamos admitir que a questão ambiental na China continua grave - disse o premiê, que culpou "a busca cega do desenvolvimento e a falta de empenho para reparar danos ambientais antigos" pelos altos níveis de degradação no país.
Sze Pang Cheung, gerente da divisão China da ONG Greenpeace, concorda:
- A necessidade de se tirar da pobreza, o mais rapidamente possível, boa parte da população faz o governo dar menor importância à obediência à legislação ambiental, especialmente em províncias menores. - diz ele. -Já somos o segundo maior emissor de gases depois dos EUA. 0 resultado é a poluição tóxica de solo, ar, rios e mares, e o comprometimento da segurança de alimentos e da água. 0 desastre ambiental ocorrido no rio Songhua, ano passado, é um bom exemplo disso.
Sze Pang refere-se à explosão de uma fábrica de petroquímicos na província de Jilin, em novembro de 2005, que resultou no despejo de 100 toneladas de benzeno no rio Songhua, um dos mais importantes da região nordeste do país.
Mais otimista, Kishan Khoday, gerente do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas em Pequim, que supervisiona US$ 200 milhões em 25 projetos de desenvolvimento no país, diz que a China atravessa hoje um período de mudança.
- 0 governo já percebeu que o custo da degradação ambiental é alto e começa a se empenhar para mudar esta situação com uma orientação verde em várias frentes. A maior prova disso é a determinação do país de quadruplicar o seu PIB até 2020 e, ao mesmo, apenas dobrar o consumo de energia. Há empenho - diz Khoday.
De acordo com Zhu Guangyao, de 1996 a 2005, 116.600 empresas estatais consideradas altamente poluidoras foram fechadas. Ainda assim, para o vice-ministro dá SEPA, a China vive "uma situação grave":
- Há uma orientação do governo central de apertar a fiscalização sobre empresas e governos locais em relação à obediência a legislação ambiental - disse ele, na semana passada, ao apresentar o Relatório Oficial de Proteção Ambiental da China. - Mas não há como ser otimista agora. Precisamos redobrar os esforços de combate à poluição, especialmente nas administrações locais, que estão acostumadas a serem julgadas pelo nível de crescimento que conseguem para suas regiões.
A censura a muitas informações e o extremo controle exercido sobre as ONGs ambientalistas que atuam no país são outros dois problemas graves. 0 futuro da China pode ser um pouco mais verde, mas o presente exige atenção redobrada. E a própria cúpula do Partido Comunista, apesar do discurso ambientalista, ainda parece dividida entre um desenvolvimento rápido, capaz de tirar da miséria o máximo de pessoas, e um crescimento menos acelerado e com mais ações de proteção ambiental.
O Globo, 23/07/2006, Revista O Globo, p. 44-45
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