O Globo, Opinião, p. 18
12 de Nov de 2016
O desafio de dimensionar a tragédia de Mariana
Um ano depois do acidente, não se sabe se reparações (ambientais e sociais) são as mais adequadas. MPF alerta para o potencial de desastres em outras barragens
No atacado, sabe-se que o rompimento de uma barragem da mineradora Samarco, em Mariana (MG), um ano atrás, tornou-se o maior acidente ambiental do país - e um dos mais graves já registrados no mundo. A lama que tomou conta do leito do Rio Doce, a partir do distrito de Bento Rodrigues, esparramou-se rumo ao mar, deixando um rastro de destruição e comprometendo parte da plataforma do litoral do Espírito Santo.
As cenas dessa tragédia impressionam até hoje, tanto pelos momentos de terror vividos pelos moradores na linha de destruição, registrados em tempo real, quanto, estancada a correnteza de lodo, pelo desolado cenário do que restou de diversas localidades atingidas.
Mas é no varejo das tragédias em torno de famílias e localidades inteiras que as consequências do desastre são enfrentadas - e, pior, sem que, decorrido um ano, a extensão do acidente tenha sido totalmente dimensionada. Há lições em retrospecto e à frente a se tirar do episódio, em especial pelo poder público, responsável por manter estruturas de fiscalização que, em tese, deveriam evitar flagelos como este. Mas também, em boa dose, pelas empresas que operam atividades afins, e não só em Minas. A questão é saber se as partes fazem os deveres de casa.
No que diz respeito ao acidente em si, questão ligada ao que aconteceu em Minas no fim do ano passado, como ainda não se dimensionou inteiramente o tamanho da tragédia, é difícil saber até que ponto avançaram os trabalhos e o compromisso de reconstrução de áreas destruídas, a indenização das vítimas, os cuidados na prevenção de novos rompimentos etc. Muito menos é possível saber qual a intensidade do impacto do despejo de 43,8 milhões de metros cúbicos de rejeitos que vazaram da barragem da Samarco. O que se vê a olho nu é um imenso território, ao longo do Rio Doce, reduzido a inóspitas paisagens onde antes centenas de famílias viviam à base de uma economia centrada nos frutos do rio e das terras por ele irrigadas. Como medir o tamanho, em custos econômicos e sociais, desse flagelo? Sabe-se apenas que são enormes.
Analisando o desastre sob a perspectiva do que está no horizonte, também fica a dúvida quanto a probabilidade de, tendo acontecido, o acidente ter contribuído, ao menos, para acender luzes de alerta. Reportagem recente de "O Estado de S.Paulo" sustenta, citando uma análise do Ministério Público Federal em 397 barragens no país, que mais da metade delas tem potencial de causar danos semelhantes ao provocado a partir de Mariana. É um problema nacional, mas que se acentua em Minas, estado onde a mineração tem participação de peso na matriz econômica.
Um ano depois, teme-se que a lição de Mariana e sua cadeia de danos sociais e ao meio ambiente não tenha sido inteiramente apreendida pelo país, por suas instituições oficiais de prevenção de acidentes e por empresas que negligenciam suas responsabilidades.
O Globo, 12/11/2016, Opinião, p. 18
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