OESP, Vida, p. A21
Autor: LOMBORG, Bjorn
14 de Nov de 2004
O desconstrutor do ambientalismo
O dinamarquês Bjorn Lomborg, autor de livro que questiona as teses de ambientalistas, volta à carga em nova obra
John Vidal
The Guardian
Quando o estatístico dinamarquês Bjorn Lomborg lançou O Ambientalista Cético, em 2001, governos sovinas, centros de estudo de extrema direita e intelectuais do livre mercado aplaudiram ruidosamente. Ali estava um jovem europeu inteligente, professor de estatística, que se declarava ambientalista e de esquerda, mas que dizia exatamente o que eles vinham dizendo há anos.
De acordo com Lomborg, o meio ambiente não estava tão mal assim como se costumava dizer. A mudança climática não era de fato o grande problema. Além disso, seria preciso muito dinheiro para tratar dessa questão. Os grupos ambientalistas cometiam exageros propositais quando discorriam sobre o assunto. Os cientistas entenderam tudo errado, da biodiversidade ao esgotamento do petróleo. E toda aquela conversa dos anos 70 sobre o fim dos recursos disponíveis era bobagem.
O livro provocou uma tempestade nos meios acadêmicos. Estudiosos do meio ambiente disseram que suas generalizações não tratavam com seriedade assuntos complexos. Abria-se a temporada de caça a Lomborg, que era louvado por um lado e massacrado em igual medida por outro.
"O fato é que a reação ao livro foi muito forte", diz Lomborg, que esteve recentemente em Londres para lançar Global Crises, Global Solutions, outro livro polêmico, em que discute a melhor forma de gastar dinheiro para ajudar os pobres. "Amigos ficaram sem conversar comigo. E muita gente de quem eu não gostava queria minha amizade. Seja como for, me considero de esquerda."
Passada a tormenta, Lomborg ressurgiu, senão vingado, pelo menos desculpado. Ele granjeou respeito por desafiar o movimento ambientalista. Aos poucos, diz ele, suas idéias começaram a repercutir. Hoje, O Ambientalista Cético faz parte do currículo das escolas e os governos pedem sua orientação. A revista Time o elegeu como uma das pessoas mais influentes do mundo.
O novo livro de Lomborg quer ser levado a sério. Ele reuniu em 640 páginas alguns dos principais economistas americanos defensores do livre mercado, inclusive três ganhadores do Prêmio Nobel, para que discutissem de que modo gastar hipotéticos US$ 50 bilhões ao longo de quatro anos, de tal forma que seu uso revertesse no maior bem-estar possível para a humanidade. Lomborg apenas editou o livro. Porém, pelo que se pode depreender do prefácio e da análise feita por ele, é evidente que está de acordo com as conclusões ali apresentadas.
Todos concordam que faz sentido priorizar os gastos com coisas "do bem": em primeiro lugar na lista aparece o combate à aids; depois, desnutrição e água. E, em seguida - surpresa! -, a promoção de políticas de livre comércio em todo o mundo. Haveria coisa mais de direita? Contudo, a lista prossegue e, lá pelas tantas, quase em último lugar, aparece a mudança climática, que para nossos estudiosos é pura perda de tempo e, por conseguinte, não vale a pena gastar dinheiro tentando resolver esse problema. Coincidentemente, foi esse o argumento que Lomborg defendeu no O Ambientalista Cético.
Será possível que ele tenha escolhido a dedo esses três economistas americanos partidários do livre comércio? Por que há apenas um representante de país em desenvolvimento? E por que foi pedido a eles que refletissem sobre o melhor uso possível do dinheiro no decorrer de quatro anos, quando se sabe que uma coisa como a mudança climática leva necessariamente muito tempo para ser equacionada?
Em outras palavras, será que houve nisso, como disseram o Greenpeace e outros, alguma predisposição explícita para a grosseria e a ignorância, como se houvesse aí a intenção de agredir a ética, a ecologia e a política?
Lomborg diz que não. Os melhores economistas do mundo, acrescentou, são americanos, porém outros foram igualmente convidados. "Falamos com Jeffrey Sachs e Joseph Stiglitz, mas a agenda de ambos estava lotada", explica. "Achamos que a equipe escolhida deveria ser formada pelo melhor do mundo acadêmico. Pensei que o aquecimento global apareceria no topo da lista."
Em seguida, Lomborg faz aquele tipo de afirmação generalista que tanto enfurece os cientistas. "Não creio que devamos nos preocupar com o aquecimento global", diz. "Concordo que o aquecimento global pode se tornar um problema, mas não vamos exagerar. Não creio que esteja piorando, mas certamente está aparecendo mais na mídia."
Embora concorde que a mudança climática é um fato, Lomborg diz que se trata de algo ainda muito distante para que nos preocupemos agora. Ele não aceita a evidência apresentada pelos principais grupos ambientalistas, e respaldada pelo chefe da equipe de mudanças climáticas das Nações Unidas, de que os padrões do tempo estão mudando, e que os agricultores que praticam a lavoura de subsistência estão cada vez mais à míngua.
Seu principal argumento é o de que o dinheiro seria melhor investido naquilo em que os retornos são certos e mensuráveis. Como o cumprimento às metas de mudanças climáticas propostas pelo Protocolo de Kyoto custaria cerca de US$ 150 bilhões, é imperativo que o mundo saiba que todo esse dinheiro poderia ser gasto em outra coisa, salvando milhões de vidas ameaçadas hoje pela malária, pelo HIV, pela desnutrição ou pela falta de água. "Estou simplesmente perguntando: 'Não há coisas no Terceiro Mundo que mereçam muito mais a aplicação desse dinheiro?' O Greenpeace e outros dizem: 'Vamos ajudar o Terceiro Mundo em relação ao aquecimento global.' Para mim, isso é ver as coisas com os óculos do Primeiro Mundo. Todos os modelos mostram que o Protocolo de Kyoto não resolverá coisa alguma."
Portanto, qual a diferença entre as posições de Lomborg e as do presidente americano George W. Bush, já que os dois concordam que a mudança climática não deve ser motivo de preocupação e o livre comércio é melhor?
"Nós (de esquerda) temos de escolher a causa certa pela qual lutar. Você quer fazer o bem ou facilitar as coisas para a indústria? Quantas pessoas devemos tentar salvar: 10 mil ou 10 milhões? A direita simplesmente ignora todos esses problemas. Queremos fazer o bem de verdade, e não ganhar dinheiro para as empresas."
"Só podemos gastar nosso dinheiro uma única vez. Portanto, devemos gastá-lo bem. Em qualquer outra área, isso é óbvio, mas o meio ambiente ainda é algo relativamente novo, que precisa amadurecer."
OESP, 14/11/2004, Vida, p. A21
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