OESP, Notas e Informações, p.A3
26 de Mar de 2005
O destino do lixo
Tem aumentado a quantidade de resíduos sólidos domiciliares depositada em aterros sanitários de maneira adequada, no Estado de São Paulo, o que indica uma melhora das condições de saneamento. Das 27,5 mil' toneladas de resíduos produzidas diariamente nas cidades paulistas, 79,3% são corretamente enviadas para aterros mantidos em boas condições. Há oito anos, esse índice chegava a apenas 10% e, no período de um ano, entre 2003 e 2004, cresceu 2,3%. A evolução foi constatada pelos técnicos da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), responsáveis pela coleta de dados nos 645 municípios do Estado para a elaboração do Inventário Estadual de Resíduos Sólidos Domiciliares relativo a 2004. O trabalho permite identificar o resultado das ações de controle da poluição ambiental desenvolvidas no Estado e controlar a eficácia dos programas e políticas públicas do setor.
A quantidade de lixo disposto de forma inadequada caiu bastante desde 1997, ano da realização do primeiro relatório. Naquela época, mais de 30% dos resíduos eram depositados de maneira inadequada. Hoje, apenas 8,3% ainda não têm por destino aterros devidamente construídos e mantidos.
Classificando as instalações de destinação de resíduos sólidos domiciliares em inadequadas, controladas e adequadas, conforme a variação dos Índices de Qualidade de Aterro de Resíduos (IQR), de Qualidade de Aterros em Valas (IQR Valas) e de Qualidade de Usinas de Compostagem (IQC), os técnicos constataram melhorias consideráveis nos nove municípios do Estado com mais de 500 mil habitantes, entre eles, São Paulo, Sorocaba e Campinas, que respondem pela produção de 62,3% do volume diário de resíduos de todo o Estado. O IQR alcançado por esses municípios em 2004 chegou a 9,0, numa escala de 0 a 10. Em 2003, foi de 8,2.
Os dois aterros sanitários da capital foram considerados satisfatórios: o Aterro São João obteve a nota 8,3 e o Bandeirantes, 8,8. Os dois recebem diariamente 13 mil toneladas de lixo, pouco menos que a metade de todo volume de resíduos produzido no Estado. Mas, ao apresentar os dados, o presidente da Cetesb, Rubens Lara, alertou para o fato de que essa situação poderá se inverter em três anos ou quatro anos, quando, segundo ele, os aterros que servem a capital deverão estar saturados.
Há cinco anos, durante o governo Celso Pitta, o então secretário municipal de Serviços e Obras, João Octaviano Neto, previa que os aterros São João e Bandeirantes teriam vida útil de apenas um ano. Na época, São Paulo produzia 12 mil toneladas de lixo.
No governo seguinte, a então prefeita Marta Suplicy chamou a atenção para o que chamou de "apagão do lixo". Autoridades
municipais avaliaram que os aterros teriam mais três anos de vida. Diante da necessidade de ampliar as áreas para depósito adequado do lixo, o que, segundo cálculos da Prefeitura, consumiria investimentos de R$ 300 milhões, foi criada, em 2002, a polêmica taxa do lixo. Há dois anos a taxa é cobrada, mas, até agora, apenas us dois aterros continuam atendendo o Município.
Nos últimos anos, apesar das previsões pessimistas, a sobrevida dos aterros foi sendo ampliada, não se sabe se por erros grosseiros de previsão ou se por interesses dos governantes em anunciar uma situação crítica para justificar o aumento de taxas, criar outras ou obter financiamentos. Enquanto isso, as medidas que poderiam reduzir o volume de lixo depositado nos aterros, como os processos de reciclagem e a coleta seletiva, têm sido implantadas muito lentamente.
Para o presidente da Cetesb, não há mais tempo a perder. "Os ambientalistas vão chiar, mas não vejo outro caminho que não os incineradores. Nas grandes cidades, não há mais áreas para criação de aterros e teremos de recorrer à incineração, como já ocorre no Japão, Alemanha, Estados Unidos e Canadá."
De fato, os ambientalistas protestaram. "Deus recicla e o Diabo incinera", afirmou o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, Carlos Bocuhy, lembrando que a prática lança na atmosfera substâncias altamente cancerígenas.
Por falta de planejamento e de atenção ao meio ambiente, essa pode, no entanto, ser a solução mais rápida e menos custosa para o problema do lixo, em São Paulo.
OESP, 26/03/2005, p. A3
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.